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Algunas notas sobre o Compendium Grammatices notas... · PDF fileAlgumas notas sobre o Compendium Grammatices Hebraeae de Baruch Spinoza Em 1987 foi editada uma versão francesa do

Aug 11, 2018

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  • M. A. RODRIGUES

    Algunas notas sobre o Compendium Grammatices Hebraeae

    de Baruch Spinoza

    Separata de HELMANTICA Vol. XLIX, nms. 148-149 Enero-Agosto 1998

    UNIVERSIDAD PONTIFICIA DE SALAMANCA

  • Algumas notas sobre o Compendium Grammatices Hebraeae de Baruch Spinoza

    Em 1987 foi editada uma verso francesa do Compendium Grammatices Hebraeae do grande pensador de ascendncia portuguesa Baruch Spinoza (1632-1677); essa traduo foi elaborada por Joel Askenzi e Jocelyne Asknazi-Gerson, tambm autores de uma introduo e notas explicativas; o prefcio de Ferdinand Alqui I. Quer o prefcio quer a introduo oferecem um admirvel ponto de partida para tecer algumas apropriadas consideraes sobre este tratado de Spinoza, das quais nos serviremos no presente estudo. Em 1905 havia sido feita uma verso hebraica e em 1962 uma para ingls 2.

    A gramtica, escrita a pedido de amigos seus hebraisantes, devia servir para texto de ensino do idioma santo. pena que falte a parte relativa sintaxe, da qual Spinoza fala vrias vezes ao longo da gramtica, e tambm um prefcio no qual

    I Abrg de grammaire hbrai"que. inlroduclion, Iraduction el nOles par Joet Askna el Jocelyne Askna-Gerson. Prface de Ferdinand Alqui, professeur la Sorbone. Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1987. A gramtica hebraica de Baruch Spinoza foi escrita em latim e includa na parte final dos Opera poslhuma, obra que inclui ainda a Elhica more geomelrico demonslrata. a Polilica, o De emendalione inelleclus e as Epislolae el ad eas responsiones; os Opera poslhuma foram publicadas em Hamburgo, na tipografia de Henricus Knrath, em 1677. Femand Alqui autor de alguns livros filosficos, como Nostalgie de l' lre, Paris, 1950; Spinoza (curso dado na Sorbona em 1953-1954, ainda indito; L'Exprience, c. IV, Paris, 1958; Nmure el Vril dans la Philosophie de Spinoza, Paris, 1958; Servilude el Liberl selon Spinoza, Paris, 1959.

    2 A verso inglesa intitula-se Hebrew grammar (Compendium grammalices linguae hebraeae), Nova York, Philosophical Library, 1962.

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    certamente se teria referido a um certo nmero de caractersticas do hebraico, das quais j havia falado no c. VII do Tractatus. O Compendium grammatices limguae hebraeae foi editado em 1677 juntamente com a primeira edio dos Opera Posthuma de Spinoza, constituindo o seu quinto e ltimo ttulo. No teve a divulgao da restante produo literria do autor e s se fizeram as verses j referidas.

    Em Novembro de 1953, aquando da primeira lio do seu . curso na Sorbona sobre Spinoza, Ferdinand Alqui lembrava

    que havia um livro no includo nas tradues das Obras Completas do grande filsofo de Amsterdo, de ascendncia portuguesa. Pressentia Alqui o interesse filosfico deste trabalho spinoziano, pelo que aconselhava eventuais hebraisantes a proceder respectiva traduo.

    E foi o que veio a acontecer: pela primeira vez era feita a traduo para francs da gramtica hebraica de Spinoza, graas ao trabalho de JoeI Asknazi e Jocelyne Asknazi-Gerson. O facto de o texto original ser em latim podia constituir uma grande dificuldade para muitos leitores. Mas, prossegue Alqui, bom lembrar que a gramtica se insere na problemtica filosfica de Spinoza, que nela trabalhou afincadamente durante muitos anos:

    Il n' est pas permis un historien des ides s' efforant de comprendre la philosophie de Spinoza de ngliger un tel ouvrage. une poque ou, pour clairer la pense d' un auteur, on va parfois chercher ses moindres brouillons, comment un trait, non achev sans doute, mais mis en forme jusqu' au trente-troisieme chapitre pourrait-il demeurer inconnu de presque tous?

    Logo de seguida, diz Alqui que isso seria tanto mais lamentvel quanto certo que hoje se associa o pensamento filosfico spinoziano tradio judaica:

    Comment alors ne pas s' interroger sur ce que Spinoza a pens de la langue dans laquelle cette tradition lui a t transmise? D'autre part, les philosophes contemporains accordent de plus en plus d' intrt au probleme du langage. Est-il possible de ngliger les pages que Spinoza a consacres un tel sujet?

  • ALGUNAS NOTAS SOBRE O COMPENDIUM GRAMMATlCES... 113

    Mais adiante escreve que o interesse no s gramatical como tambm filosfico. E, a propsito do ltimo aspecto, acrescenta que uma das ideias dominantes de Spinoza que os gramticos antes dele ont cru irregulieres beaucoup de choses pmfaitement rgulieres (palavras do pensador judeu de Amsterdo) 3.

    Alis essa ideia constante ao longo da gramtica de Spinoza: ele insurge-se contra a noo de excepo. E pergunta Alqui:

    Comment ne pas rapprocher ce souc de celui qui anime le philosophe lorsqu' il considere les lois de la nature comme universelles, proclame leur ncessit, affirme que rien, mme dans l' apparence des miracles, ne peut se produire en dehors d' elles, et contrariement elles?

