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discursos do eu e da pátria em Antonio Vieira Z PM Z Z
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Jan 08, 2017

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  • discursos do eu e da ptria em Antonio VieiraZPMZZ

  • Universidade Estadual de Santa Cruz

    GOVERNO DO ESTADO DA BAHIAJAQUES WAGNER - GOVERNADOR

    SECRETARIA DE EDUCAOOSVALDO BARRETO FILHO - SECRETRIO

    UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZADLIA MARIA CARVALHO DE MELO PINHEIRO - REITORA

    EVANDRO SENA FREIRE - VICE-REITOR

    DIRETORA DA EDITUSRITA VIRGINIA ALVES SANTOS ARGOLLO

    Conselho Editorial:Rita Virginia Alves Santos Argollo Presidente

    Andra de Azevedo MorgulaAndr Luiz Rosa Ribeiro

    Adriana dos Santos Reis LemosDorival de Freitas

    Evandro Sena FreireFrancisco Mendes Costa

    Jos Montival Alencar JuniorLurdes Bertol Rocha

    Maria Laura de Oliveira GomesMarileide dos Santos de Oliveira

    Raimunda Alves Moreira de AssisRoseanne Montargil Rocha

    Silvia Maria Santos Carvalho

  • discursos do eu e da ptria em Antonio VieiraZPMZZ

    2 Edio

    2014

    Ilhus-BA

  • Copyright 2014 by JORGE DE SOUZA ARAUJO

    Direitos desta edio reservados EDITUS - EDITORA DA UESC

    A reproduo no autorizada desta publicao, por qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violao da Lei n 9.610/98.

    Depsito legal na Biblioteca Nacional, conforme Lei n 10.994, de 14 de dezembro de 2004.

    PROJETO GRFICO E CAPADeise Francis Krause

    IMAGEM DA CAPARetirada do site:

    www.morguefi le.com/creative/rollingroscoe

    REVISODorival de FreitasMaria Luiza Nora

    Roberto Santos de Carvalho

    EDITORA FILIADA

    Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)

    EDITUS - EDITORA DA UESCUniversidade Estadual de Santa Cruz

    Rodovia Jorge Amado, km 16 - 45662-900 - Ilhus, Bahia, BrasilTel.: (73) 3680-5028www.uesc.br/editora

    [email protected]

    A663 Arajo, Jorge de Souza. Profecias morenas : discurso do eu e da ptria em Antonio Vieira / Jorge de Souza Arajo. 2. ed. Ilhus, BA : Editus, 2014. 284 p. Inclui referncias. ISBN- 978-85-7455-353-5 1. Vieira, Antonio, 1608-1697 Crtica e interpreta- o. 2. Vieira, Antonio, 1608-1697 Sermes. 3. Ln- gua portuguesa Sculo XVII. 4. Ensaios. I. Ttulo. CDD 922.2469

  • No sou eu o que hei de comentar o Texto: o Texto que h de comentar a mim (...) Eu repetirei as suas vozes, ele bradar os meus silncios.

    Antonio Vieira(Sermo da Epifania, 1662)

    LL L

  • Aos ex-alunos, ou quase alunos, Adriana Ghazza Telles, Marcos Velho Botelho,

    Maurcio Lee-K Galvo, Tatiana Ghata Lima, Paulo DAnto e Osny Nico Telles e mais outros enormssimos colaboradores,

    os pacientssimos Daise Rocha, Jasiel Machado e Joilson Rocha, sem cujo

    concurso ciberntico e humanista este trabalho no teria chegado a seu termo.

    LL L

    Aos mestres Cludio Veiga e Carlos Cunha,ldimos restauradores do cavalheirismo e

    da cordialidade,in memorian.

  • Para Carla.s

  • PREFCIO

    O modelar ensaio publicado pelo professor Jorge de Souza Araujo em 1999 Profecias morenas: discurso do eu e da ptria em Antonio Vieira fi nal e felizmente encontra nova edio neste ano. Ao transcender a preocupao com a tpica seiscentista, enfoque fossilizado em abordagens a Gregrio de Mattos e Guerra e ao padre Antonio Vieira, o ensasta analisa a produo discursiva do sacerdote, sem elidir as marcas da existncia, os traos de sua histria de vida, mas para muito alm da mera crtica biogrfi ca que instaurou uma tradio em nosso pas desde seu lcus originrio na crtica e na histria da literatura durante o sculo XIX.

    O crpus deste trabalho investigativo-analtico composto por cartas e sermes de Vieira, com recorte mar-cado em sua correspondncia ativa e nas pregaes reali-zadas em territrio baiano. No se trata, contudo, e como alertamos, de uma tentativa de reconstruir o eu biogrfi co nas malhas do discurso, mas de entender os graus de au-tonomia que porventura se apresentassem como possveis ao sujeito produtor no sculo XVI. Como sabemos, esse fi -cava ento circunscrito aos dogmas religiosos, retrica da poca e aos aparelhos de controle capazes de garantir a permanncia das normas e das regras morais que regiam a sociedade colonial.

    J na introduo ao texto ora apresentado, que se de-nomina Um Vieira fora da ordem, o estudioso esclarece seu intento de se voltar escrita do padre, considerando

    U UL

  • as modulaes psicolgicas do indivduo autor, sua natu-reza multifria e dispersa, ora acrescentando-se em angs-tia e autocomiserao, ora excluindo-se do discurso para privilegiar zonas obscuras que digam respeito s lacunas sociomorais e religiosas, o que faz em testemunho e crtica infatigavelmente.

    Os cinco primeiros captulos do ensaio, Vria me-mria do eu; Persona e sentimento; Poltica e dou-trina; Retrica e potica; Profecia e messianismo, nunca deixam de vincular a obra ao ser humano que a produziu e viveu a vida. As interpretaes que emite e as observaes das quais se torna alvo, no menos argutas, iluminam o entendimento do que hoje escrita depoen-te e ontem foi mensagem ou palavra ao vento. No nos situamos diante de um sujeito homogneo, entretanto, mas de um ser desdobrado entre vrias posies discur-sivas e subjetivas.

    No decorrer do livro, o sexto captulo, Primeiros sermes e carta nua, como seu ttulo indica, detm-se na Carta nua e em 23 sermes pregados quando da pri-meira vez em que Vieira residiu na cidade da Bahia. O stimo captulo, Cartas na manga, analisa 152 corres-pondncias endereadas s mais diversas personalida-des histricas do mundo luso-colonial. Por fi m, a oitava e ltima seo ensastica, ltimos sermes, abarca tex-tos decorrentes das prdicas efetuadas por Vieira entre os anos de 1681 e 1697, quando de seu regresso Bahia.

    No percurso de uma leitura bastante prazerosa, tal-vez impensvel em razo da importncia e da quantida-de das informaes oferecidas, Jorge Araujo faz-nos de-parar com um Vieira que, antes de sujeito da enunciao, se mostra como um ser humano descortinado no ato de ler, com suas fontes e seus processos receptivos, com seus interlocutores e reprocessamentos, com a histria colo-nial e a histria literria. Enfi m, nos meandros de uma

  • histria cultural ao mesmo tempo enxuta e erudita que os rendilhados confessionais desvestem o padre para desvelar o homem. Ultrapassando limites impostos pelos grilhes retricos sempre que possvel, estas Profecias morenas par-tem do eu para encontrar a ptria e vice-versa; referindo-se a um tempo em que a conceituao desses termos ainda pertencia s utopias do futuro, vem oferecer-lhes emprego apropriado no exato momento em que o veio biogrfi co pa-rece reabilitar-se em vrias esferas das Cincias Humanas.

  • SUMRIO

    Introduo: Um Vieira fora da ordem ............... 17

    I Vria memria do eu ............................... 31

    II Persona e sentimento ............................. 45

    III Poltica e doutrina ................................ 61

    IV Retrica e potica .................................. 79

    V Profecia e messianismo ........................ 103

    VI Primeiros sermes e Carta nua ....... 113

    VII Cartas na manga ............................... 211

    VIII ltimos ser(m)es ............................ 243

    Referncias ....................................................... 281

    LL L

  • INTRODUO

    Normalmente, a anlise de vida e obra de Antonio Vieira corre parelhas na direo unvoca de uma amos-tragem que chega s raias ou do enaltecimento o seu tan-to exagerado, ou do azedume da considerao moralista, ressentida ou mal-humorada. Ambas torcidas ou hiper-blicas, perdem de vista a fi gura mltipla de Vieira. No caso de tomar-se a obra como projeto de individuao de seu autor, nunca chegou mesmo a ser objeto de cogitao a srio. Desloca-se o eixo de observao do Vieira prega-dor para o poltico, o missionrio, o diplomata, o sebas-tianista, e no se conhece um trabalho que indique ou perceba as modulaes psicolgicas do indivduo autor, sua natureza multifria e dispersa, ora acrescentando-se em angstia e autocomiserao, ora excluindo-se do discurso para privilegiar zonas obscuras que digam res-peito s lacunas sociomorais e religiosas, o que faz em testemunho e crtica infatigavelmente. E, no entanto, a obra de Antonio Vieira serve-se muito apropriadamente a estudos dessa natureza, uma vez que surpreendemos, ainda que de forma pouco usual e contraditria, o indi-vduo e seus projetos existenciais sob a capa austera e rigorosa do doutrinador e moralista, servo obediente da Companhia de Jesus.

    Este Profecias morenas: discursos do eu e da ptria em Antonio Vieira intenta o rastreamento da fi gura e personalidade do pregador, sua cosmoviso e fi losofi a, sua identidade religiosa e panfl etria, o percurso do

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    indivduo dissimulado em suas aes, no como uma tentativa de justifi cao de atos da vida para explicaes da obra, gesto de resto intil, tal o movimento de ordem/desordem das ideias do pregador a contrariar qualquer possibilidade de estabelecimento de normatizao ideolgica. Fruto de contradies, apropriando-se de recursos disponveis na cultura, na cincia, na histria, na teologia, enfi m, em todos os ramos do conhecimento em seu tempo, para caracterizar uma ao efetiva de evangelizao e voto missionrio, dele disse J. Lcio de Azevedo que s quando perora em causa prpria lhe sai da alma a clera ou o despeito1. possvel que assim se d, mas identifi camos um avano maior na perspectiva assimtrica, uma vez que tal clera e/ou despeito igualmente podem manifestar-se, mesmo quando excede ou se amplia a causa prpria. Dito noutros termos, essa causa prpria transcende a fi gura do pregador, sendo causa de sua ideologia, ou, e no raro, transformada a causa de outrem (a dos ndios, dos judeus, dos brasileiros, dos pobres) em causa sua. O fato que, quando se apaixona por uma causa (e sua obra evidencia esse estado de paixo em nvel de permanncia acentuada), Vieira torna-a em estgio de individuao permanente e o discurso/queixume/protesto do outro passa a ser seu prprio, incluindo-se a todo o repertrio infi nito de verve e ironia, escndalo ou espetculo forma de mostrar-se aos olhos, comover pelo olhar e pelos sentidos at instaurar uma nova prtica. Nessa linha, a trajetria existencial de Vieira um documento vivo e expressivo do quanto o indivduo pode ser extremamente fi el a si mesmo, vencendo cada dia a cada risco, numa luta para debelar o inferno de cada um.

    1 In: Histria de Antnio Vieira, 1992, v. 1, p. 62.

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    Antonio Vieira (1608-1697) na Bahia 43 anos em duas importantes fases, de formao (1614-1641) e con-fi rmao de sua escritura pela ordenao da obra (1681-1697) , muito j se disse, brasileiro e baiano por se-gunda ptria e aqui foi que inequivocamente moldou a tmpera de seu polmico e defi nitivo trabalho. De 1614 a 1641 como que Vieira toma o Brasil para espelho de suas vivncias e o retoma ps experincias desenvolvidas na Metrpole entre 1641 e 1681. Sua permanncia e seu retorno Bahia funcionam como peas de retomada das projees do espelho original, cujas reverberaes, desen-voltas de 1681 a 1697, do o mote do patriotismo sagrado, consubstanciado na noo da ptria nica de Deus, ideia, alis, que encontra eco nas prticas profticas da Bblia.

