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Exceção 06

Mar 17, 2016

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Acervo A4

Exceção n.06, 2011/2.
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    MEMRIAEDITORIAL

    Escrever editoriais para uma revista como a Exceo no tarefa fcil, basicamente porque a regra, quando o assunto a revista--laboratrio do curso de Jornalismo da Unisc, tensionar a regra, submet-la aos mais duros testes e, sempre que possvel e necessrio, no seguir regras.

    Ou seja, trata-se de dizer de algo que muda a cada edio e que, portanto, no linear e muito menos preso a amarras organizacionais; um veculo que no tem nenhum compromisso para alm de ser o que e da melhor forma possvel.

    (Editoriais, sabemos, traduzem aos seus lei-tores a razo maior de ser de cada veculo, ser-vindo, de um lado, como palco de convergncia de interesses, enquanto que, de outro, de porta voz deste ou daquele, digamos, ponto de vista.)

    Uma alternativa possvel, e em consonncia com os dias que se seguem, midiatizados, se-ria utilizarmos o editorial de forma auto-refe-rencial, ou seja, para falar das operaes que a turma de jornalismo de revista de 2011-2 reali-zou para dar conta da Exceo; do que houve ao longo do processo, descobertas, alegrias, tensionamentos etc.

    Com isso, e por meio, quem sabe, de uma as-sinatura no alto ou ao p da coluna, estaramos nos aproximando do que ocorre no mercado de trabalho, e oferecendo, de lambuja, assim, uma nova forma de relao para com aqueles que usualmente nos lem.

    uma possibilidade.

    Mais importante que saber a forma do que deve ser dito, no entanto, observar que, des-de o editorial, a revista que agora chega s suas mos, caro leitor, cara leitora, uma Exceo ao mesmo tempo igual e diferente de todas as ou-tras excees que lhe antecederam.

    Ela igual medida que se mantm fiel ao princpio que norteia a Exceo desde a primei-ra edio, ou seja, buscar, na inovao constante e sistemtica, uma forma especfica de ser.

    Se isso se d dessa forma, ou seja, se a ela coerente consigo prpria em primeiro lugar, en-to natural e eis que chegamos ao diferen-te que ela se renove nmero aps nmero, edio aps edio.

    Que seja ela prpria, por fim, uma exceo, com tudo o que isso possa significar. Seus olhos diro se nosso propsito foi alcanado, ou no.

    Uma boa leitura a todos.

    Sobre a razo de ser da revista

    Andria Bueno e Yaund Narciso Quem costuma frequentar a Rua Marechal Floriano, em Santa Cruz

    do Sul, mais para os lados do Espao Camarim, provavelmente j no-tou a presena dela. No preciso conhec-la pessoalmente para per-ceber que uma exceo. No somente o estilo atpico que revela a personalidade mpar. Sua histria de vida confirma essa definio.

    Nascida em Valncia, na Espanha, Pilar Nunes Calvin, enfrentou o pe-rodo da Guerra Civil e da Segunda Guerra Mundial, quando o pas ficou totalmente destrudo. Sua famlia veio para o Brasil em busca de oportuni-dade e melhoria de vida, j que a Espanha enfrentava uma crise financeira. Naquele momento, ningum imaginaria que a garota espanhola, chama-da carinhosamente de Pilly, nome que adotou tambm artisticamente, se tornaria reconhecida nacional e internacionalmente pelo seu talento.

    Talento este que foi descoberto em terras brasileiras, e que, segun-do ela mesma, nunca foi seu sonho, foi um encontro por acaso. Um carma, mas um carma bom. Pilly ingressou em uma companhia de teatro e foi l que adquiriu o verdadeiro gosto pela atuao. Depois, foi para o Rio de Janeiro e l participou de algumas minissries da Globo, como Rabo de saia, de Walter Avancini. Depois de dois anos na Cidade Maravilhosa, voltou a Porto Alegre e seguiu turn com a pea Di pur. Em suas turns conheceu o Texas, Barcelona, e toda a Espanha. No Brasil foi muito admirada por suas atuaes, e em Santa Cruz do Sul fez histria, e hoje tida como um cone da dramaturgia.

    A vida e as histrias, bem como o que ela representa hoje para nossa sociedade traduzem o significado da palavra exceo. Ela no segue as tendncias da moda, seu perfume marcante, suas peas teatrais no se preocupam em esgotar bilheteria. Sua irreverncia sua marca. Ela faz o tipo essncia, e no aparncia. Em meio a muitas pessoas, sua presena certamente percebida, porque ela , de fato, uma exceo. As carac-tersticas da atriz, vo ao encontro do que queremos com a nossa revista: ser uma revista diferente das outras, revelar o mundo por meio de uma perspectiva bastante peculiar. Uma capa, alis, que homenageia a igual-mente mtica Revista Realidade, tambm ela uma exceo a seu tempo.

    s REN

    AN SILVA

    A essncia da Exceo

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    NCIO: AG

    NCIA DA CASA/ASSCO

    M

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    O HOMEM DO SAPATO DE PAUO homem que dedica a vida para manter uma tradio

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    SUMRIO

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    OS SENTIDOS DA DIFERENAQuando os cinco sentidos se manifestam de outras formas

    ANNIMOSFestas, dinheiro, tragdia. E o resultado, ningum viu

    MISTRIO NA BR 471Um crime beira da estrada ainda sem soluo

    NAS MOS DO PQUERQuando jogar cartas vira profisso

    CAOS PS-GUERRAShindo Renmei: os perseguidores de coraes sujos

    UM DIAMANTE CHAMADO EMILYA busca pela cura ganha novos captulos todos os dias

    A MENTE S DO CORPO DOENTEA vida possvel com bons pensamentos

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  • 5MEMRIA

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    REPORTAGEM EM QUADRINHOSUm santa-cruzense convocado para a 2 guerra

    LEMBRANAS DA GUERRACouldrey convive com lembranas do campo de batalha

    RIO PARDO ATRS DAS GRADESA insegurana materializa-se em cadeados e grades altas

    UMA VIDA EM QUATRO SENTIDOSO olhar de Andr sobre o mundo

    AMOR POR ENGANOQuando a ligao errada torna-se a histria certa

    PEREGRINO DAS ESTRADASPelas estradas, Joel carrega a casa em nome da amizade

    OS TRILHOS DA HISTRIA DO TREMQuando o apito era o som do transporte pblico

    MEU JEITO METDICO DE SERNo basta ser rotina, tem que ser metdica

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    SUMRIO

  • s AN

    NCIO: FRED

    ERICO CARLOS

  • 7O HOMEM

    MEMRIA

    REPORTAGEM E FOTOGRAFIA s Dbora Kist

    No interior do Vale do Taquari, entre tantas tradies alems, uma em especial mantida por um descendente. Fabricar sapatos de pau ainda

    uma realidade em Teutnia

    DO SAPATO DE PAU

    TRADIO

  • literalmente ao p do morro de Linha Harmonia, no interior de Teutnia, que d para sentir o cheiro da madeira ao subir o estreito asfalto da localidade. Num terreno ngreme e irregular, beira da estrada quase no possvel enxergar a casa. So muitas r-vores, principalmente cedro, que cobrem a fa-chada da residncia igualmente de madeira.