    No c. V da sua gramtica o autor do Tractatus afinna que as palavras hebraicas, ao contrrio das latinas, tm quase todas o valor e as propriedades do nome. Define o nome como sendo uma palavra pela qual ns significamos ou indicamos alguma coisa que cai sob o entendimento; e o que cai sob o entendimento so por um lado coisas, os seus atributos, os seus modos e as suas relaes, por outro lado as aces, bem como os seus modos e' as suas relaes. Como exemplos, apresenta nomes que so atributos do homem:

    Homem, ilh~ sbio, o:m e grande '?i,:r Sob, nnn, sobre, so nomes que mostram a relao que um homem tem com as coisas.

    Do mesmo modo, li?;;t, ir, o nome de uma aco que no tem nenhuma relao com o tempo; e recorda que o infinitivo, que em latim um modo, em hebraico um nome puro e

    3 C. B. Spinoza [1987: v, incio] onde se l que, exceptuando as interjeies, as conjunes e um ou dois particpios, todos os nomes hebraicos tm o valor e as propriedades do nome, concluindo assim: EI c' esl pane que ies grammariens ne l' onl pas compris qu' iis onl cru irrgulieres beacoup de choses parfailemenl rguiieres -si l' on se rfere l' usage de ia iangue-- el qu' iis onl ignor un cerlain nombre de choses ncessaires pour connaltre el parier ia iangue hbrai"que

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    simples; o infinitivo no conhece, portanto, nem passado, nem presente, nem nenhum o.utro.

    Quanto a il";1i10, depressa, um modo da aco de caminhar; Hoje, oi'il, amanh, '':lO so relaes de tempo.

    E conclui dizendo que h seis espcies de nomes: o nome substantivo, dividido em nome prprio e nome comum, o adjectivo, o relativo ou preposio, o particpio, o infinitivo e o advrbio; e diz de seguida que a estes se deve acrescentar o pronome que substitui o nome substantivo.

    A propsito dos nomes, aproveita ainda para sublinhar que, pelo nome prprio substantivo, no podemos exprimir seno um indivduo singular, pois cada indivduo no tem seno um nome prprio, o mesmo se podendo dizer de cada aco. Do que se conclui que o nome prprio substantivo, como o infinitivo e o advrbio, que por assim dizer so adjectivos de aces, com os quais devem concordar em nmero, no se exprimem seno no singular. Mas os outros nomes podem exprimir-se quer no singular quer no plural. E acentua: disse bem: os outros nomes, pois as preposies tm tambm um plural, como vem explicado no c. X. E comenta Alqui: Voiei dj des termes qui veillent l' intrt de tout historien du spinozisme.

    Outro exemplo encontra-se no c. X: as preposies so nomes e podem ter um plural. Assim o plural de entre, niJ':::l, faz-nos conhecer no a relao duma coisa individual com outra, mas os intervalos, isto , os lugares ou os tempos, intermedirios entre as coisas. Da poder concluir-se: La valeur philosophique de telles remarques n' a pas mme pas tre souligne.

    Outro caso evidenciado por Alqui reporta-se relao dos modos e do tempo e coloca em destaque o elo, que para ele essencial, entre temporal idade e actualidade. Assim se explica que o particpio degenere em adjectivo, ou seja, em ideia geral; pois a coisa deixa de ser considerada como afectada no presente.

    Exemplifica Alqui, apoiando-se no que escreve Spinoza, com o caso do particpio Ipio, homem que conta e que acaba por designar o homem cuja funo contar, ou seja, o escrivo.

  • ALGUNAS NOTAS SOBRE O COMPENDIUM GRAMMATICES... 115

    o mesmo se diga do homem que julga que vem a designar o juiz: n;JiiliD. Pelo que Alqui comenta:

    Il est clair qu' en ceci la critique des ide gnrales, et ceLie de L' ide de fonction, L' intrt attach par Spinoza au concret, et ce qui, effectivement et reLiement, a Lieu, sont impliques.

    A noo spinoziana de tempo merece ser realada; no c. XIII l-se que os hebreus no admitiam como partes do tempo seno o passado e o futuro e no consideravam o presente seno como um ponto; o presente era para eles o limite indivisvel dos dois tempos.

    No fim do c. XIV Spinoza fala das relaes do imperativo com o futuro, explicando que uma ordem ou proibio divinas s tm sentido como anunciadores do que acontecer se tal determinao for concetizada. No c. IV do Tractatus trata Spinoza do pecado de Ado, aplicando a as explicaes acabadas de apresentar. Na sua explanao, Spinoza volta a dizer que os infinitivos se declinam como os outros nomes; os casos no so somente indicados pelas preposies inseparveis ::I, '?, ::J, D, mas tambm por qualquer outra preposio. Assim no Gn. 12, 10 l-se: antes de Deus perder Sodoma; no Deut. 7, 20: at mOrrer.

    Porque cada verbo tem um to grande nmero de modelos de infinitivos, isso mostra que o mesmo verbo pode ser utilizado segundo cada um desses modelos.

    E escreve Spinoza:

    Com efeito, como j o afirmei, os verbos em hebraico so adjectivos que concordam com o nominativo, em gnero, nmero e caso; e estes adjectivos tomados de modo absoluto, sem nominativo, empregues como substantivos de nenhum gnero, indicam o infinitivo. Essa a razo porque se exprime o infinitivo empre

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