    No deixa de ser parcialmente verdadeira a assero de um Vieira brasileiro, de esprito afeito e contrafeito s peculiaridades da segunda ptria que adotou como sua, sofrendo e administrando confl itos que tinha como seus e de seus contemporneos na Bahia, onde denuncia os ml-tiplos contrastes de uma colonizao brutalizada pelo ex-trativismo rudimentar e violento. Nesse universo de am-plo signifi cado, resenhamos as relaes do pregador com a Bahia, cabea do que chamava de Provncia (no Colnia) e ptria de sua formao. Para tanto escolhemos rastrear a identidade pessoal do pregador e sua apaixonada ten-tativa de integrar Bahia e Brasil no mapa da civilizao catlica do Seiscentismo a partir dos sermes e cartas escritos e motivados por sua inteireza crtica e analtica nessa sua ptria de adoo. Os primeiros sermes e a Car-ta nua representam a primeira tonalidade morena do pregador, salientando-se postulados e carter do gentlico brasileiro. As cartas datadas da Bahia, no retorno do pre-gador ao Brasil, evidenciam um temperamento persona-lssimo, um testemunho crtico que se sustenta at o fi nal da vida do seu autor, em tudo sintonizado e vigilante com

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    o mundo em volta. Essas cartas so rigorosamente peas de informao historiogrfi ca, literria e antropolgica, de raro e instintivo compromisso tico/fi losfi co, documentos compsitos da multifacetada realidade barroca do Seis-centismo. Os ltimos sermes, que aqui se provocam ludi-camente com a alternncia oclusiva seres, assinalam uma docncia perscrutadora e revolucionria, como se tornara a primeira tarefa da educao o ensinar a ler, a olhar o mundo, aqui devidamente temperada pela fragilizao do pregador, vulnervel, mas nunca dobrado ante os contr-rios de uma existncia to rica de experimentos.

    Os cinco primeiros captulos deste trabalho preten-dem oferecer uma viso geral que situe, na forma da con-veno, o conceito tradicional do homem Antonio Vieira e sua obra, contribuindo, entretanto, para a memria cognitiva dos vrios eus do pregador e sua projeo indi-vidual, seus tnos poltico, doutrinrio, potico, retrico, proftico e messinico, tudo confl uindo para uma anlise da persona e sentimento do pregador.

    Os textos que compem os captulos 6, 7 e 8 sequenciam o trabalho, distribudos numa ordem arbitrariamente cronolgica, com variao tpica e espao social da Bahia, de forma a ressaltar a frequncia de um tempo pessoal de formato brasileiro na palavra do pregador. So, no captulo 6, a Carta nua e mais 23 sermes da primeira permanncia de Vieira na Bahia: Sermo da Quarta Dominga da Quaresma (1633), Dcimo Quarto do Rosrio (1633), Dcimo Segundo do Rosrio (1639), Vigsimo Stimo do Rosrio (s/d), De So Sebastio (1634), Do Sbado Antes da Dominga de Ramos (1634), Da Conceio da Virgem Senhora Nossa (1635), Ao Enterro dos Ossos dos Enforcados (1637), De Santo Antonio (1638) De Santa Cruz (1638), Da Segunda Quarta-Feira da Quaresma (1638), Da Visitao de Nossa Senhora a Santa Isabel (1638), Da

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    Dominga Dcima Nona Depois de Pentecostes (1639), Do Gloriosssimo Patriarca So Jos (1639), De Nossa Senhora da Conceio (1639), De Nossa Senhora do (1640), Do Quarto Sbado da Quaresma (1640), Pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal Contra as de Holanda (1640), Da Visitao de Nossa Senhora (1640), Do Dia de Reis (1641), Do Nascimento do Menino Deus (circa 1639), Exaltao domstica em vspera da Visitao (entre 1633 e 1640), Comento ou Homilia sobre o Evangelho da Segunda-feira da Primeira Semana da Quaresma (entre 1633 e 1640) e De Santo Estvo (entre 1633 e 1640).

    As cartas so endereadas ao geral Joo Paulo Oli-va, em Roma (anunciando partida, 21/01/81); ao duque de Cadaval; arcebispo de Calcednia, nncio apostlico de Lisboa; arcebispo da Bahia; cnego Francisco Barreto; marqus de Gouveia; conde da Ericeira; Roque da Costa Barreto; Cristvo de Almada; Diogo Marcho Temudo; provincial da Companhia em Portugal; Antonio Paes de Sande; conde da Castanheira; conde de Castello-Melhor; Antonio Lopes Boaventura; Sebastio de Matos e Sou-za; padre Antonio Maria; Bispo de Pernambuco; Rainha dona Maria Sofi a; Luiz Gonalves da Cmara; padre Le-opoldo Fuess; Cardeal Arcebispo, inquisidor geral; Pe-dro de Melo; marqus do Alegrete; padre provincial do Carmo; serenssimo rei dom Pedro II; Francisco de Brito; padre Manuel Dias; marqus das Minas; Certo fi dalgo da Corte; Joo Ribeiro da Costa; Baltasar Duarte (padre da Companhia); padre Manuel Luiz, lente dos casos no Colgio de Santo Anto; serenssima rainha da Gr-Bre-tanha; e Manuel Pires, da Companhia. Ao todo, so 152 cartas, de larga ou curta extenso, alguns destinatrios em maior nmero, outros com uma s carta. Agregam-se os fragmentos (oito) dirigidos a annimos, com exce-o do bispo do Japo e do padre Nuno da Cunha, Pedro Pedrosa, Gonalo de Veras e padre Francisco de Avelar.

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    Todas as cartas foram extradas da edio Lisboa: Edito-ra Empresa Literria Fluminense, de organizao anni-ma, s.d., 2 v. O volume de que mais nos servimos foi o II.

    O captulo 8 trata dos ltimos sermes proferidos na Bahia, entre 1681 e 1697, perodo do retorno do pregador. Esto impregnados do delrio mstico do Quinto Imprio, mas no perdem a graa original e o extraordinrio senso de manejo do idioma, do estilo pessoal e das habilidades retricas e estticas prprias do pregador. So, no total, oito: Palavra de Deus empenhada no Sermo das ex-quias da Rainha dona Maria Francisca Isabel de Sabia (1684), De Ao de Graas pelo nascimento do prncipe dom Joo, primognito de SS. majestades que Deus guar-de (1688), Discurso apologtico oferecido secretamente rainha Nossa Senhora para alvio das suas saudades, depois do falecimento do prncipe dom Joo, primognito de SS. majestades (circa 1688), Sermo Domstico (1689), Exortao Primeira em vspera do Esprito Santo (circa 1689), Sermo de ao de graas pelo felicssimo nas-cimento do novo infante de que a majestade Divina fez merc s de Portugal (1695), Sermo gratulatrio a So Francisco Xavier pelo nascimento do quarto fi lho varo que a devoo da rainha Nossa Senhora confessa dever a seu celestial patrocnio (1695 ou 1696) e Sermo do Feli-cssimo Nascimento da serenssima infanta Teresa Fran-cisca Josefa (1696 ou 1697).

    Com esses textos e outros que lhes sejam conexos, buscamos restabelecer contiguidades percebidas nas re-laes homem-obra, abandonando-nos a um elenco de probabilidades do discurso individual, conquanto no se advogue aqui a estreiteza do biografi smo atrelado ou ma-nietado servilmente obra. Pretende-se uma rota estils-tica/esttica singular, na medida do estudo do estilo viei-rano em sermes e cartas, estilo acompanhado de leituras de outros autores e leitura de mundo com a leitura de si, a

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    documentao atormentada de um indivduo no sculo 17 professo numa Companhia que prev obedincia muda e cega, obedincia de cadver , durante muito tempo o homem mais importante e poderoso no reinado portugus de dom Joo IV e, no entanto, um indivduo em franca crise pessoal de felicidade, um denodado e ardoroso intr-prete de profecias, ele mesmo autoproclamado profeta de um tempo novo, tempo adventcio de encobertas e desem-penhadas vocaes de glria e gozo mstico.

    Vieira a suprema combinao de um ser leitor. Argumenta com a palavra de Deus, mas para objetos que no se sabe serem defi nidamente de Deus. No Sermo de So Roque, afi rma: A bondade no est nos meios, est nos fi ns. A despeito da pretenso cartesiana da morte da retrica com a moderna elocution de investigao si-logstica, Vieira se faz acompanhar de Santo Agostinho, para quem a verdade est na alma, o entendimento dos sentidos pela negao s intervenes humanas, posto que o que est nas Escrituras intransitivo, imutvel, irreversvel, base do j aconteceu. Vieira o que induz ignorncia do Santo Ofcio pela incapacidade deste em legitimar o processo do jesuta com base na argumenta-o e na lgica dos fatos.

    Toda a riqueza existencial de Vieira reconhecida e testada nas vrias facetas de sua personalidade. Em todas reconhece-se a marca impressiva de um indivduo singular, mas solitrio. Sensaes que se podem aferir nos discursos, mesmo os da lgica interna dos catlicos contrarreformistas. Vieira celebra a utopia de uma ptria catlica, unvoca e de-mocrtica, defendendo o conceito de ptria como aquela as-sinalada e ungida pelo sopro do Criador, nem que para isso tivesse de recorrer, num momento adverso, s trovas daque-le rude sapateiro de Trancoso, leitor e intrprete da Bblia, cujas redondilhas eram refl exos da crendice popular, assim como a prpria redondilha fenmeno popular tipicamente

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    ibrico. Bandarra sebastianista inaugural, antecipando em 40 anos para Portugal os emblemas de Isaas e Daniel. Vieira cria fatos, suas celeumas geram expectativas porque tratam de portugueses como predestinados, mesmo em face da Inquisio que esteriliza, mas no consegue impedir a li-vre frequncia de pensamentos e ideias. Vieira em busca do Texto Vivo, com uma percucincia analtica perturbadora na proposta de ressurreio de Joo IV, na morte/mortifi ca-o de uma Ulissia apavorada, descorooada pela inrcia administrativa, pela ocluso de prestgio internacional, pela poltica de terra arrasada. Em tudo Vieira fundador, recodi-fi cador da prpria arte de argumentar, refundindo a retri-ca, ampliando Aristteles e Quintiliano e a todos os outros, inclusive seus contemporneos, atravs do contributo pes-soal, mais Gracin e Quevedo, adequando ainda imagens e expresses dos gentios aos postulados do seu dogma.

    Nessa perspectiva de uma cada vez mais intensiva interveno do eu no discurso, Vieira manipula vrios campos da signifi cao. o que se depreende da percep-o enunciada por Cludio Veiga, no ensaio Vieira data-do pelo Zodaco. Veiga acredita que o Sermo pelo Bom Sucesso... tenha sido proferido entre 22/7 e 23/8/1640, por causa do trecho: Deixai j o signo rigoroso de Leo e dai um passo no signo de Virgem, signo propcio e benfi co2.

    Em vrios sermes, sobretudo nos domsticos, pre-gados intimidade crtica da Ordem, Vieira assume claramente um tom pessoal. Suas imagens refl etem sua interpretao da realidade. Compara a liberao de Por-tugal do jugo espanhol peregrinao de Madalena ao tmulo de Cristo. Cita Santa Teresa como exemplo de valor da mulher, mas resvala no preconceito cultural do seu e do nosso tempo. Isso transparece na interpretao

    2 In: Prosadores e poetas da Bahia, 1986, p.81.

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    que faz do fenmeno de haver mais homens que mulhe-res no pecado. As mulheres sero mais aceitas no Cu, segundo Vieira, entre outros motivos, porque tm me-nos entendimento, tm menos malcia (...); Mais vezes que os homens se podem salvar pela ignorncia invenc-vel. Como no ocupam os cargos normalmente destina-dos aos homens, tm menos ocasio de pecar... (Sermo incompleto Comento ou Homilia sobre o Evangelho da Primeira Semana da Quaresma in: Vieira, Sermes com-pletos. Porto: Lello, v. 1, t. 2, p. 275).