    Os cinco vira-latas avisam quando chega gente estranha. O dono da casa, sua porta, ajeita o bon e limpa as mos na cala para o cumprimento. Um pito e a cachorrada aquieta. Irno Fangmeier, 46 anos, no tem as mos s-peras como se espera de um agricultor tradi-cional. Ele tem as mos com dedos grossos, mas polidas e de uma colorao amarelada como os objetos que faz. ali, naquele lugar longe de tudo, que mora uma das nicas pessoas no Vale do Taquari que ainda faz sapatos de pau.

    Na propriedade de Irno Fangmeier tudo antigo. Inclusive ele, que apesar da pouca idade aparenta alm do que consta no RG e por isso um "senhor" na aparncia. A casa e o galpo, contrudos pelo bisav, so cen-tenrios. A porta do galpo, onde Irno pro-duz os sapatos, baixa e pequena. Nada que o incomode no seu 1,65m de altura. O nico tamanho que o incomodou at hoje foi o dos

    ps e foi assim que ele comeou fazer os holz schuh, como so chamados os sapatos de pau.

    Lidar com madeira nunca foi novidade para esse teutoniense. Diz que sempre gostou de reformar mveis antigos e quando a velha casa onde mora precisava de um reparo, o servio era com ele. Mas talhar madeira fora sempre apenas um passatempo.

    Antes de explicar como comeou com o ofcio, Irno puxa uma cadeira de palha para a visita. Perguntei se ele tambm no prefere sentar, j que talvez eu ocupasse muito de seu tempo. "Prefiro em p", e apontou as pernas tortas, caracterstica dos colonos que h mui-to se equilibram nos morros de Linha Harmo-nia. Irno fala rpido e gesticula com igual ve-locidade. Quando est pensando ou para no misturar o portugus com o alemo, ergue os olhos azuis para o teto e mexe nervosamen-te no bon surrado. O senhor Fangmeier fala sorrindo e quando ri mesmo os ombros cha-coalham junto.

    Irno conta nos dedos quantos anos faz que comeou a fazer os sapatos de pau: 16. Foi ins-trudo pelo vizinho Arno Mller, falecido em 2002, que fazia os sapatos por encomenda. Certa vez, quando Irno era motorista de uma

    TRADIO

  • empresa que vendia leite na regio, foi casa de Mller. Aquele senhor pediu um favor: que levasse um par de sapatos de pau para uma pessoa que havia feito a encomenda, a qual Irno tambm tinha uma entrega de leite.

    Naquele dia choveu muito. Irno, ensopado pelo sobe e desce da cabine do caminho, e com as botas de borracha rasgadas pelos di-versos tropees nos pedregulhos da locali-dade, no pensou duas vezes. Viu aquele par de sapatos e resolveu cal-los. Maravilha. No machucava os ps e os mantinha secos, o que ficava de acordo com as caractersticas do calado: serviam para proteger os ps do frio e da umidade durante as lidas domsticas e agrcolas.

    O nico problema no sapato era o tama-nho. Irno cala 40 e o par de madeira era 43. "Dobrei os dedos, como garras mesmo, para que eu no perdesse", revela. Depois desse epi-sdio, Irno voltou casa de Arno Mller para contar sobre o acontecido. "O velho riu da minha cara e me fez a proposta: eu tinha que aprender a fazer um sapato do meu tamanho."

    Na poca no se encontravam ferramen-tas aptas para o servio. Foi um conhecido, Ivo Alerth, morador de Linha Clara, tambm interior de Teutnia, que trouxe a novidade: o av tinha o que Irno precisava. Mas havia um problema: as ferramentas trazidas da Alemanha no final do sculo XIX estavam guardadas h mais de 40 anos. Para surpresa de Irno, todas elas estavam em timo estado, tanto os formes como as cavadeiras. Hoje, para manter o fio basta eventualmente passar uma lixinha.

    COMO FEITO O HOLZ SCHUH

    A matria-prima do sapato sempre foi o ce-dro. Madeira boa que quando ainda verde no encolhe. Irno corta pedaos de lenha de cerca de 30 centmetros por 20 de largura. O corte ele considera fundamental fazer na serra-fita, pois mais preciso e assim no ocorrem rachadu-ras. Depois, apia sobre o schuh bank, ou apenas a "mesa", e vai dando a forma ovalada da parte dianteira com uma navalha afiadssima.

    Para fazer a frma do p, coloca o cedro numa cuba dentro da mesa, de modo que ele

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    TRADIO

  • TRADIO

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    Orgulho: em 2002 o ento governador

    Olvio Dutra conhece sua arte

    s ARTE S

    OBRE F

    OTO: V

    IVIANE H

    ERRM

    ANN

  • fique levemente inclinado. Assim, Irno pega o formo e vai abrindo o espao no meio do pe-dao de madeira. A ferramenta lembra muito uma concha de sorvete. Em seguida, o sapato lixado at ficar polido. Irno volta serra-fita para cortar o baixssimo salto. O acabamento uma demo de verniz e um pedao de cou-ro na parte superior. Todo o processo, de um sapato adulto, leva cerca de seis horas. esse mesmo processo para todos.

    O primeiro sapato feito pelo senhor Fang-meier fica sempre entrada do galpo. Irno cala o par e sorri lembrando do episdio h 16 anos: "Esse d direitinho no meu p. No tem jeito de perder. Uso pra lida da roa". Para um sapato com todo esse tempo de uso, deixa inveja em muita marca que usa o termo "dura-bilidade". Apenas a parte do couro que cobre o p sofreu um pouco com a ao do tempo.

    Calo 39 e pedi para experimentar seu par. pesado e os passos no saem com naturali-dade. Irno sugere no levantar muito os ps. "Com o tempo acostuma", consola. Ele consi-dera mais fcil andar com os holz schuh do que com "esses sapatos de salto alto que gurias da cidade usam". Eu, eterna adepta do tnis, concordei com Irno.

    Saber fazer os sapatos de pau chamou a ateno da prefeitura de Teutnia. O munic-

    pio possui a Rota Germnica, na qual os tu-ristas podem conhecer diversos pontos da ci-dade. Pelo fato de Irno trabalhar com algo que remete diretamente histria de Teutnia, foi convidado para participar e pessoas do Brasil inteiro vm conhec-lo. No seu caderno de vi-sitas, assinaturas de So Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso.

    Participar da rota tambm o tornou, nas suas palavras, mais conhecido. Foi assim que participou de uma feira de artesanato em Porto Alegre, em 2002, um de seus maiores or-gulhos. Ele lembra que naquele dia pouqussi-mas pessoas vieram at o schuh bank para ver o que ele fazia. De repente, um senhor engra-vatado e com um grande bigode se interessou pela arte do teutoniense. Era ningum menos que o ento governador Olvio Dutra.

    Os principais pedidos para fabricao dos sapatos vm de Estrela e Westflia. Nos dois municpios, h grupos folclricos que dan-am msica alem calando os holz schuh. Ele tambm faz miniaturas que servem como chaveiro ou m de geladeira.

    Tudo na propriedade de Irno Fangmeier re-mete madeira. A casa, o galpo, os sapatos de pau, as ferramentas, as rvores. At sua co-leo de rdios antigos, a maioria com estru-tura de madeira. Ele est to integrado essa

    MEMRIA

    Tanta coisa que a gente poderia ter feito diferente... Mas depois de ter concludo a matria fiquei na dvida: e depois? Quero dizer, fazer sapatos de pau algo raro e Irno um dos nicos que ainda faz. Quem vai seguir com a prtica no futuro? Acabei esquecendo de perguntar se ele j ensinara algum ou pretendia ensinar. Talvez a matria seja sobre o ltimo homem do sapato de pau na regio... Pelo sim, pelo no, prefiro acreditar que tradies to peculiares podem deixar de ser praticadas, mas no esquecidas.

    realidade que confessa: "Parece que eu tam-bm sou feito de pau de lenha." Pergunto se ele seria ento um Pinquio. Os olhos azuis piscam e ele responde com outra pergunta: "Quem esse?".

    Servio no falta e Irno tambm no gos-ta de deixar para depois. Por isso, to logo ter que dar ateno especial a outro objeto, tambm de madeira, mas no um sapato. Um caminhozinho que ele ganhou do pai quando tinha dois anos. "Vou reformar e dar de presente". O senhor Fangmeier vai ser av e nada mais natural que o neto ganhe algo feito de madeira.

    AS ORIGENS DO SAPATO DE PAU

    Segundo o professor e vice-prefeito de Teut-nia, Ariberto Magedanz, os primeiros sapatos de pau chegaram regio em 1858, com os imi-grantes alemes, em especial vindos da Wes-tflia. Como era uma regio prxima Holan-da com altitude prxima ao nvel do mar e com reas midas, estavam acostumados a utilizar um sapato feito integralmente de madeira, que os protegia do frio e da umidade. Estes costu-mes foram trazidos com a imigrao. Como muitos tinham experincia como artesos, logo apareceram pessoas que comearam a fa-bricar o sapato de pau, continuando o costume de seu uso no Brasil.

    As pessoas que usavam o sapato tambm falavam uma lngua diferente de outros des-cendentes alemes. Assim, o dialeto tornou--se conhecido como Plattdtsch, ou sapato de pau. O dialeto ainda hoje falado e entendido pela maioria da populao e muitas vezes a primeira lngua a ser ensinada para os filhos. Apesar de ser originrio do norte da Alema-nha, no guarda semelhana com a lngua alem. O dialeto parecido com a lngua ho-landesa, e alguns consideram mais parecido com o ingls.

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    TRADIO

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    OS

    SINESTESIA

    REPORTAGEM s Larissa Almeida

    J escrevia Cruz e Souza em Antfona: Indefinveis msicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume... Horas do Ocaso, trmulas, estremas, rquiem do Sol que a Dor da Luz resume.... A sinestesia usada na gramtica para enfeitar o texto, mas como

    seria enfeitar a sinestesia atravs da narrativa da vida?

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    SENTIDOS DA

    DIFERENA

    s ARTE: VIVIAN

    E HERRM

    ANN

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    MEMRIA

    Ktia encontrou uma forma diferente de saber quando seus alunos erram a nota: ela sente sabores. Um d menor no lugar de um l, tem um gosto amargo como jil. Um s no lugar de r, est mais para a feijoada do que para a saladinha de alface. Ouse colocar r maior onde a ocasio pede um f que o sabor cido do limo provoca aquele arrepio.

    atravs das cores que Santuza sabe se os temperos de suas receitas esto na medida certa. Um arrozinho refogado com um pouco de feijo e pronto, o verde e amarelo tomam conta da paisagem. um suculento rosbife comear seu psxiiiiiii!! na frigideira, que o aroma se torna azul aveludado no mesmo ins-tante. Experiente misturar cogumelos refoga-dos na manteiga e um pouco de molho branco com uma massa caseira que tons de marrom e ouro enchem os olhos e abrem o apetite.

    Mais que mgica, mais que intuio, mais que delrio: Ktia e Santuza se distinguem da maioria das pessoas, pois possuem uma rara condio neural de nome complicado. A sines-tesia, como tecnicamente conhecida, funcio-na, basicamente, por associao e combinao de sentidos. Mas como isso pode acontecer?

    Para o doutor Paulo Bertolucci, 56 anos, que trabalha com neurologia h 30 anos e profes-sor da rea de neurocincia da Unifesp, a ca-racterstica de sentir ao mesmo tempo vrias sensaes est atrelada somente a um nmero maior de conexes entre os neurnios e, por esse motivo, no seria uma doena, como mui-tos desinformados pensam. Os sinestetas no so nem melhores, nem piores, no possuem superpoderes e nem deficincias, so apenas um pouco diferentes da maioria das pessoas.

    As combinaes entre os sentidos podem ser das mais diversas: a audio com a viso, o tato com o paladar, a viso com o olfato ou a audio e muitas outras formas de sinestesia.

    A DESCOBERTA DA SINESTESIA

    A mineira Ktia Ribeiro, 35 anos, enxerga o mundo cores. Quem v a consultora de negcios sentada atrs de uma mesa, no imagina que, para ela, uma semana normal de trabalho, desde a segunda at a sexta-fei-ra, passa por um arco-ris que vai do branco gelo at o marrom terra, e que atravs de notas musicais que saboreia o cotidiano. K-tia possui a sinestesia e no apenas um tipo, mas dois. Alm de sentir o gosto das msicas, tambm pode enxergar cores nas palavras que ouve. Descobriu que era sinesteta ou, como ela mesma gosta de pensar, descobriu que os outros no eram, por acaso.

    Sempre achou a sua condio natural, mas, aos poucos, percebia que as outras pes-soas no entendiam algumas coisas que fa-lava a respeito de sensaes. Aps semanas com dores de cabea, resolveu procurar um neurologista. No consultrio, pergunta vai, pergunta vem, o mdico explicou que ela possua a tal sinestesia, mas deixou claro que esta no era uma doena e que no ti-nha, absolutamente, nada a ver com a dor de cabea que sentia. Ktia gosta de usar uma analogia para traduzir o que sente sobre sua condio, "Fulano tem olhos azuis... eu te-nho a sinestesia".

    Santuza Mendona, 56 anos, tambm sinesteta. Assim como Ktia, sempre achou que sentir o mundo atravs de vrios sentidos era natural. Descobriu a sinestesia h 6 anos, aps uma conversa com sua irm que psic-loga, especialista em neurolinguagem. Ela v a sinestesia como uma espcie de filtro para as informaes do mundo e um caso mais raro de sinesteta, pois possui trs combina-es diferentes entre os sentidos.