    Vieira ousa porque em seu discurso ressalta sempre a feio original, independente, autnoma. cristolgico, milenarista, analgico, intrprete livre e exegeta particularssimo da moral teolgica, especialmente a do Velho Testamento. Visionrio ativo como Galileu, penetrante e agudo na percepo histrica, solene, alegrico, panegirista ou parodstico, o tom do discurso de Vieira revela, no entanto, uma ntima e profunda impregnao de um eu clivado, que o autor tenta superar nas malhas de um texto em busca de revelaes distintas. Mesma superao reconhecvel na operao que faz quando se apropria do discurso do outro para a construo de um prprio. Poder-se-ia dizer que h um Latim Clssico, um Latim Eclesistico e um Latim vieirano, resultado de um repertrio personalssimo. A lgica em Vieira assume um papel muito particular. Das caractersticas que imprime defesa do Quinto Imprio e as razes que alinha, da anlise dos imprios dos assrios, persas, gregos e romanos, ao carter sagrado da fala de Cristo nos ouvidos de Afonso Henriques, interpretao do Encoberto na ressurreio de dom Joo IV ou do Encoberto na fi gura do infante morto, fi lho de Pedro II, ou do prximo a vir, sendo o infante imperador absoluto no Cu, convocado pelo Senhor de todos os imprios...Vieira salta de uma a outra anlise dos discursos, tudo de acordo com sua extraordinria

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    capacidade de apropriao/adequao/incorporao. Se antes criticava sebastianistas e dedicava a Bandarra solene desprezo, usa do mesmo Bandarra e de suas trovas com o sainete de verdadeiros profeta e profecias, provando que Bandarra conhecia as Escrituras e revertendo em redondilhas a fi rmeza dos conceitos que interessam ao novo intrprete. Vieira sabe que o passado memria, mas a ele recorre apenas na formulao de exemplos morais. E mesmo um Vieira surdo, quase cego, com a mo direita paralisada, meditando, ditando, declamando em voz alta, no exerccio da palavra falada, da arte de falar e convencer, ainda assim ressalta do discurso a perspectiva de um eu calcado no aporema humano, no espao e vertigem dos dias que, segundo cr, se transformaro.

    Assim na esperana de Portugal Quinto Imprio do Mundo, semelhana da expectativa judaica do Messias, o sebastianismo reformado de Antonio Vieira refunde o En-coberto em dom Joo IV, em Afonso VI, Pedro II (e antes dom Teodsio), nos fi lhos de Pedro II, um reinando no Cu, outro na terra. Ou no amor mstico de Deus, na srie de sermes do Mandato, na eterna disputa entre o conheci-mento e a ignorncia, a despeito dos conectivos concessivos (feio retrica das concesses ideolgicas, mentais, psico-lgicas, fi losfi cas) posto que, ainda que, relaes entre su-posio e suspeio, em tudo a interpretao vieirana da incompletude do homem/do mundo, da incompletude do eu, que busca a verdade e que a sabe gerente de si mesma. As relaes do cronocentrismo, da anlise da heresia como pecado do conhecimento, pecado racional, pecado que sabe que peca, em tudo Vieira ostenta uma percepo no vulgar (nas duas acepes, a portuguesa, de corrente, popular, e a pejorativa, brasileira, adjetivada superlativamente), atri-buindo verdade um valor absoluto, mas no o exprimindo ou explicitando seno pelo mistrio da Revelao. A ino-cncia se desterra quando Vieira enfrenta o poder absoluto

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    do Santo Ofcio, quando imprime ao debate a sentena e o julgamento de Deus, pois se utilizaria de todas as palavras das Escrituras, reproduzindo-as literalmente e defendendo-as literariamente; pela f encara enigmas, superando-os no Texto Sagrado. Por isso, quando questionado, Vieira pede tempo Inquisio para recompor sade e vida e a amostra de seu livro, cujo texto se ignora, no se v, mas se discute.

    E pode-se mesmo supor que boa parte das caracte-rsticas vieiranas, de comportamento e percurso, tenha derivado das formaes pessoal e intelectual cumuladas por Vieira em sua experincia de jesuta, ultrapassando o rigor meramente mstico ou apologtico para alcanar segmentos de doutrinao secular, fruto de fenmenos como o do prprio estalo. Na Bahia, em dois dos mais crticos momentos de sua existncia, dos 6 aos 33, quan-do se forma, e dos 75 aos 89, quando se reforma, Vieira tem uma ntima impregnao da gnese e constituio americanas. No se fez ausente do Brasil/Bahia duran-te os 40 anos l fora. Descontada a experincia mara-nhense e agregado a tudo o que se passava na distante provncia, que chamava de sua segunda ptria, Antonio Vieira (11/11/1608 - 18/07/1697) cumpre verdadeiro e in-tensivo ciclo intermitente, ciclo de operaes mentais e psicolgicas que autorizam pensar suas potencialidades humanas, em que no se ausenta a forte personalidade, onde avulta a impressionante viso de mundo e do reino a que servia, de par com a trajetria angustiada de um eu travado, que se desfi gura em angstias intemporais/atemporais, em tese incompreensveis num servidor da Companhia, da Ordem, da Disciplina de Cadver.

    Se no h intencionalidade de projeto esttico na obra de Antonio Vieira, nela reconhecemos e fi ca fcil identifi car o esteticismo, ainda que involuntrio, de seu autor. Crtico de seus textos, com a personalidade afetada pelos crivos ditados pela modstia falsa e personalidade fragmentria

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    e dispersa de fi sionomia que Vieira se refere a si e aos seus sermes. Em carta a Sebastio de Matos e Sousa, de 27 de junho de 1696, chama-os de choupanas, considerando palcios altssimos suas peas profticas. Chama mesmo de discursos vulgares o material que acompanha a impresso, vulgaridades que, no entanto, compelido por superiores, tem de trazer luz da publicidade. So seus ttulos concessivos, mesmos ttulos que acompanham a sentena autocomprazida em carta de 22 de outubro de 1672 a dom Rodrigo de Menezes: Agora falarei em mim e de mim brevissimamente.

    Mesmo na excluso de si (excluso muitas vezes fal-sa, como na dissimulao da modstia), Vieira no raro excede os modelos que toma como apoio, at mesmo o to-mismo, por pensar por conta prpria, por dizer o que sen-te (mas nem sempre o que pensa). Foi reformador social, planejador econmico, e at estrategista militar. Vieira com sotaque brasileiro da Bahia (facilmente comprov-vel em trabalho nosso de investigao da frequncia do lxico vieirano e seiscentista presente at hoje), falava e sentia muitas vezes como brasileiro. E, por ser daqui pra-ticamente oriundo, sofreu tambm as represlias ditadas pelo despeito metropolitano. O frio e alagado inferno vieirano corresponde clebre apagada e vil tristeza camoneana.

    Cumpre, por fi m, justifi car o ttulo deste trabalho numa linha remissiva de recuperao semntica da pa-lavra profecia. No somente no sentido primeiro, mais imediato e popular, de predio de futuro, orculo, vaticnio, conforme registro dicionarizado, mas, em sentido fi gurado, como resgate de outros signos: pres-sgio, conjectura que poderiam at, numa ousada prospeco de sentidos, de investigao de relaes secu-lares, temporais, operar na especulao de assuntos cuja pronncia no sagrada nem sempre pacfi co aceitar.

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    Assim ser Vieira profeta em sua terra, como pr-dico de elementos, cujo esboo enuncia, ainda que cor-rendo riscos. Sero morenas profecias, com o intercurso de sua formao brasileira, o tempero do sotaque baiano e a astuciosa cumplicidade com que aventura infi nitos.

    Da Carta nua Palavra Empenhada e Desempe-nhada, o que percorremos com o pregador um univer-so, de sopro tropical, de espiaes e expiaes, tributo e virtude de quem, assente com a ousadia de errar, sabe afi nal que os erros no so falncia do esprito, mas pre-disposio aos muitos acertos.

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    VRIA MEMRIA DO EU

    No h maior comdia que a minha vida; e quando quero chorar ou rir, admirar-me ou dar graas a Deus, ou zombar do mundo, no tenho mais que olhar para mim.

    Antonio Vieira(Carta a um padre, ntimo amigo seu, em

    fevereiro de 1658)

    Sem dvida, a vocao de polemista, poltico e esta-dista, guiado pelo senso prtico, que se imanta na biogra-fi a de Vieira, como que suprime ou escamoteia a sua me-mria individual. Sua carta a dom Teodsio, bem ao estilo de O prncipe, evidencia que teve consigo o livro do hbil fl orentino, manual poltico de um Maquiavel adaptado, claro, s circunstncias da realeza de direito divino em reino portugus. O mvel do discurso vieirano ser sem-pre poltico, adaptado a assunto, tema ou pretenso obje-to religioso. Esse senso poltico, no entanto, no seguir Maquiavel tout court, comprometendo-se antes mais com sentimentos que com ideias. pela via sentimental que, as mais das vezes, procede Vieira nas suas aes.

    Assim, quando considera ser o Brasil metonimicamen-te a Bahia, essa melhor jia que Portugal tem fora das cor-rentes do Tejo (Cartas, III, p. 610), cremos ser considerao ditada mais pela sentimentalizao de sua segunda ptria do que pelas ideias preconcebidamente de apropriao. Tanto ser esta sua impregnao brasileira, ou da morenice baia-na, de intrnseca baianidade, que confundir o prprio rei.

    U U

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    Em carta a dom Lus Vasco da Gama, o marqus de Niza, seu embaixador em Paris, Joo IV pede especial deferncia no trato com Antonio Vieira nascido e criado no Brasil. Tal sentimentalizao, tal carga de afetividades e preito emocional alcanam inclusive o senso de oportunidade com que Vieira trata a nunca ocorrida criao das companhias de comrcio portuguesas com dinheiro e liberalidade dos ju-deus. Seria muito redutor compreendermos a prtica viei-rana no caso da oposio ao Santo Ofcio, em defesa dos judeus batizados e de suas atividades e vocao, to-somen-te no campo da especulao econmico-fi nanceira. Poltica, tica e sentimentalmente, a percepo de Vieira para o caso dos judeus tinha, necessariamente, uma pitada de afeio e sentimento, o que se pode verifi car no trato entre ambos. Expulsos de Portugal ou forados a se tornar, pelo batis-mo, cristos novos em 1496, sob dom Manoel, o Venturoso, somente em 1643, com Antonio Vieira, tiveram os judeus uma voz que estimulasse sua readmisso alis, nunca alcanada, para desespero da poltica vieirana e derrocada dos portugueses.

    Com alguma coisa de mulato, conforme apurou o Santo Ofcio e conveio curiosidade histrica, com av mulata por parte de pai e bisav escrava, Vieira encarna uma ampla associao de inteligncias contrrias intolerncia, na companhia de Giordano Bruno em 1600, Vamini em 1619, Jean Fontanier em 1621 e Claude Le Petit em 1622, sem falar de Galileu e Campanella, todos martirizados pelo crime das ideias contrrias ao pensar ofi cial. Em Vieira concorre um elemento indissocivel porque alia o pensar com substncia e originalidade ao sentir com propriedade e sincera convico, s vezes ingnua, outras misteriosamente. Nele se agregam tais sentimentos da parte da ptria e de si mesmo, confundidos todos num s, como se sofresse a ptria em suas veias de muito sangue confundido. Em carta ao marqus das

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    Minas, datada da Bahia, 1691, deixa escapar um misto de despeito e afetividade comungados do seu desterro, que , ao mesmo tempo, seu encontro consigo mesmo e com sua ptria: Neste deserto onde V. Excia. me deixou, no posso fugir das desgraas que so universais e, posto que umas me tocam mais, outras menos, todas me lastimam.

    Assim, com o discurso da afetividade na ponta da ln-gua, o estilo vibrante que no cede jamais aos apelos da autocomiserao passiva, o pregador rende graas ao exer-ccio da tolerncia, na companhia de si mesmo, sentindo as dores do mundo, redentorista e amador do salvamento de almas alm da sua. O propsito permanece jesutico, da doao absoluta, mas a individuao, a persona do narra-dor, descreve as curvas de um sentimento comprometido. Sentimento, entretanto, que no abre mo do ser plural, no em mo nica, de nica positividade. Sente ira e in-dignao contra nobres pusilnimes, inteis, perdulrios, contra ministros corrompidos e corruptores, contra clrigos desavisados, contra reis fracos e embaixadores hesitantes, contra intolerantes juzes do obscurantismo, contra o Es-tado, se preciso for assim seu tanto anarquista quando invoca ao rei mande ao Maranho apenas um governador, que ser melhor, ou menos mal, um ladro que dois. Ou essa preciosidade de excluso do Governo e Administrao, pedindo Vieira que no venha governo nenhum, pois me-lhor se governar o Estado sem ele que com ele (Cartas, v. I, 416/417). Atento s contradies do juzo humano, conforme expressa em carta no mesmo ano de sua morte, Vieira perora contra vcios seguindo as pegadas do amado Sneca, o fi lsofo gentio que ensina aos cristos o desape-go das coisas materiais e a construo de uma utopia que resista e legitime as transformaes dos indivduos. Esse amor dos homens e da ptria, essa afetividade derramada e no piegas, bem o discurso do eu advogado por Vieira e, no entanto, ainda vibrtil trs sculos aps:

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    Que importa que como me seja to feliz-mente fecunda nos partos e que os gere de to eminente estatura, se como drago peo-nhento, com raiva de os ver to grandes, os morde, os abocanha, os ri, os ataalha, e no descansa at os engolir e devorar de todo... Ptria to naturalmente amada, como natu-ralmente incrdula! Que filhos to grandes e to ilustres terias, se assim como nascem de ti, no nascera juntamente de ti, e com eles, a inveja que os afoga no mesmo nascimento, e os no deixa luzir nem crescer!

    A apostrofao acima poderia ter sido assinada por Vieira, mas de Rui Barbosa (in O Papa e o Conclio, 2a ed., So Paulo: Saraiva, 1930, p. 5-7). Entretanto, o discurso vieirano no inocente. D como ltego, como dissemos, a todo o pano, em todas as direes. Contra os impostos tributos avultados, muitas vezes responsveis pela desorganizao da economia , mas igualmente contra os sonegadores, especialmente os que, podendo pagar, se desigualam dos que no podem deixar de faz-lo. O Sermo de Santo Antonio, em Lisboa, 1642, denncia sintomtica dessa fragmentao escandalosa das classes, demonstrao evidente contra a deformidade na distribuio da justia. Vieira usa imagem de chuva que, caindo dos cus, chega terra e se reparte desigualmente, deixando montes enxutos e vales alagados. O esprito de Vieira, no sendo monoltico ou excludente, compe tambm o diverso, o quase vencido pelo determinismo. Os reinos, como os homens, nenhum segue mais leis que as da convenincia prpria. Imaginar o contrrio querer emendar o mundo, negar a experincia e esperar impossveis3. Vieira paga assim com pena e penha o saber de si e dos outros. E compadece-se, todavia, nas aluses a Santo Agostinho, para compreender e, no

    3 Apud LINS, I. Aspectos do padre Vieira, 1962, p. 120.

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    entanto, esperar por tais impossveis, pois afi nal, diz ele, co-sagrando-a, que a mais doce de todas as companheiras da alma a esperana.

    E no seria outra a ideia de construo do Quinto Imprio. A viso redentora de males em Vieira horizon-taliza-se para os reis de uma corte crist, teocntrica, ab-solutista da cega obedincia que tudo conquistaria para Deus. Nem que para isso tenha de concordar com Gon-alo Anes Bandarra (circa 1500 - ps 1541), o sapateiro e trovador, leitor e intrprete da Bblia, livre exegeta, assim como o prprio Vieira, cujas profecias do Quinto Imprio as vai beber na fonte popular consagrada. O Bandarra que mereceu na poca da Restaurao (1640) um busto/cone nas igrejas e impresso de trovas pelo embaixador em Paris o marqus de Niza , citado como autor de profecias populares e suspeio de judas-mo e feitiaria por crer na vinda de um ser encoberto, fundador de imprio e paz universais, referido quase emblematicamente por Vieira, por suas vises agora ti-das em alta conta, por prever um rei soberbo: o seu Im-prio ser grande e paz sem fi m/ sobre o trono de Davi em seu reino./ Ele o fi rmar e o manter/ pelo direito e pela justia,/ desde agora e para sempre. Vieira no re-cua face ao rigor da Inquisio e justifi ca o Bandarra em sua Defesa perante o tribunal do Santo Ofcio, conquanto escorregue, no mesmo tribunal, no preconceito dos cno-nes: Nesta mesma era de seis fala muito aquele Autor idiota e infelice, que eu tenho mais razes de detestar que de alegar (Defesa perante o tribunal do Santo Of-cio, v. II, p. 260), acrescentando-lhe os eptetos de leigo, casado, idiota, de baixo ofcio e condio....

    No se persiga em Vieira coerncia absoluta, pois. Sem deixar jamais de ser o que se formou no Colgio das Artes e na escola jesutica dos exerccios espirituais de Santo Incio, platnico com Agostinho e aristotlico com

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    Toms de Aquino ou seja, escolstico e medievalizan-te, sem deixar de postular os valores mais graves de seu tempo , Vieira pode ser bandarrista ao vislumbrar os interesses cristos-catlicos da Contrarreforma em cur-so, de par com os embates entre Razo e F inscritos no Sermo da Quinta-Feira de Cinzas, 1670, e ainda discu-tir fenmenos platnicos de essncia e aparncia, razo, coragem, desejo, enfi m, marcas impressivas da concep-o de mundo no Seiscentismo. Tudo so gestos retri-cos e, em Vieira, tais gestos assumem entidade de corpus, tm cunho personalssimo. Poder-se-ia perguntar como se concilia o maravilhoso de Bandarra e Vieira. Ambos combinam-se com o carter mstico e messinico da cole-tividade ibrica, senso comum alicerado em outros va-ticinadores e, antes ainda, no superlativo das hipteses e concluses tiradas aos profetas bblicos, todos, afi nal, indispensveis identidade regeneradora da Restaura-o, ps desastre de Alccer-Quibir e dominao fi lpica. O Isaas, IX, 1-5, lembra o Vieira do Sermo da Visita-o de Nossa Senhora (02/07/1640), em que o pregador, saudando o vice-rei recm-chegado, o marqus de Mon-talvo, dom Jorge de Mascarenhas, diz dele ser o sol da justia, luz do regozijo, sade para as doenas do Brasil.

    O talento revelado por Antonio Vieira na Carta nua talento manifesto no documento pico, no estilo narrativo em que se renem o estilista e o esteta da Pa-lavra , no feitio dos primeiros sermes, mais polticos e sociais que propriamente religiosos, no sentido ortodo-xo da doutrinao e f, no fazem Vieira abdicar de seu fermento ideolgico determinantemente doutrinrio. Em tudo e com tudo, exercitando-se nas Letras, na Filosofi a, na Cincia, na Poltica etc., o pregador no perde de vis-ta seu ofcio e mister, o espao sagrado que ocupa para cuidar da interiorizao da f contra a opinio de colonos corrompidos, abusos nas mercancias e nas senhorias de

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    escravos. Vieira assim, muta s mutandis, um telogo da libertao avant la l re, combinando preocupaes essen-ciais de expanso da f e do estigma contrarreformista, ao tempo em que no isola dessas preocupaes a per-cepo do mundo contingente. No Sermo da Visitao de Nossa Senhora, a doutrina docente do pecado origi-nal simboliza a noo de perda da justia. Como no inocente, o discurso de Vieira pode muitas vezes ser at arrogante, aparentemente despropositado.

    Em meio a protestos de modstia, Vieira ambiciona ser mesmo a resposta s indagaes expressas em Isaas, IX, 11. Por isso seu discurso vem cumulado de interro-gaes que, antidialeticamente, no tm respostas, pois as respostas todas as tem o pregador, no melhor estilo dos escolsticos. O profeta Daniel fala na primeira pes-soa. Vieira abre mo dessa premissa e dela nem parece precisar, pois tudo o que enuncia tem o poder de suscitar no-contrrios. Tambm nas Sagradas Escrituras o que Vieira parece perseguir sempre o maravilhoso, o ma-ravilhoso mistrio do sagrado. O pregador sentia atra-o especial por esse maravilhoso. E no se perturbava nem um pouco com o estamento bblico, que usa tecen-do temas, teias e situaes com sutil unidade, tornando reais mais que propriamente verossmeis os fatos verifi cveis, tornando a Bblia uma Histria, ainda que sagrada.

    muita forma/fora de persuaso, sabendo per-feitamente distinguir entre um Bandarra e um Virg-lio, mas a todos utilizando para os fi ns que advogava, a evangelizao contrarreformista e temporal que dissesse respeito aos corpos e almas dos indivduos e bem-estar do reino catlico, Vieira, no se importando muito com os meios pouco ortodoxos, embora no ilcitos, subverte con-ceitos. De Histria na Histria do futuro que comea no tempo em que se escreve, subscrevendo ideias de Verbo

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    Encarnado com Gramtica Latina e Jornalismo: tempo, modo, pessoa etc. So inteiramente subtrados ao univer-so de futuro com que Vieira pretende atualizar o Apoca-lipse num mundo calcinado de crises. A iro aparecer os pos de culminncias profticas, mais discursos da esperan-a para o mundo portugus dominado pelo pessimismo no-crtico, alimentado por um amorfo sebastianismo de espera eterna e passiva, letrgico de vises de leite e mel man bblico que redimisse o fracasso reinol, dvidas e fraudes, aniquilao da outrora opulncia. Vero, se quiserem abrir os olhos, diz Vieira na Histria do fu-turo, com que avoca a si a responsabilidade e o compro-misso de construo do Quinto Imprio que, assim como os sermes e as cartas, projetam preocupaes polticas, sociais e econmicas de par com a natureza essencial do misticismo pregador: doutrinas, escatologias, frituras no inferno do Apocalipse.

    E no se pense, todavia, que todo esse racionalismo vieirano funcionasse exclusivamente, de forma absoluta. Pois o nosso pregador tinha a verve da emocionalidade e seu discurso praticamente todo ditado do corao. Com isso conseguiria atrair inimigos. Ivan Lins acredita que Vieira gostava mesmo de atra-los: era gozo seu (...) Como quem tivesse a vocao de colecionador de absur-dos, o feitio gozozo de quem ama imensamente a contra-riedade: o curso liso da existncia, como rio sossegado, sem o prazer das catadupas, e o embate da vaga nas ro-chas, no tinha para ele encantos4, diz Lins. Assim teria mesmo a vocao polemizadora, de contrariar pelo gosto de excitar iras convencionais e contradit-las. O prprio Vieira reconhece que o curso de sua vida contribuiu para essa atrao. Nos muitos inimigos que tenho identifi ca

    4 LINS, Cit., p. 165.

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    as razes, causas e origem de sua delao ao Santo Of-cio, a comear do clebre Sermo da Sexagsima e o dio contrado aos dominicanos pela aluso quase explcita de sua reprovao ao modo repartido/setorizado em aposti-las, de uso frequente no plpito. Entre esses inimigos, ou denunciantes como se chamavam a que obrigado a adivinhar quais sejam, Vieira inclui os prprios mem-bros de sua Companhia, zelosos de privilgios perdidos, ressentidos com a opo de dom Joo IV por seu pregador, no que Vieira identifi ca tambm um raciocnio de nature-za do meio social, assumindo a morenice tropical de sua formao e origem: sendo eu de provncia estranha, e mais da provncia do Brasil, entre a qual e a de Portugal havia maiores demandas que boa correspondncia5.