    Para ela, essa histria de branco e preto no existe nem em filme antigo. Os nmeros

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    SINESTESIA

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    de zero a nove e as letras de A a Z so sempre multicoloridas, assim como os nomes das pessoas e, at os cheiros das comidas. Desde de criana, o prato que mais gosta de comer feito simplesmente misturando cores tons de branco com pintinhas marrons e um toque de laranja. O resultado um arroz quentinho com um ovo, frito at ficar dourado, de gema molinha. A terceira forma de sinestesia que possui a de identificar texturas em sons, algo como msicas macias ou speras.

    Muitas pessoas, por desinformao e medo do que os outros vo pensar, acabam escon-dendo a sinestesia. Por isso no vemos muitos sinestetas por a, mas, de acordo com o Dr. Ber-tolucci, em um clculo rpido poderamos di-zer que por volta de 7.200 brasileiros teriam a sinestesia, algo em torno de 1 pessoa para um estdio de futebol como o Beira Rio lotado. E a incidncia em mulheres mais comum, cerca de duas ou trs para cada homem.

    VIVENDO EM VRIOS SENTIDOS

    Como Ktia sempre achou que era normal sentir o sabor das msicas, estranhou certo dia enquanto fazia um trabalho de aula com uma amiga. Ktia disse:

    - Que maravilhoso o gosto dessa msica, sinto um sabor adocicado bem parecido com o gosto do bolo de manteiga que a minha me faz.

    A amiga fez uma cara de espanto, curvando as sombrancelhas em direo ao senho como um sinal de perplexidade e disse:

    - Como assim sabor? Do que voc est falan-do? Msicas no tm sabor.

    Na hora Ktia pensou que, assim como quem no enxergava era cego e quem no ou-

    via era mudo, sua amiga deveria ter alguma deficincia na lngua j que no conseguia sentir sabores de msicas. E props:

    - Vamos pesquisar na Barsa o que pode ter de errado com voc. Amanh, na aula, discu-timos sobre isso.

    Nunca mais tocaram no assunto.

    Depois de ter descoberto que era diferente das outras pessoas, Ktia procurava no co-mentar sobre o assunto e se controlava nos comentrios que fazia, coisa que aprendeu de-pois de sofrer algum preconceito e ser tachada de louca. No intervalo de uma das aulas da Fa-culdade de Direito, resolveu ir com uma colega cantina comer um das famosas coxinhas. A trilha sonora do lugar era sempre comandada pelo pequeno radinho de pilha do cantineiro que naquele dia estava a todo volume. Enquan-to comiam os salgadinhos, Ktia sentia um gos-to maravilhoso, muito mais do que o sabor de uma simples coxinha. Era a msica que vinha

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    SINESTESIA

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    do pequeno aparelho de som. "Ingenuamente comentei que o sabor estava delicioso. Minha colega concordou e disse que sempre comia ali. Sem perceber, completei a frase dizendo que gostosa mesmo, era a mistura da coxinha com o sabor da msica. Na hora ela me olhou com olhos arregalados como se estivesse vendo uma louca prestes a atac-la, mas sua respos-ta foi somente um Ahammm!", recorda K-tia. Nos dias que se seguiram todos j sabiam do acontecido e muitas brincadeirinhas j haviam sido ensaiadas: "Voc vai querer essa msica com sal ou pimenta? Posso colocar um pouco mais de acar na sua melodia?" e assim por diante, coisas que mostraram a Ktia que o melhor era guardar o assunto apenas para si e para os mais prximos.

    J adulta, grvida de seu primeiro filho, o marido de Ktia a convidou para irem a um ro-dzio de pizzas com um casal de amigos. Bem nessa poca, l por 2006, o som que mais fazia

    sucesso nas rdios era uma msica dinamar-quesa regravada pelo Latino. Tenho certeza que voc lembra. A letra era assim: "Hoje festa l no meu ap, pode aparecer, vai rolar bunda-lel". Esse refro grudava que nem chiclete.

    Chegando ao rodzio o grupo pediu a pizza preferida de Ktia, a Califrnia. Quando se preparavam para comer o segundo pedao, passou um carro na rua com a tal msica "Festa no Ap", no ltimo volume. Na hora, a sinestesia de Ktia entrou em ao:

    - Escutei aquela msica e senti um gosto de sardinha frita horrvel, odeio sardinha. Larguei o prato, saltei da mesa feito uma louca e corri para o banheiro. Bem, no deu tempo, acabei vomitando na porta. Ainda bem que o banhei-ro desta pizzaria fica longe das mesas e nin-gum percebeu nada, mas nunca mais voltei l.

    Santuza tambm nem sempre compreendeu o que sentia. Ainda criana, na 1 srie, teve problemas com uma professora. Esta contava a

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    MEMRIA SINESTESIA

    s ARTE: VIVIANE HERRMANN

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    histria da Chapeuzinho Vermelho:

    - E ento aquele imenso lobo marrom se vestiu com as roupas da vovozinha e deitou--se na cama para esperar a chapeuzinho com sua capa vermelha.

    A menina Santuza na hora levantou a mo:

    - Profe. porque voc diz que o lobo da hist-ria marrom? Ele amarelo.

    Santuza conta que, para ela, a palavra lobo soa amarela e por isso se deu toda a confuso. Enquanto a professora insistia, irritada, que o tal lobo da histria era marrom, Santuza via ele amarelo e a imagem era reforada toda a vez que a professora falava a palavra nova-mente. Saram as duas sem entender nada e Santuza s compreenderia o que aconteceu muitos anos depois.

    Durante toda a vida escolar ela percebeu que tinha uma facilidade em memorizar as coisas. Sempre foi pssima em matemtica, pois ficava confusa com os nmeros colori-dos. Em compensao, era dez em histria, chegando a ser presidente do Clube de Leitura da Escola. Com o tempo, aprendeu a utilizar no dia a dia esse talento, desenvolveu uma tcnica de associao de nomes, datas, nme-

    ros de telefone ou de documentos s cores.

    Participou recentemente de um curso cha-mado Leader Training em que os participantes devem ficar acordados por 48 horas fazendo atividades dinmicas sem parar. No auge da madrugada, quando o sono j estava incon-trolvel, receberam a misso de decorar uma poesia de 8 estrofes em uma hora. A dinmica havia sido feita para que ningum conseguisse realiz-la. Santuza, elaborou uma sequncia de cores relacionadas a cada uma das frases. Quando todos estavam reunidos no auditrio, o mediador do treinamento desafiou os 84 par-ticipantes a recitarem a tal poesia. Ningum se manifestou, ento Santuza se encheu de cora-gem e subiu ao palco. Declamou cada uma das frases e completou todas as estrofes impecavel-mente, deixando todos boquiabertos. O media-dor, que realiza esse tipo de treinamento por todo o Brasil, no acreditou no que aconteceu, disse que nunca ningum havia conseguido completar toda a poesia.