    Mas no com a postura de inocente, seno com a picada da ironia, que Vieira introduz essas referncias, atribuindo aos denunciantes as cargas excrescentes da ver-dadeira ignorncia, a do conhecimento, a da difi culdade de entender o que se ouve ou o que se l. Isso pareceria bem pouca usana da sabedoria vieirana cultivada e experimen-tada nas disputaes jesuticas, disputaes que incluam a divisibilidade das almas, das plantas e brutos ou, suposta a inferioridade feminil foi a me de Cristo mulher ou homem? , para fi carmos em duas das mais extravagantes disputas quando se exercitava o debate ortodoxo de ideias no livres o sufi ciente e que pudesse pr em risco a ortodoxia absolu-tista. De qualquer sorte, os confl itos entre o eu problemtico do indivduo votado servido da ordem e anulao de si e a possibilidade cartesiana do livre pensar eram baliza-mentos correntes da identidade fi losfi ca do sculo 17, cir-cunstncia em queda que faria Vieira confi denciar a Duarte Ribeiro de Macedo, um dos seus mais frequentes e ntimos

    5 Apud LINS, Cit, p. 171.

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    confi dentes, em carta de 28 de junho de 1678: Se olho para a terra, desmaia a razo, e se para o cu, at a f vacila.

    Vieira formado na Bahia, com caractersticas ins-tiladas por essa formao, prolongando-se e estenden-do-se por sua trajetria posterior, cumuladas de outras experincias. Experincias de forte contedo pessoal, de sua humana sociedade com os homens em seu tempo e com os experimentos das leituras/estudos que fez, com o exemplo signifi cativo de sua costumada relao com o maravilhoso, desde o fenmeno (improvvel, ilgico, sem testemunhos, mas incrivelmente articulado com a consolidao de absurdos e desastres) do estalo, a par-tir do qual sua inteligncia teria deslumbrado, pelo ma-ravilhoso das circunstncias, o mundo que habitava e o por vir. Da para a intensa epifania de mistrios e suas relaes com o mundo contingente, um pulo. Vieira lei-tor comprometido com os ares profticos do Bandarra e do Manuel Bocarro Francs, autor de Anacefaleosis, em 1616, cujo heroi uma projeo futurista: dom Teodsio II, neto de dom Joo IV e fi lho de dom Teodsio, cujo pre-ceptor era ningum menos que o prprio Vieira. Assim o percurso do mstico, do bandarrista que aproveitava a popularidade das trovas como cartilha de aprender a ler.

    To fascinante personalidade at consegue submergir graves estudiosos, como J. Lcio de Azevedo, na Histria de Antonio Vieira, beirando o hiperblico. Descrevendo Viei-ra quase romanticamente, Azevedo sucumbe: um lance da pupila, distante e vago, traa o sonhador, num Vieira tratado com rigorosa gravidade historicista em claro texto isento de malabarismos de linguagem. Mesmo J. Lcio, que singulariza a performance pessoal do pregador, tomando-a em sua caracterizao provincial, moreno de cabelo quase crespo, com uma ponta de sotaque, que j nesse tempo ado-aria a fala do Brasil, ainda que aponte um Vieira racio-nalista e cerebral, dinmico e enrgico, porm destitudo de

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    emoo sincera e espontnea6. J. Lcio, porm, trabalha os perodos de vida do biografado como se pudessem ser es-tanques. Vieira poltico, por exemplo, no se daria somente a partir de sua chegada ao reino, mas como pregao e dis-curso, j na Bahia, na Carta nua, no Sermo da Visitao de Nossa Senhora, no do Rosrio dos Pretos, em que desen-volve a curiosa teoria do cativeiro por piedade. Os sentidos de lbia e de lria, que tm ainda hoje ampla repercusso de modernidade, usava-os o pregador para requestar atenes e mover sofi smas no objetivo de romper com a inrcia me-tropolitana, ou de seus cidados na colnia insofrida. E por viver na colnia insofrida, no se sustenta tampouco a tese de Ivan Lins7 de um Vieira no-gongorista. O fato de viver na Bahia faria Vieira no se contaminar de gongorismo? E que diramos de Botelho, que aqui viveu e sustentou com emprstimos a administrao reinol, e sua Msica do Par-naso, gongrica a no mais poder?

    De qualquer forma, a obra de Antonio Vieira, gong-rica ou no, tem fruio e eminncia de fundao na Pala-vra, uso estilstico marcado pela renovao, conscincia de plenitude essencial entre palavra e mundo, certeza de de-pendncia de um e outra, palavra fundadora de mundos, coberta com a cerrao dos atributos, de difcil realizao, afi nal, j que todo discurso encerra em si a impossibilida-de de tudo dizer ou dizer de tudo. Na pluralizao memo-rial do eu, esta obra tem a enfeix-la todo o horizonte de possibilidades do orador, com a conscincia donatria da palavra. Por isso tem muito de relato pico e de jornalismo histrico, correspondncia internacional, facciosismo dou-trinrio, absolutismo analtico, apimentada at de fofocas palacianas e colunismo social. Nesse diapaso, no caso da

    6 AZEVEDO, Cit, p. 61.7 LINS, Cit, p. 253

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    turbulenta e acidentada biografi a de Antonio Vieira, no poderia existir mesmo unanimidade de julgamento. Des-perta ardores e entusiasmos equivalentes s antinomias correspondentes. Ama-se ou despreza-se essa obra com correspondncia e intensidade anlogas, valendo meno curiosa aos juzos antpodas de Joo Francisco Lisboa, Slvio Romero e Jos Verssimo para fi carmos em trs principais contrariedades , sobretudo Verssimo, cuja azeda disposio afi rma que Vieira poderia ser excludo da histria da literatura sem maiores consequncias ou perdas...

    Para os juzos muito lgicos, claro, fi ca difcil compreender o intricado da obra vieirana no que ela tem de achaques mstico-profticos e o denso emaranhado de suas interrogaes, a que se acrescem apelos cor, fantasia, mistrio e mito, milagre e sobrenatural predominantemente de inspirao medieval, a demonizao do mundo sempre exterior e incontrolvel. Ao racionalismo cartesiano vitorioso deve-se opor uma certa repulsa a tais notaes de comportamento instabilizado pela interpretao asctica. Mas no se pode, genericamente, uniformizar o pregador num formato nico, tratando-se de algum to farto, multmodo e abrangente, especialmente se considerarmos a massa mltipla de seus 200 e tantos sermes e mais de 700 cartas.

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    PERSONA E SENTIMENTO

    Agora, falarei em mim e de mim brevissimamente.Antonio Vieira

    (Carta a Rodrigo de Menezes, 22 de outubro de 1672)

    Nas experincias da ingratido sou autor clssico.Antonio Vieira

    (Carta ao cnego Francisco Barreto, 15 de julho de 1690)

    No me temo de Castela, temo-me desta canalha.Com este cido comentrio, em tom de queixume e

    mgoa, mas sobretudo de indignao e ira santa, Antonio Vieira, em carta ao padre Manuel Lus, em 21 de junho de 1695, d seu testemunho de reao humana s mui-tas motivaes exteriores que envolvem sua trajetria existencial. O destino do antema parece ser a claque dos alexandristas, seguidores do mulo Alexandre de Gusmo na conduo dos destinos do Colgio das Artes e da Com-panhia de Jesus na Bahia, e mais diretamente quanto s distores da poltica escravagista para os ndios, adota-da, a princpio timidamente, depois s escncaras, por Antonil, o mesmo jesuta italiano Joo Antonio Andreo-ni, protegido e depois adversrio de Vieira, que o trouxe Bahia em 1681. Seduzido pelo mercantilismo colonial que francamente defende com o receiturio de Cultura e opu-lncia do Brasil por suas drogas e minas, aos postulados da escolstica vieirana, que limitava aes escravagistas

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    coloniais, particularmente no trato indgena, Antonil ope uma usana, total, ilimitada, isenta de qualquer escrpu-lo, da escravaria ndia. Bosi suspeita ter sido ele, Antonil, o denunciante Inquisio da existncia e teor da Clavis prophetarum, cujos autgrafos desapareceram misteriosa-mente depois de interceptados. Importante a transcrio da carta de Antonil em Bosi, com a evidncia solar de ter o jesuta abandonado completamente a postura da esco-lstica barroca, imprimindo sua obra um caldo tpico de racionalismo e objetividade mais prximo de uma ilustra-o laica, fria, antecedente e preparatria do liberalismo capitalista, depois transformado em cincia econmica por Adam Smith, nA riqueza das naes. A fl uidez paralels-tica de Vieira versus Antonil surpreendida por Bosi, de forma inquestionvel na descritividade das fornalhas dos engenhos comparadas ao imaginrio do inferno, descriti-vidade coincidente e antpoda nos dois autores8.

    A defesa de brasileirice (ou baianidade, se quiser-mos) parece ter se deslembrado de uma circunstncia curiosa: o sentimento de excluso do mundo europeu/me-tropolitano experimentado pelo pregador em inmeras oportunidades, nas muitas cartas que enviou a destina-trios pouco suscetveis de comoes. Um Vieira tropical estar sempre se queixando do frio rigoroso da Europa. Esta interpretao de Vieira brasileiro, que comea com Afrnio Peixoto, tem defesa de Pedro Calmon, conside-rando que o padre aqui fez a cultura e aqui a reviu9, com a vida laboriosa, rica de fatos, e a particularidade de uma poltica de proteo da terra da Bahia. Calmon inclusive trata Vieira como integrante de uma famlia brasileira de apstolos, famlia que (se no parecer muito

    8 BOSI, Dialtica da colonizao (1992), p. 155-157 e 172-175.9 CALMON, P. Histria da literatura bahiana (1949), p. 22.

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    bizarra a aproximao) integraria at Gregrio de Mat-tos, cujo soneto Triste Bahia, mesmo com a excluso das epgrafes nas edies, aproxima-o de Vieira na anlise e defesa econmica da cidade da Bahia, caso da taxao ex-torsiva dos preos do acar.

    Por ocasio da disputa interna entre alexandris-tas e vieiristas pela primazia da indicao de repre-sentante da Companhia em Roma, Vieira chamou dis-puta litgio platnico-aristotlico, mas considerava-se pessoalmente agravado com a concorrncia e com a der-rota fi nal. Imaginava-se desprestigiado por uma batalha sem maior peso no cmputo da ordem, mas inverteu-se a batalha para me levarem em esttua manietado e ven-cido no imaginado triunfo (Carta de 27 de junho de 1696 a Sebastio de Matos e Sousa). Assim, o telogo, fi lsofo, idelogo do Quinto Imprio cedia passo ao casusta numa querela interna onde avulta um eu multifacetado.