    O SEXTO SENTIDO REVELA TALENTOS

    A ria Lascia chio pianga da pera Rinaldo conta a histria de uma doce princesa chama-da Almirena, que aprisionada em um castelo por uma terrvel feiticeira. Apesar de o tempe-

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    SINESTESIA

    Mesmo antes de propr a pauta, j sabia que enfrentaria muitos desafios para realiz-la. Talvez pela vontade de fazer algo diferente ou at por ingenuidade, eu te-nha corrido tantos riscos. Primeiro por no desistir diante dos muitos problemas que tive, como a falta de fontes e a distncia fsica que se imps em muitos momentos, tanto que as entrevista tiveram que ser realizadas somente por e-mail e skype. De-pois, por no ter medo do preconceito daqueles que lerem essa reportagem, pois sei que muitos diro que loucura tudo isso que escrevi. Eu tambm cheguei a duvidar, mas o contato com Ktia e Santuza me fez perceber como so especiais, verdadeiras e intensas naquilo que sentem. A esperana, um pouco pretensiosa, de que algum se descubra sinesteta ao ler esse texto, me deu um estmulo para continuar.

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    MEMRIA SINESTESIA

    ramento da princesa ser definido como doce, para a mineira Ktia Ribeiro, possvel sentir realmente esse sabor. Ao escutar o trecho "Dei-xe que eu chore meu cruel destino e que deseje a liberdade", ela no sente apenas a tristeza de Almirena, mas tambm, o sabor inebriante das notas banhadas a chocolate branco.

    Nas horas vagas, Ktia exerce uma ativi-dade voluntria como mestre cuca, digo... Professora de canto, em meio ao banquete for-mado por um coral de 60 vozes. Com o perdo do trocadilho, Ktia define sua relao com a msica como saborosa, cheia de notas doces e amargas, azedas ou salgadas, cada melodia com suas caractersticas. Nos 10 anos em que estudou msica pode experimentar vrios sabores, mas acabou se apaixonando mesmo pelo som/sabor da flauta.

    H 5 anos ela d aulas de coral e as tcnicas que desenvolveu para reger o coro so prin-cipalmente baseadas em seu superpaladar. "Quando algum dos coristas desafina o sabor da msica muda automaticamente, a consi-go identificar o erro e corrigir. A sinestesia muito til".

    Assim como Ktia, Santuza tambm apai-xonada por sabores. Por volta dos 30 anos, en-controu sua verdadeira vocao ao comear a trabalhar em um restaurante. Percebeu que possua talento para a coisa atravs da sua hipersensibilidade olfativa, que a permitia identificar os ingredientes e os pratos s pelas cores que eles exalavam. A paixo pela cozi-nha foi to certeira que h 26 anos Santuza utiliza seu sexto sentido olfativo para fazer deliciosos pratos para a clientela capixaba.

    Encontrou um jeito muito peculiar para atrair os clientes. Se dirige a cada mesa e ex-plica detalhadamente as sensaes e cores que cada prato proporcionam para aqueles que

    o degustam. O "prato da casa" um tal de Ta-gliarim com molho de cogumelos e, de acom-panhamento, um medalho. Ela relata desde o preparo da massa caseira e do molho de co-gumelos refogados em manteiga douradinha e misturados ao molho branco, tudo exalando uma grande nuvem marrom amadeirada com a carne suculenta, tambm bem marronzinha.

    "Pra mim cozinha aroma, cheiro, cor e fico o tempo todo em volta das panelas tra-zendo o cheiro e o arco ris de cores com as mos para mim".

    E no tente esconder aquela receita secreta de Santuza, ela sempre descobre. "Sei exata-mente o sabor do prato sem ao menos prov--lo, sei o que foi colocado e a quantidade de cada ingrediente pela mistura de cores".

    Nos arco-ris e banquetes da vida, Ktia e Santuza aprenderam a conviver com suas di-ferenas e tambm, que ser exceo (palavra que para elas quente e aconchegante, que remete ao sol em seus tons de vermelho com raios dourados), pode ser delicioso, saboroso, multicolorido. Imaginar como o mundo delas funciona seria o mesmo que descrever a viso para um cego de nascena. Podemos at tentar entender, racionalmente, como funciona, mas jamais teremos a sensao.

    Jamais saberemos o sabor de uma msica maravilhosa do Legio Urbana ou veremos a cor do aroma daquele brigadeiro de colher das reunies com as amigas. Jamais podere-mos sentir o toque macio e felpudo das notas do piano ou a suavidade acinzentada da voz de Milton Nascimento em Outubro. Mas elas sim. E, em contrapartida, elas nunca sabero como o nosso mundo to colorido em preto e branco tambm pode ser repleto de sinestesia, de toques macios, de sabores amargos ou doces e de cores vibrantes, cada coisa a seu momento.

  • 18

    Fernando Durn acabara de pentear os cabe-los grisalhos. Vestira o palet italiano que com-prara em Milo havia uma semana e sorriu sa-tisfeito ao ver que ele combinava perfeitamente com sua gravata londrina.

    Ouviu a porta sendo aberta. Virou-se para ver quem era. Uma jovem loira, de olhos casta-nhos entrara no quarto.

    - Est atrasado, senhor futuro prefeito.

    Fernando, ao ver o conjunto de saia e blusa que ela vestia, surpreendeu-se:

    - Voc est linda... Quer dizer, voc linda!

    - Mame ficaria orgulhosa.

    O pai observou os olhos da filha perderem o brilho. Detestava v-la triste. Por isso, tratou logo de mudar a situao:

    - Saiba que agora, voc a nica mulher da minha vida.

    - Est um pouco velho para mim.

    - Ora, Laura, voc que muito nova para mim!

    - Tem idade para ser meu pai.

    - Eu sou o seu pai.

    - Certo, agora vamos. O anfitrio no pode faltar festa.

    - Como quiser... Fernando no completara a frase, pois sentira uma pontada no peito.

    Laura viu a expresso de dor no rosto do pai e perguntou, aflita:

    - O que houve?

    - Nada, estou bem...

    - o corao, n? J tomou seu remdio?

    - Claro, no se preocupe. S porque estou fa-zendo 60 anos no vou ter um ataque cardaco.

    - Est me assustando!

    - Desculpe, filha. Garanto, estou timo.

    Annimos

    - Se quiser, ns cancelamos a festa...

    - De jeito nenhum! Hoje, nada me detm!

    O dono das empresas Durn preparava-se para uma noite de gala. Aproveitara seu aniver-srio para anunciar sua candidatura prefeitura da cidade.

    Durante toda sua vida almejou somente poder. Sempre fora um homem ambicioso. E, quando todos achavam que o empresrio j tivesse alcanado todos os seus objetivos, surpreenderam-se com seu ingresso na poltica. Sendo assim, no admitiria inconvenincias para esta noite. Nem a terrvel lembrana da noite anterior...

    ...

    Fernando dirigia tranquilamente seu Mercedes. Voltava do litoral, onde tivera uma reunio exaus-tiva durante a manh e tarde. Agora, j de noite, uma forte chuva desabava sobre a rodovia, prati-camente isolada, naquela tera-feira de inverno.