    Esse mesmo eu do pregador, em sua multiface, teria o defeito da cautela. Indicado por Jorge de Mascarenhas, marqus de Montalvo, para representar a Cmara da Bahia na aclamao de Joo IV em 1641, assistiria omisso ao supliciamento do marqus, vtima das equvocas instabilidades do rei e condenado por vilania e traio ao crcere perptuo, onde morreu, sem uma palavra de defesa de Vieira. No entanto, em Vieira, surpreender-se-iam as sugestes de frase dialtica e spera crtica que infl uenciariam a eloquncia e a linguagem, nfase e gramtica de oradores modernos, a ponto de Rui Barbosa ter os Sermes como livros de cabeceira.10 A oratria sagrada tem em Vieira o uso retrico como pea de ataque contra os holandeses e contra o malogro da expedio do conde da Torre, a cobia e espoliao perpetradas pelos

    10 Cf. CALMON, P. Cit., p. 22-24.

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    colonos. Em contrapartida, a celebrao de vitrias de humildes soldados interpretada como insuperveis defesas do Brasil, pontuando-se este discurso de infl exes ciceronianas e virgilianas no pico do Bom Sucesso, em que cintila soberanamente o tratado do sublime na apostrofao a la Davi. Esse discurso tem a energia persuasiva sem precedentes na parentica religiosa, at ento feita de sermonrios incuos, msticos ou contemplativos. Vieira adicionaria o tempero prprio da personalidade ativa e veraz, subvertendo a mstica da roupeta beata na prtica de raciocnios excludentes, at mesmo da rgida e asfi xiante disciplina eclesistica.

    Tendo Vieira perdido o valimento dos reis, ademais da poderosa infl exo pessoal manifestada nos episdios da atribuio criminosa, da perda dos direitos de seu irmo Bernardo Ravasco, peticiona ao rei maior respeito, alegan-do a Pedro II, em relatrio agressivo, seus muitos servios Ptria, de que no recebera ainda a devida paga. Quando se percebe alijado da poltica metropolitana, acometido de impingens e sucessivos desarranjos intestinais, foi fi cando progressivamente cego e surdo. Refugiou-se desde ento na Bahia, a 27 de janeiro de 1681, destinado compilao de seus sermes por exigncia pblica dos principais cor-respondentes e, mais, do Geral da Companhia, padre Joo Pedro Oliva, no que contou com a prestimosa companhia do padre Jos Soares, a quem se deve muito pela organi-zao associada desde a primeira edio de 1679, s edi-es sequenciadas de 82, 83, 84, 89, 92 e 96. Post-mortem de Vieira, sairiam ainda seus sermes em 1699, 1710 e 1748, perfazendo os dezessseis volumes de sua obra parentica. De igual forma, Vieira dedicou-se ao estudo das coincidn-cias astrolgicas e de vaticnios histricos e sagrados rumo ao Quinto Imprio. Relacionado entre os grandes prega-dores de todo o mundo, Vieira sobreleva, em lngua portu-guesa, a todos, indisputadamente.

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    Independente no comento crtico, assim se expressou Vieira sobre Antonio da Fonseca Soares, outrora pnde-go, depois tornado franciscano frade Antonio das Chagas: grande poeta vulgar. No teria essa mesma disposio anmica com respeito a outro pndego, o nada religioso Gre-grio de Mattos, de que no se conhece de Vieira nenhuma animosidade, mas curiosas coincidncias, tanto na crtica mercancia e pela liberdade comercial, justia fi scal e dio aos privilgios e hipocrisias, quanto nas ferozes animadver-ses ao governador Antonio de Souza Menezes, de ambos desafeto, nariz de embono para Gregrio e patrocinador de acusaes contra Vieira e Bernardo Ravasco, no caso do assassinato do alcaide Francisco Teles de Meneses, em 1683. Sobre o governador, cognominado O Brao de Pra-ta, Vieira parece referir-se a Gregrio de Mattos e suas stiras e epigramas quando sentencia que, a propsito da m administrao, tm dito mil lindezas os poetas.

    Dono de uma das mais turbulentas biografi as, claro est que Vieira no atrairia para si o aplauso unnime de seus contemporneos e psteros, sobretudo os pste-ros estudiosos de sua vida e obra. Assim ocorre com Joo Francisco Lisboa, para quem, repetidas vezes, o padre merecer eptetos como inata ambio, sede de glria e poder, jesuta corteso, capaz de todos os atos inde-corosos, lanando dvidas sobre o carter do pregador11. Trata-se de uma curiosa biografi a, deliberadamente con-tra. Discutindo as qualidades do Papel Forte, por exem-plo, Lisboa francamente anti-Vieira, na esteira mesmo do antijesuitismo que inspira sua obra. Difere do perfi l Davi versus Golias traado por Vieira quanto negocia-o com os holandeses, acusando a descontinuidade his-trica vieirana e a diversidade de posturas do padre em

    11 LISBOA, J.F. Vida do padre Antonio Vieira, s.d.

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    mais de um sermo. Acha que Vieira exagera na anlise da potncia holandesa e fraqueza dos portugueses, e na verdade exulta com a tibieza de comportamento do rei e o erro de perspectiva de Vieira na vitria dos pernambuca-nos contra aqueles que o pregador, no passado (Sermo pelo Bom Sucesso), chamou de prfi dos hereges.

    De fato, o Papel Forte cioso da crena na reputao da Holanda, o que confl ita com a opinio rude e enrgica expressa por Vieira no Sermo pelo Bom Sucesso, onde os holandeses habitam aquele frio e alagado inferno. Lisboa acusa com discernimento o equvoco de Vieira, a quem trata seguidamente com olmpico desprezo. Mas leviano quando ressalta manobras rocambolescas, a la capa-e-espada, dos comportamentos vieiranos, fazendo-o desacompanhado de evidncias factuais/documentais pecado indesculpvel num historiador. Alm disso, revela-se sem compreenso efetiva dos hbitos e costumes da poca e dos modelos diplo-mticos, quando tenta ridicularizar a fi gura do padre sem a roupeta da ordem (num pas ortodoxamente protestante), vestido com as vestes cortess por exigncia da diplomacia. Lisboa trata o assunto sem seriedade historiogrfi ca. Fran-camente impressionista, enxerga no carter do padre um ser sem alma, sem compostura religiosa, adulador sem l-grimas. Muitas vezes fi ca difcil ou confuso o entendimento dos conceitos de Lisboa. Em Vieira o bigrafo v ordinrios defeitos de carter num homem extraordinrio. Graceja sobre a natureza pragmtica do padre, seu duro racionalis-mo ante a amorfa e passiva atitude dos portugueses face ao embate contra os armados holandeses, quando diz Vieira no Papel Forte, clarissimamente, e num primor de esprito pragmtico: Os milagres, sempre mais seguro merec-los que esper-los12. Confunde lisonja reles com a humildade

    12 Apud LISBOA, Cit, p. 94-98.

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    obsequiosa do servo numa monarquia. Mas o prprio Lis-boa reconhece valores no seu biografado. Lembra os moti-vos do despeito dos interesses contrariados da Corte contra um Vieira oriundo de uma provncia subalterna, dando-lhe voz no documento Inquisio sobre seus denunciantes, quando o pregador invoca a motivao aparente do ressen-timento principalmente sendo eu de provncia estranha, e mais da provncia do Brasil.

    Da mesma forma que destaca a soberba do padre (Como h poucos Vieiras, h tambm poucos que amem s por amar, carta a dom Teodsio, 23 de maio de 1650), desregulamentando o silogismo, Lisboa legitima exceln-cia de comportamento no desapego material, citando as ordens de pagamento mandadas por D. Joo IV ao mar-qus de Niza para Vieira comprar livros em Paris, e a recusa do padre. Estranha Lisboa a recusa, uma vez que era conhecido o amor do padre aos livros, pois Vieira, na Europa, examinava as melhores livrarias, devorava com avidez novas publicaes e, bibliotecrio dos colgios da Companhia, mais era morador da livraria que da cela13.

    O paroxismo da fala apaixonada parece ser o tom da biografi a de Vieira feita por Lisboa. Se chama obra do jesuta Andr de Barros sobre o padre de servil e cau-telosa adulao, coloca-se no extremo oposto, chegando mesmo ao anacronismo histrico, no sculo 19, de defen-der e justifi car as aes de bom senso e moderao [sic] do Santo Ofcio, no caso do julgamento do jesuta, com o argumento de que sua defesa no isolada, pois o prprio Vieira defendera a Inquisio nas condenaes a Galileu e Coprnico14. Lisboa cita-o com uma expresso que lem-bra antema e advertncia ao pregador, numa espcie de

    13 Cf. Andr de Barros, citado por LISBOA, Cit, p. 151.14 LISBOA, Cit, p. 217-218.

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    efeito bumerangue: Sucede aos ambiciosos o mesmo que aos peregrinos. Vieira, que cita Scrates como exemplar do desapego de si, no rascunho de uma identidade auto-centrada, lembra que o mal do homem com ele prprio anda, inapagvel como mancha ou ndoa: O peregrino sempre anda mudando de lugar e nunca melhora, porque se leva a si consigo. Lisboa, que testemunha o recolhi-mento de Vieira sua Quinta do Tanque, despojado dos ornatos palacianos e da autoridade a ele outrora conferi-da como galardo, sem mais comrcio que o dos livros e do seu antigo e fi el amigo o padre Jos Soares, alfi neta o vencido, mas notabiliza-o pela resistncia e dignidade de postura: Ou ambicioso, ou peregrino no eram os de-sertos do Brasil, nem a solido do Tanque que haviam de abafar uma voz e dobrar uma ndole que soubera resistir prova da Inquisio, com isso reconhecendo que nada abalaria o juvenil ardor de Vieira, nem molstia, nem velhice, nem desgostos15.

    Cartas de 23 de maio de 1682 e 24 de julho de 1683, remetidas ao marqus de Gouveia, levam queixas de Vieira quanto ao tratamento dispensado a ele pelos portugueses, referindo-se expressamente s homenagens prestadas pela Universidade do Mxico e, em contraposio, queima do seu retrato em Coimbra. Reverencia o reino, mas reserva-lhe ressentimentos face omisso do nome do sobrinho Gonalo ao posto que lhe devia por herana o reino, confi rmando suspeitas de retaliaes da Corte a ele, ditame seguido extensivamente pelos governantes da Bahia, com as motivaes da praxe revanchista: porque no podem executar em mim desprezos e agravos, o fazem em tudo que me toca (Carta ao duque de Cadaval, 23/05 e 23/07/1682), queixas que renova continuamente: no deixei

    15 LISBOA, Cit, p. 244.

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    de representar a justa mgoa do no usado rigor com que me vejo tratado de Sua Alteza, a cuja real benignidade no merecia estas demonstraes o meu amor e servios (idem).

    Lisboa reconhece postura diferente entre Vieira e Berredo. Ope-lhe o padre Berredo que, nos Anais do Ma-ranho, elogia fartamente seus antepassados portugueses, presenteando-os com virtudes. O historiador, contudo, questiona Vieira por sua pregao do chamado sermo da mentira no Maranho, na Quaresma de 1654. Com purismo hipcrita, o historiador concorda com a denn-cia dos vcios, mas defende que o pregador deveria ater-se aos elementos da teologia, sem laivos de mundanidade. Esquece-se certamente da presso psicolgica experimen-tada pelos jesutas no Maranho e seguramente se mostra ressentido com Vieira falando, de forma to escandalosa, dos desmandos em sua terra natal. Parece satisfeito com a derrocada fi nal do padre, apesar de reconhecer o ingente trabalho do jesuta inclusive na composio de formulrios e catecismos em sete lnguas indgenas diferentes, coteja-das com o portugus16. Lisboa parece no entender direito (Cf. carta de Vieira ao padre Manuel da Luz, 21/7/1695) o sentido de palavras como bruto e vil aplicados aos ind-genas e consoante o arrebatamento catequtico de Vieira. Tenta o historiador entender tais termos com a base lgica e antropolgica do seu sculo, 19 (circa 1854), chamando Vieira de advogado medocre nas questes indgenas e formulando hipteses que pecam base clara da ausncia de documentos. Onde os documentos para que julguem os leitores por si mesmos os fatos?

    Da leitura do livro de Joo Francisco Lisboa resta-nos uma convico e talvez um consolo. De que Vieira e sua obra de pregao sagrada, a individuao dela decorrente

    16 Cf. LISBOA, Cit, p. 322.

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    a tambm considerada, no podem ser levadas num plano presuntivo de canonizao ou tratamento de cone, nem contra, nem a favor. Importa antes a anlise isenta de vida e de obra, o que no acontece com Lisboa, que parece querer aliciar leitores, deliciando-se com as desgraas do padre, particularmente no Maranho e no Par, quando os jesutas, e Vieira em particular, sofrem toda a sorte de afrontas, culminando com priso e expulso infamantes. Lisboa parece ressentido e preconceituoso contra seu biografado, analisando-o exclusivamente sob um ngulo de moralismo canhoto, sem perceber as circunstncias humanas, mentais e psicolgicas que enformaram muitas das aes cometidas pelo jesuta, ocasionalmente votado a prticas da vida mundana. Lisboa traa roteiro existencial de uma personalidade complexa luz fria de um historicismo, alis, banalizado pelas impresses morais ortodoxas. como se, querendo fugir a qualquer laivo impressionista ou temperado por um entusiasmo juvenil, casse na extremidade oposta de tudo ver, na vida de Vieira, com a lente aumentada da considerao moralista. Como um analista de cadver, de um corpo sem vida, o bigrafo passa pelos anos de Vieira na Bahia, sua chegada ao reino e Restaurao, a diplomacia na Europa, as misses no Maranho, o processo do Santo Ofcio, o ostracismo em Roma e Lisboa, o retorno Bahia, tudo sem qualquer halo humanista, sem enxergar o indivduo, ainda que padre da Companhia de Jesus, no meio do torvelinho. Dessa forma, 1641 (chegada a Lisboa), 1653 (misses no Maranho e Par), 1656 (falecimento de dom Joo IV), 1661 a 23/12/1667 (sentena de exlio, voto de condenao, recluso e silncio, pelo Santo Ofcio), julho de 1668 (perdo), 1669 (Roma), 1675 (Lisboa), 1681 (Bahia), tudo passa como datas arbitrariamente alinhadas no esprito da letra, sem qualquer espao comoo. Lisboa procura a companhia de detratores do

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    padre para melhor enquadr-lo num perfi l irresponsvel, quando no antipatriota. Assim com o bispo de Viseu, dom Francisco Alexandre Lobo, assim com a Deduo cronolgica do asseclismo pombalino rigorosamente contra qualquer cheiro de jesuitismo. A tais adversrios do pensamento vieirano no importa inclusive que a verdade fi que comprometida , importam, antes, suas verses.

    Talvez seja necessrio capitalizar alguns elemen-tos interpretativos, distintos dessa montante, por reco-nhecermos em Antonio Vieira um escritor e um homem de ao na simbiose traumtica do religioso obediente e disciplinado. Mais ainda um homem deslocado em seu tempo (tempo feito de estruturas mentais e geopolticas de feio medieval), combinado esquizofrenicamente com uma realidade recm sada ou ainda prenhe de perspec-tivas renascentistas, realidade afi nal esforando-se por superar a Idade Mdia. Da o tenso, o oblquo de seu discurso. Contemporneo de Gregrio de Mattos (1633-1696), como o poeta, tambm Vieira, um intelectual com formao semelhana da europeia, o vigor intelectual parece querer ultrapassar os curtos espaos da discipli-na jesutica. O pregador nunca se disps ao imobilismo ou desero e por isso teve contra si todas as suspeitas de mundanidade, coero intelectual sobre um meio aca-nhado e letargicamente associado vida contemplativa, esperanosa de milagres.

    Vieira no se contentou em ser apenas o represen-tante predicador da Companhia. Ousou ser mais: missio-nrio, poltico, profeta, visionrio, escritor, raciocinando sob hipteses que considerava e justifi cava ideolgica e teologicamente (Esperanas de Portugal, Clavis propheta-rum, Histria do futuro), poltica e socialmente (proposta para judeus, companhias de comrcio, ocupao holan-desa), literria e esteticamente (Sermes e Cartas). Com

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    tudo isso, porm, a obra de Vieira como que se passa a olhos mais atentos como um desesperado e dolorido (anti)elogio da solido e da incompletude. Expressiva critica-mente, a fortuna de sua obra espelha um mundo em crise, mas acena para um territrio redentor, com base no Cris-to misericordioso que cura o pecado original e purga dos homens os pecados consequentes. O pregador, no entanto, com toda a soberba e aparente insensibilidade de corao, implicita essa solido e essa despretenso de felicidade. Interpretao que se legitima nos muitos sermes peni-tenciais, como os da Quaresma e do Advento, por exemplo.

    Que Vieira tinha conscincia dessas excluso e dife-rena e da paternidade de sua ao pblica sabemo-lo, ou intumo-lo por sua prpria obra. exemplar a passagem na Defesa perante o Tribunal do Santo Ofcio, quando, questionado pelos inquisidores como ousado tratadista de matrias acima de seus talentos, com irnica dispo-sio e chalaa, caoando dos mtodos inquisitoriais, Vieira responde que a responsabilidade de sua ousadia, afi nal, era dos seus mestres e da prpria religio, por sua Ordem, contribuindo para que pensasse e reconfi guras-se ideias surpreendentes desde os mais tenros anos. A ele encomendaram a solene Carta nua em Latim, a ele atriburam o primeiro comento e traduo das tragdias de Sneca, mais comentrio literrio e moral sobre Jo-su, outro sobre os Cnticos, estimulando-o ademais composio de uma Filosofi a prpria e a apostilar mat-rias de Teologia Moral, de que foi eleito preceptor.

    No caso, como em outros, dar Vieira demonstraes inequvocas de seu sotaque brasileiro que lhe foi notado em Portugal, conforme Eugnio Gomes. Sotaque como evidncia de uma individuao exmia e natural voca o para a arte da demonstrao. Completaramos: da demonstrao e da semostrao, porque em tudo imprimir tambm o coefi ciente pessoal, de exegese e

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    ampliao de sentidos. Para o discurso do eu de maneira mais evidente, basta mencionarmos a clebre disputa na corte da rainha Cristina da Sucia, em Roma, o da supremacia das lgrimas em Herclito sobre o riso de Demcrito. Vieira indaga aos outros, olhando para si mesmo como referncia:

    Que este Mundo seno um mapa universal de misrias, de trabalhos, de perigos, de desgraas, de mortes? E vista de um teatro imenso, to trgico, to funesta, to lamentvel (...) que homem haver (se acaso homem) que no chore?

    Em circunstncias assemelhadas, oriundas da vi-vncia pessoal, diferentes do universo de sarau da cor-te em Roma, Vieira denuncia seu estado emocional, sua compassividade angustiada em carta ao padre Francisco de Morais, em 26 de maio de 1653:

    Choro meus pecados, fao que outros chorem os seus, e o tempo que sobeja destas ocupaes levam-no os livros de Madre Teresa e outros de semelhante leitura.

    Mestre no uso tanto de propores futuristas quan-to de exposies racionalistas em que se exprime o sumo das verdades fundamentais do indivduo, Vieira aprecia tanto os clssicos quanto os msticos, adaptando-os personalidade de sua exegese. leitor apaixonado, tanto de Sneca quanto do Don Quixote. Impulsivo, lgico e il-gico, racionalista e determinista, obsessivo e visionrio, profetista delirante de vaticnios, mas tambm pondera-do expositor de signos cabais e da dureza argumentativa das estoicas radicalizaes no plano horizontal das ideias, Vieira faz confl uir e refl uir em seu discurso a massa ag-nica de um dilacerado indivduo impedido de manifestar sua individualidade seno esparzida pelas alheias.

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    O texto refl exo, ou a face refl etida no espelho de suas referncias, o pregador as vai buscar para alm do seu tem-po, nas Escrituras e na Histria Antiga, na Cultura e na Filosofi a, na mstica religiosa e nos cientistas. Assim servi-ro Paulo Fbio (cnsul romano, 275-203 a.C), Marcus Tu-lius Ccero (106-46 a.C), Aristteles (384-322 a.C), Plato (428-347 a.C), Tertuliano (155-220 d.C), Plnio, o Velho (23-79), So Martinho (316-397), So Gregrio (540-640), So Bernardo de Claraval (1091-1153), So Toms de Aquino (1225-1274), Ovdio (43 a.C-17 d.C), Horcio (65-8), So Joo Crisstomo (344-407), Orgenes (185-254), Alexandre Magno (336-303 a.C), Cassiodoro, escritor latino, ministro de Teodorico, rei dos godos (480-575). Enfi m, todos tero uma importncia humana e como tal alcanam uma capi-tal referencialidade para as situaes humanas, mais ou menos complexas, trazidas tona, traduzidas pelo prega-dor na ordem das precariedades. Vale mencionar ainda a contiguidade de seus contemporneos Bossuet (1627-1704), Fnelon (1651-1715) e mesmo um representante do sculo 16, Montaigne (1533-1592).

  • III

    POLTICA E DOUTRINA

    A bondade no est nos meios, est nos fins.Sermo de So Roque, 1644.

    Comparado por Ivan Lins ao Richilieu de dom Joo IV e ao Fnelon de dom Teodsio, o que Vieira desenvolve, mesmo indiretamente, a apologia do esprito doutrinrio da Companhia de Jesus ocupada em salvar almas. Isento da mera compuno mstica, que se isola em um convento e sofre pouco a tentao do mundo, Vieira indivduo de ao, ocupado em alterar, tambm no plano temporal, os comportamentos. Tudo se pode imputar ao pregador, me-nos o isolacionismo contrafeito dos msticos. Para isso tem Vieira protagonizado observaes que cuidam menos de si e de seu exclusivo salvamento. Para ele a omisso um pecado que se faz no fazendo17, e cita o exemplo de Elias, admoestado pelo Senhor no confl ito de conscincia entre devoo e obrigao. No Sermo do Esprito Santo mos-tra-se mesmo um anarquista avant la l re, pois conside-ra beatos e beatas peste da salvao e das conscincias. De arroubo em arroubo, escandalosos todos na viso dos ortodoxos e puritanos, Vieira preferir hospital a Igreja, pois no primeiro ver exposto o Cristo vivo na imagem e semelhana dos pobres e desvalidos, e, na segunda, a ima-gem do Cristo morto. uma imagem fortssima, prxima

    17 Apud LINS, 1962, p. 30.

    U U

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    mesmo da apostrofao do Sermo pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda.

    Vieira o audacioso praticante de um curioso es-tilo de pregar. E muitas vezes transparece seu dissenso na oratria sagrada com as extravagncias, no entan-to, regularssimas ao objeto de sua pregao: comover e convencer. No Sermo do Bom Ladro (1655), sobram farpas aos oradores coniventes com os abusos metropo-litanos. Vieira subverte o sentido original da Gramtica Latina com os diferentes usos do verbo rapio, baseando-se propositalmente nas citaes de Donato (gramtico do sculo 4, mestre de So Jernimo) e Despautrio (Johan Van Pauteren, gramtico fl amengo, autor de Comentarii Gramatici), no senso comum, por translao semntica, um esquisito autor de absurdos lingusticos. Despautrio, sinnimo de disparate, assim Vieira justifi ca a esquisitice de seu uso dos tempos e modos verbais com o rapio dos nobres e ministros portugueses na Metrpole. A indepen-dncia e autonomia de Vieira giravam como uma rajada de raios, alcanando tambm os membros das classes so-ciais em demanda. Aos polticos, por exemplo, anatemati-zava nos seguintes termos, de extraordinria atualizao para a modernidade: Tempos houve em que os demnios falavam e o mundo os ouvia; mas depois que ouviu os po-lticos ainda pior o mundo 18.