    Ligou o rdio e ouviu apenas um chiado, mas o suficiente para perceber que se tratava de A voz do Brasil. Colocou um CD e respirou satisfeito com o som da msica clssica pene-trando em seus ouvidos. Nisso, assustou-se com o toque estridente de seu celular. Vasculhou a maleta atrs do aparelho e, involuntariamente, derrubou-o no cho. Foi quando se abaixou para apanh-lo, que ouviu um baque. Freou bruscamente e o carro parou em diagonal, des-lizando perigosamente na via deserta.

    Fernando esqueceu do celular e saiu do ve-culo. Os faris traseiros iluminavam fracamente algo cado a dez metros. Caminhou na direo onde tinha certeza que batera em alguma coisa. Assim que percebeu estar diante de uma pes-soa, abriu a boca para gritar, mas no saiu som nenhum. Logo viu que ajud-lo seria intil: a ca-bea daquele homem estava diferente; o pesco-o num ngulo completamente anormal.

    Olhou ao seu redor e avistou uma luz vindo no horizonte. Sem titubear, correu de volta para

    TEXTO s Dbora Kist

    18

    CONTO

  • 19

    seu carro e deu a partida. O celular continuava tocando.

    - Al!

    - Pai, por que demorou pra atender?

    - Estou dirigindo, Laura.

    - Tudo bem?

    - Tudo... Ah, em 15 minutos estarei em casa. Preciso desligar, filha. At logo.

    Fernando Durn deixou novamente a msica lhe apossar. Suava frio.

    - Ningum viu. Ningum viu.

    ...

    - Pai, est me ouvindo?

    - O qu? Fernando olhou perdido para seu filho.

    - Est se sentindo bem? Quem perguntou foi Laura.

    - Sim, claro. O que voc dizia, Augusto?

    - Dizia que uma pena nossa me no estar conosco.

    - Tenho saudades. Disse David.

    - Todos ns. Completou Fernando. Ja-mais nascer outra mulher como Mariana.

    O patriarca fitou os trs filhos. Augusto, o pri-mognito de 25 anos, era o nico que pretendia seguir os passos do pai na empresa. David, de 21 anos, estudava Turismo. Louco por viagens, j conhecia Madri, Roma, Viena, Zurique, Tquio, Buenos Aires e o Brasil todo. Logo depois da fes-ta do pai, seguiria para Boston, onde em breve se formaria. E a caula, Laura, de 17 anos. Fernando jamais demonstrou, mas ela era a preferida.

    ...

    A imprensa toda estava l. Uma chuva de fotos registrou a chegada da famlia Durn ao clube.

    Os 500 convidados foram servidos com um

    cardpio fenomenal. Bebiam e riam alto, at que Augusto foi ao palco.

    - Peo ateno de todos, senhoras e senho-res. Antes de trazer meu pai aqui, gostaria de dizer umas palavras. Comeou a mexer nos bolsos. Onde est esse papel?

    Risos.

    - Bom, deixa pra l. S quero dizer que para mim uma honra trabalhar e ser filho de Fernando Durn, um dos maiores empresrios brasileiros na indstria automobilstica. Mas, mesmo tendo esse imprio, o velho garante que o melhor carro que j construiu foi um de madeira, aos 10 anos.

    Risos.

    - Enfim, meu pai aproveitou seu aniversrio para anunciar sua candidatura prefeitura. E com grande prazer, que agora o recebo.

    Aplausos.

    Fernando Durn era puro contentamento. Com um sinal chamou os filhos para perto de si e os abraou.

    - S tenho a agradecer todos por esta noi-te. E para completar o que Augusto disse,

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    MEMRIA CONTO

    s ARTE: VIVIANE HERRMANN

  • 20

    a melhor coisa que j constru, alm daquele carrinho de madeira, foi minha famlia. Para co-mear por Mariana, que nos deixou. Mas ainda tenho esses filhos maravilhosos, que so minha maior riqueza.

    E, como bom piadista que era, Augusto com-pletou, olhando preocupado para todos.

    - Lamento informar que Fernando Durn est falido.

    E gargalhadas e aplausos eclodiram pelo salo.

    ...

    J eram 5 horas da manh quando Fernando e Laura chegaram em casa.

    - Durma bem, querida. Foi uma noite e tanto.

    - O senhor no vai dormir?

    - Daqui a pouco.

    Laura subiu para o quarto.

    Fernando foi at o bar e encheu um copo de usque. Sentou-se em sua poltrona e acendeu um charuto. Mariana nunca o deixou fumar.

    - Por que me deixou, amor? Segurou as l-grimas. Maldita doena!

    Ela tivera cncer h dois anos. J era tarde demais. Os melhores especialistas foram in-teis. Mariana morrera um ano depois de desco-brir que estava doente.

    Fernando comeou a subir as escadas. To-mou um banho gelado e decidiu no dormir. Optou por dar uma caminhada durante os lti-mos minutos da escurido do dia.

    A passos lentos e cabisbaixo, era o nico transeunte quela hora. No percebeu que uma caminhoneta se aproximava de faris apagados.

    Virou-se ao perceber a presena do vecu-lo. Teve os olhos cegados, pois os faris foram acesos. Sem que pudesse agir, Fernando viu o carro partir para cima de si. Agir, no pde. Fora jogado longe. Sentiu uma forte dor na

    cabea e olhou, horrorizado, os dedos cheios de sangue. Fez meno de se levantar, mas o veculo o atropelara novamente. Agora, j no sentia mais nada. O carro ainda o massacrou seguidas vezes, resultando numa total defor-mao do corpo.

    A pessoa que o atropelou saiu do veculo e aproximou-se do local onde jazia Fernando. Com um sorriso irnico e um tanto diablico, murmurou:

    - Ningum viu. Ningum viu.

    Voltou para o carro e passou pela ltima vez sobre o morto. A msica clssica que ouvia no veculo abafou o barulho de ossos quebrando e rgos estourando.

    ...

    O amanhecer viera afogado por um vento morno, o mesmo que circulava na sala fraca-mente iluminada pelos primeiros raios de sol.

    Postou-se diante da janela e os olhos fixaram--se no vazio, procura de algo surreal para contemplar. Nenhuma nuvem no cu, mas tudo estava errado.

    Vasculha o bolso do palet atrs de um cigar-ro. Encontrara, enfim. Devia acend-lo? Ora, no importava se tinha parado ou no. Era um pecador, como todos.

    A primeira tragada vem seguida de uma tosse. Desacostumara? Milagres acontecem. Jogou o cigarro pela janela e viu-o se perder antes de bater na calada. Com certeza algum transeunte o viria com total indiferena.

    Ergueu novamente a cabea e fitou um ou-tdoor. Propaganda poltica. Sentiu uma forte nusea, mas conteve-se. Os polticos no me-reciam nem mesmo seu vmito.

    Cruzou os braos num sinal de reflexo. Foi quando se decidiu. Pegou o revlver e o apon-tou para a prpria cabea. Ningum viu quando ele apertou o gatilho. Ningum viu...