    Nas variveis de uso temtico para a construo de seu discurso, Vieira compe um precioso mosaico de intervenes interpretativas para os fi ns que objetiva, no importando at se o pregador as utiliza em sentido lato, subvertido ao iderio. Assim, na leitura de Arquimedes, para demonstraes decididas de aspectos da arenria, no Sermo de Nossa Senhora do , singulariza as

    18 Apud LINS, Cit., p. 51.

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    caractersticas e modelos de movimento circular do mundo. Antecipa (no que concordamos plenamente com Ivan Lins, o primeiro a manifestar tal peculiaridade) Freud na teoria dos sonhos, na srie de sermes gratulatrios a So Francisco Xavier, missionrio na sia, Xavier dormindo, Xavier acordado. No Sermo 19 depois de Pentecostes (1639) desenvolve sinuosa concordncia com o Eclesiastes, contrariando, com visvel m vontade, a teoria de Coprnico e Galileu. Ousa avanar na leitura de fundo ertico, do expurgado Ovdio, chamado por ele de O Galeno do amor humano. Como isso se poderia conceber, ou como poderia conceber tal ideia, se no tivesse lido A arte de amar? At mesmo a folclorizao de um preconceito faz Vieira exercitar a verve. A propsito da sogra doente de So Pedro, alimenta de humor o seu texto, considerando que uma sogra talvez melhor estar doente, que s: porque doente a mesma doena a tem quieta a um canto da casa, e s, rara a que se no contente com menos que com todos os quatro cantos dela19. E, no entanto, o mesmo pregador insufl ado de energia homrica no Sermo pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda naquilo que Longino considera a referncia do sublime, o altssimo grau de efervescente reverberao contra a divindade crist, tal como Homero procede em relao aos mitos clssicos. Com a diferena de que Homero falava a uma sociedade de homens e deuses evemerizados, e Vieira a uma sociedade fechada, monoltica em seus valores medievalizantes, com os cuidados impostos pela Ordem e pela lngua, sem contar o vezo e o rigor inquisitoriais de vigilncia e interdio a tudo o que cheirasse a heresia. A democracia grega ensinava a temperana e castigava os

    19 Apud LINS, Cit., p. 295.

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    abusos. O absolutismo cristo, catlico, contrarreformista e teocntrico queimava impuros para purgar-lhes os equvocos. Com tal discurso, eleito por alguns como o seu principal pela ousadia de recursos e sinuosidade, Vieira se ombrearia aos seus maiores (ou at os superaria, como quer Lins20): Demstenes, Ccero, So Joo Crisstomo e So Bernardo, e ao contemporneo Bossuet.

    Com tal disposio, claro ser que a lgica de com-promisso de Antonio Vieira no a mesma de seus com-patriotas, colonos avessos a quaisquer experimentos de disciplina moral, ou a ministros corrompidos e corrup-tores, nobres carcomidos pela geral degenerescncia e inquisidores impiedosos que usam a religio primitiva como balco de negcios do poder. O ltego vieirano, no episdio dos ndios brasileiros, ter igual correspondn-cia com as denncias perpetradas por Bartolomeu de Las Casas e Lope de Vega, que evidenciam que o que anima os colonizadores no a cristandade ou o zelo da admi-nistrao de sacramentos missionrios, ou ainda a dispo-sio reinol de expanso de um mundo civilizado, mas a cobia de ouro e riquezas. Vieira interroga esse modelo poltico e de colonizao com o manifesto de quem denun-cia largamente as muitas milhares de vidas ceifadas pelo processo de entradas. E fustiga:

    No nos podemos sustentar de outra sorte, seno com a carne e sangue dos miserveis ndios! Ento eles so os que comem gente? Ns, ns somos os que imos comer a eles.21

    Aqui identifi camos um carter desenvolto a partir de concepes clssicas, notadamente aristotlicas,

    20 Apud LINS, Cit., p. 298.21 VIEIRA, A. Obras escolhidas, t. V, p. 45.

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    com o desmembramento da arte de persuadir, base da fi rmeza retrica. Diz Aristteles: obtm-se a persuaso por efeito de carter moral, quando o discurso procede de maneira que deixe a impresso de o orador ser digno de confi ana 22. Digno de confi ana, parece o tempo todo mostrar-se Antonio Vieira, incorporando noes de valor do procedimento dialtico, tal como aquele enunciado pelos gregos como o pensamento e meio pelo qual a verdade se estabelece, pela argumentao e pelo debate, no que Vieira intervm e agrega a prtica e o exemplo. A noo moderna de dialtica, na fi losofi a ps-hegeliana, a de um mtodo cognitivo de acordo com o qual tudo no mundo se modifi ca e se desenvolve. A mentalidade barroca a que se fi lia Vieira oscila entre uma inclinao de impresso esttica (malgrado seu protesto em contrrio) e a refl exo mais profunda, mesclada da emoo sincera e da imaginao de prodgios. Da ser minado o seu discurso tambm de um certo pirotecnicismo barroco, com os aparatos simblicos tpicos e processos psicolgicos de correspondncia alegrica (o fi gurado pela fi gura; o retratado pelo retrato; o sinalado pelo sinal; o simbolizado pelo smbolo). Da caber tambm a tendncia hiprbole, justifi cada pela intencionalidade barroca em chamar a ateno para o alto, o grande, o supremo das foras divinas, em contraposio clareza, racionalidade renascentista, ou aos vcios, pecados e fi nitude humanos.

    O exemplo do padre Vieira particularmente enri-quecedor porquanto, tendo vivido quase todo o sculo 17, concentrou em si todos os disciplinamentos e rasgos es-tilsticos e existenciais do perodo, reunindo em sua obra elementos estticos e fi losfi cos prprios da ideologia barroca. Conquanto se declare visceralmente contrrio

    22 ARISTTELES (1964), p. 22.

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    ao culto da forma (praticamente todo o Sexagsima de-dicado ao assunto, constituindo um verdadeiro ensaio ou teoria do discurso retrico, especialmente da retrica sa-grada), Vieira no descura da produo de metforas car-regadas de signifi cados e contedos simblicos de ampla repercusso no auditrio e leitorado. Sua meta, sabemos, era a evangelizao, o apostolado do catolicismo contrar-reformista e teocntrico. Malgrado a inteno original, construiu uma das mais slidas e inspiradas equivaln-cias da literatura universal, no apenas equiparando-se (e em algumas vezes suplantando) aos maiores pregado-res, catlicos ou no, como ainda servindo de modelo e padro da escrita at modernidade.

    Com sua obra avanando progressivamente na cria-o e no aperfeioamento de um estilo personalssimo, voltada embora para a salvao do indivduo e afi rmao do amor/temor do Deus Todo-Poderoso, Vieira tornou-se tambm um pioneiro da unidade poltica e cultural do Ocidente, erigindo-se cidado do mundo, um homem uni-versal, conquanto patriotssimo e morenssimo de forma-o provinciana. Em consequncia de sua capacidade de agir e tomar partidos, fez os inimigos que conhecemos. Distribuda por cerca de 205 sermes e mais de 700 car-tas, a obra refl ete o pensamento catlico e evangelizador do sculo 17, o esprito de poca e, necessariamente, o estgio polmico, expansionista e combativo de um agita-dor social. O Brasil Colnia representa-se assim em sua perspectiva analtica do mundo, com Vieira intrprete de sentimentos, dramas e vivncias brasileiras (baianas inclusivas, j que a Bahia era o Brasil de ento), parti-cularmente, e com maior vigor, no que se refere ao per-nicioso trfi co de escravizao dos ndios (no tanto dos negros, pois que Vieira desloca o eixo traumtico para a piedade, tornando o cativeiro um necessrio rito de pas-sagem para o Cu).

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    Poucas biografi as tero sido assinaladas pela riqueza de relevos como a do padre Antonio Vieira. Destacam-se aes e reaes de um homem, ainda que profundamente formado na escola doutrinria da penitncia, da catequese, da disciplina e obedincia ordem moral, que se fez sen-tir e sentir-se do mundo com uma presena superior, em especial pelo desassombro de sua atuao temporal. Para a poltica e para a doutrina foi este homem votado, como poucos, nele ressaltando uma prodigiosa memria, com co-nhecimento do latim, do grego, da fi losofi a, da teologia, da histria sagrada, da cincia e da retrica e potica. Suas veleidades imperialistas podiam bem levar o ttulo de ve-leidades pelo que identifi cava como ptria, o catolicismo re-generador, no que pretendia ver Portugal Quinto Imprio do mundo do Seiscentos e para todo o sempre. Ingnua vi-so, messinica e redentorista, politicamente correta para quem se fi rmava pela transparncia e linha reta de suas aes. Para tanto, procura de alianas impossveis, com judeus e patriotas bem intencionados e religiosos lcidos, fez diplomacia e proselitismo de sua crena, aconselhando reis e nobres, escapando do Santo Ofcio, pregando ao papa, catequizando silvcolas, defendendo a Palavra que mais de uma vez lhe foi cassada, triunfando, afi nal, pela mo-o e comoo da histria luso-brasileira do Seiscentos.

    Para levar a cabo suas ideias cujo corolrio era ver Portugal erigido condio de nao catlica mais podero-sa de seu tempo , Vieira utilizaria toda argcia e febre, aliando-se a judeus, forando alianas com Frana e Ho-landa, propondo entrega de Pernambuco aos holandeses. Seu esprito polmico e irrequieto, disciplinado e diligente, aguar-se-ia no inconformismo contra a matana de ndios e os vcios do indivduo afastado do seu Deus. Apstolo e missionrio, Vieira representa o esprito de seu tempo, for-te em relevos e confl itos, grandiloquente e humilde ante poderosos, manso e agressivo, sedutor e arredio, amoroso e

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    virulento. Sobre si mesmo, no h talvez pensamento que o defi na melhor do que o que declarou ao confi dente annimo, padre como ele, em carta de fevereiro de 1658:

    No h maior comdia que a minha vida; e quando quero chorar ou rir, admirar-me ou dar graas a Deus, ou zombar do mundo, no tenho mais que olhar para mim.

    Essas imagens de autoconsolo e comiserao de si, a humildade de viso dos problemas afetos ao homem des-titudo de poderes so as mesmas que norteiam a rasura ideolgica de Antonio Vieira, expressa nas emergncias de conforto aos negros cativos, dissimulando-lhes a dor com o antegozo das delcias celestes, enaltecendo suas virtudes do trabalho e a mansido de seus costumes, na fora da alegao de que foram os etopes escolhidos como o povo cujo rito de purgao credenciaria os infortunados liberdade no Cu. Doutrinador do quinto-imperialismo, que chama a poderosa Inquisio de cega e desatinada por suas aes em tudo contrrias aos desgnios desse sonho, libelista e autonomista na luta contra as injus-tias sociais proporcionadas por impostos e contra o fi m de privilgios aristocrticos e mesmo eclesisticos para a construo do iderio de uma nao autnoma, Vieira recolhe-se ao pequeno voo da Ordem quando trata da li-berdade humana com relao aos negros. Essa timidez analtica se refl ete mais poderosamente quando trata do Brasil, que, como diz J. Lcio de Azevedo, tem o corpo na Amrica e a alma na frica23. Vieira assim golpearia fundamente a afeio emancipacionista de sua biografi a. Em que pese sua formao extrapolar os domnios da Or-dem em muitos aspectos e episdios, plenamente afeito

    23 In: VIEIRA, 1957, v. I, p. 404.

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    s conquistas de uma cincia plural, leitor e citador de Tcito, Paulo Orsio, G. Hormio (1620-1670), J. de Laet, G. Piso, Grotius, observando Portugal como uma socieda-de de vcuos, Vieira justifi ca seu texto em profecia e his-tria, preferindo claramente a primeira em prejuzo da segunda e absorvendo a contemplao e defesa intransi-gente do reino catlico como Imprio do Mundo.

    Na esteira de Nostradamus, no poderia o jesuta ser mesmo um primor de racionalidade. Esperar dele um comportamento altivo e libertrio no caso da economia es-cravocrata, na mesma sociedade em crise, que no entanto defendia, seria demais para um servidor da Ordem. Em todos os textos