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    CONTO

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    s AN

    NCIO: FRED

    ERICO CARLOS

  • 22

    MISTRIONA BR 471

    REPORTAGEM s Yaund Narciso

    H seis anos, um homem foi assassinado na BR 471, prximo ao Bairro Harmonia, em Santa Cruz do Sul. Dois tiros foram disparados e um deles foi fatal. At hoje, a polcia trabalha no caso tentando

    descobrir o que aconteceu naquela noite

    ASSASSINATOs LU

    S HAB

    EKOST

  • 23

    nio estudou at a 5 srie do ensino fun-damental, no interior de Santa Cruz do Sul, prximo ao Corredor dos Lopes. Desde mui-to novo comeou a trabalhar. Seu primeiro emprego foi de safrista em uma fumageira. Mesmo com pouco estudo, o garoto no se acomodou e seguiu batalhando por um espao mais digno no mundo. Estudou ln-guas, cresceu na empresa e se tornou ge-rente comercial. Especializou-se na lngua inglesa com tanto empenho que um cama-rada de seu irmo, Lcio, chegou a dizer que ele era um dos brasileiros que melhor dominava a lngua mais falada no mundo. English of course. Talvez at fosse, mas no mais possvel saber.

    nio Pedro Wickert foi assassinado no dia 14 de abril de 2005, aos 46 anos. Seu corpo foi encontrado dentro de seu carro, um Palio Adventure, s margens da BR 471, no trecho que passa pelo Bairro Harmonia, em Santa Cruz do Sul, s 23h15. Dois tiros foram dis-parados. Um atingiu nio no ombro direito e perfurou seus rgos vitais causando-lhe a morte. O outro atingiu seu carro, fazendo com que a bala disparada ficasse alojada na coluna lateral do veculo.

    Os nicos objetos que sumiram do local fo-ram seu celular e as chaves do carro, levando a polcia crer a que no se tratava de latrocnio (roubo seguido de morte). Junto com o corpo de nio estava, ainda, seu notebook, sua car-teira com quase 250 reais e cartes, um apa-relho de DVD porttil, uma pasta com papis da empresa, livros e o relgio de pulso, alm de um aparelho de CD.

    J se passaram mais de seis anos e o mist-rio sobre o assassinato de nio Wickert con-tinua assombrando a famlia, a polcia e a ci-dade. Restam um crime, uma vtima e muitas hipteses.

    O delegado responsvel pelo caso, Miguel Mendes Ribeiro, trabalha atualmente com

    a linha de raciocnio de que o crime no foi premeditado, mas sim um caso eventu-al. Segundo ele, as circunstncias em que o assassinato ocorreu, bem como a posio do corpo da vtima, indicam que no se tratou de algo planejado. O irmo de nio pensa di-ferente. A principal suspeita de Lcio que a morte do seu irmo mais novo tenha sido uma encomenda de algum com muito dinheiro. Suspeitamos que tenha sido um estrangeiro, afirma.

    Lcio Wickert conta que seu irmo era uma pessoa fechada. To fechada que des-cobriu apenas aps a sua morte que nio era homossexual. Fato esse que muitas pessoas acreditavam ter relao com sua morte. Mas Lcio no. Ele acha que os motivos foram outros, mesmo que as suspeitam no passem de hipteses. A aflio por saber quem tirou a vida de seu irmo levou Lcio a oferecer 10 mil reais de recompensa em 2008 para quem tivesse informaes concretas que levassem ao assassino. Proposta que ainda est de p, embora at hoje ningum tenha revelado nada que valesse a recompensa.

    As circunstncias do crime s fazem au-mentar as dvidas de Lcio. Prximo ao local onde ocorreu o assassinato de nio existe um ferro-velho. Lcio conta que foi atrs do pro-prietrio na poca do crime, assim como a polcia tambm fez, para saber se essa pessoa tinha visto alguma coisa. Na ocasio, o dono do local levou Lcio para conhecer o ltimo lugar onde seu irmo esteve com vida. Embai-xo de uma luminria, explicou Lcio. Mas, mesmo assim, a luz da lmpada no foi sufi-ciente para impedir a escurido das intenes daqueles que tiraram a vida de seu irmo. O proprietrio do estabelecimento disse no ter ouvido nada, assim como seu cunhado, que morava tambm no local. Esse cunhado, como contou Lcio, costumava ouvir qual-quer mosca, mas nessa noite, disse s ter ou-vido o silncio.

    MEMRIA ASSASSINATO

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  • 24

    A partir dessa informao, Lcio concluiu, mesmo no tendo provas como base, que as armas utilizadas na execuo possuam si-lenciadores, um dispositivo que diminui a rapidez de escape dos gases, abafando o rudo provocado pelo tiro. Para a tristeza de Lcio, o dono do ferro-velho no soube informar nada que ajudasse na resoluo do caso. Mas Lcio percebeu nessa conversa que as pessoas tm medo de falar.

    As investigaes sobre o acontecido prosse-guiram. E, aps percias realizadas em Porto Alegre, descobriu-se que as duas balas encon-tradas na cena do crime, uma que ficou aloja-da na coluna lateral do carro, e a outra que en-trou no ombro direito de nio e atingiu seus rgos vitais provocando sua morte, eram de calibres diferentes. O projtil que o atingiu fa-talmente era de um 32, e o que ficou no carro, de um 38.

    Uma testemunha que no quis ser identifi-cada informou polcia que viu duas pesso-as no local e hora do crime. A testemunha ouviu uma freada forte, e poucos segundos

    depois, cerca de um minuto, dois tiros, um grito, e em seguida, duas pessoas correndo com objetos metlicos que acreditou serem armas, relatou o delegado Miguel. Com base nesse testemunho e na descoberta de que os calibres das balas que foram encontradas na cena do crime eram diferentes, a polcia con-cluiu que no foi apenas uma pessoa que ti-rou a vida de nio. Dois foram os assassinos.

    AS LTIMAS HORASNa noite de sua morte, nio Wickert orga-

    nizou um jantar no Country Club. Estavam presentes clientes em potencial, estrangeiros, alm do presidente da empresa em que traba-lhava. O ecnomo do clube disse em depoi-mento, assim como o presidente da empresa que nio trabalhava, que aps o jantar, nio saiu para levar um estrangeiro at o hotel onde este estava hospedado. Segundo o que consta nos autos da polcia, nio teria levado um polons para o hotel. No entanto, Lcio tem motivos para suspeitar que possa ter sido um indonesiano.

    Lcio lamenta que no tenha sido escla-recido se foi de fato um indonesiano, ou um polons que nio levou ao hotel. Este apenas mais um dos mistrios que permeiam o caso. Outro fato que inquieta Lcio, que mais ou menos meio ano antes da morte do irmo, ele havia arranjado uma namorada. Uma chine-sa, que tinha o mesmo cargo que ele, mas que, no entanto, trabalhava nos Estados Unidos, na mesma empresa.

    Lcio explica que achou suspeito o que a moa disse, ainda quando nio estava vivo: que gostava muito dele. E, aps sua morte, quando foi levar flores no tmulo, informou que partiria e que nunca mais voltaria ao Bra-sil. E de fato, no voltou. D para desconfiar de algum que perde a pessoa que ama, e no volta nunca mais, nem para ver os familiares do amado, nem para levar flores no tmulo, conclui Lcio.

    So muitas dvidas atormentando Lcio, muitos mistrios, e somente uma certeza: nio est morto. E at este momento, nin-gum sabe como e nem porqu.

    ASSASSINATO

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    s BA

    NCO DE IMAG

    ENS/G

    AZETA D

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    L

    nio Pedro Wickert

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    ADOS/G

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    Matrias publicadas no jornal Gazeta do Sul

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    MAIS MISTRIOSQuem contou famlia as falas da namo-

    rada de nio foi seu melhor amigo, Jack, um estrangeiro que tambm perdeu a vida meses depois num acidente. O carro do amigo de nio bateu de frente, na contramo, com um cami-nho, prximo ao Natura Motel, em Pinheiral. Jack foi ver a famlia seguidamente aps a mor-te do amigo, preocupando-se sempre em ajud--los. Chegou a trazer vitaminas importadas dos Estados Unidos para dar aos pais de nio, na poca, vivos. Atualmente, s a me de nio est viva.

    O pai de nio, assim como sua irm gmea, faleceu sem saber o que realmente aconteceu com o familiar. Lcio explica que, em sua opi-nio, a estranha morte do melhor amigo de nio tambm poderia ter tido alguma relao com o assassinato do irmo. No entanto, esse apenas mais um dos acontecimentos miste-riosos que incendeiam as dvidas de Lcio.

    Segundo as apuraes feitas pelo delegado Miguel e sua equipe, a ltima pessoa com quem nio teria falado teria sido um rapaz jovem no Bairro Arroio Grande. Mais do que isso, pouco se sabe.

    Outra prova do crime que fora encontrada

    so as impresses digitais achadas no Palio Adventure. Praticamente 20 digitais de 20 pessoas diferentes, incluindo as da vtima, fa-miliares e amigos, foram submetidas percia para confronto com as digitais encontradas no carro, informou o delegado.

    Alm desses confrontos, a polcia compa-rou as digitais coletadas no veculo com as das carteiras de identidades feitas recentemente e tambm com as de infratores que constam em seus bancos de dados. E mesmo assim, nada foi revelado.

    Lcio contou que, ao longo dos anos, o de-legado Miguel se tornou um grande amigo da famlia, mas, ainda assim, Lcio continua mantendo uma opinio diferente do delegado em relao morte do irmo.

    Para ele, no se tratou de um crime no pre-meditado, e sim, de um crime bem planejado. Lcio no acredita que a opo sexual do ir-mo tenha muita relao com o motivo de sua morte, embora no negue que de fato o irmo j se relacionou com garotos de programa.

    Lcio no acredita que garotos nessas con-dies sociais pudessem cometer um assassi-nato e no levar nenhum bem da vtima con-sigo, como o dinheiro vivo dentro da carteira.

    ASSASSINATO

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    Lcio Wickert no ter paz at descobrir quem matou seu irmo

    s YAUN

    D N

    ARCISO

  • 27

    A suspeita ajuda a aumentar as dvidas, as hi-pteses elaboradas, a nsia por entender algo que no compreensvel: a morte.

    Outra questo que Lcio acredita que pode-ria ter relao com a morte do irmo, o fato de, mesmo nio sendo de origem humilde, ter se tornado um empresrio de sucesso que progredia gradualmente na empresa. Esse tipo de gente sempre atrai inveja, afirma ele.

    A me de Lcio, que jura que corao de me no se engana, acredita que o filho tenha sido levado fora no local onde foi morto. J Lcio acha que no, pois os vdeos e fotos aos quais teve acesso mostram que o freio de mo do carro estava puxado e a chave vira-da. Quem levado fora muitas vezes no tem tempo para fazer esse tipo de coisa. L-cio acha que roubaram a chave e o celular do irmo justamente para que ele no tivesse a chance de se salvar.

    Ano passado a polcia recebeu a infor-mao, por meio da famlia de nio, de que haveria outro suspeito para fazer a coleta da impresso digital. O delegado Miguel re-velou que esta impresso ainda est em pe-rcia, que poder revelar se ela pertence ou no, a quem puxou o gatilho da arma que

    atingiu e matou nio Wickert.

    O delegado Miguel e sua equipe continuam trabalhando em cima do caso na tentativa de elucidar esse crime to complexo. No entanto, Miguel possui uma desvantagem em relao ao assassino, porque as primeiras 24 horas aps o crime so as mais importantes para a investigao, e nesse momento no era ele quem estava no comando das investigaes, uma vez que era o seu perodo de frias.

    A famlia de nio s ter paz quando desco-brir quem foram os assassinos. Mais do que isso: quando eles forem punidos. Mas essa resposta pode nunca chegar. Neste caso, o que sobra para eles? Talvez apenas as lembranas boas vividas com nio, o exemplo que ele deixou, de persis-tncia e superao, de algum que no aceitou a vida como ela estava posta, e provocou na sua realidade a mudana que desejava ter.

    Pode ser que o mistrio que j dura seis anos finalmente acabe quando a identidade das digitais for conhecida. Na cena do crime, rodovia BR-471, um carro, uma vtima e a pos-sibilidade de terem sido dois assassinos. As poucas certezas que se tem, que o carro era um Palio Adventure e que a vtima era nio Pedro Wickert. O resto mistrio.

    Quando escolhi essa pauta, queria em primeiro lugar exercitar o jornalismo investigativo. Durante o percurso, percebi que essa mo-dalidade exige de fato muita investigao, e que no seria fcil para mim, uma "reles" acadmica, ter acesso a todos os dados e fontes que seriam necessrias. Neste sentido, algumas fontes que eu gostaria de ter entrevistado esto faltando na reportagem. E, por outro lado, uma que eu entrevistei, o reprter do jornal Gazeta do Sul, Ricardo Dren, no aparece em meu texto. Mas isso foi proposital, pois nossa conversa foi O the Record. Quando fui conversar com ele, percebi que precisaria ter uma postura ainda mais neutra na histria, o que procurei adotar na reescrita e correo da primeira verso do texto.

    MEMRIA ASSASSINATO

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  • REPORTAGEM s Michelli Julich

    Em meio a cartas e apostas, o santa-cruzense Joo Mathias Baumgarten garante o sucesso

    na sua profisso

    s ACERVO PESSOAL

    NAS MOS DO PQUER

    JOGOS DE AZAR

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  • NAS MOS DO PQUER

    O Dealer (o jogador da vez) d as cartas e co-meam as apostas, abre o flop (as trs primei-ras cartas na mesa), inicia o trabalho. Pode ser sorte ou azar, no importa. As tcnicas suge-rem se hora de um bet (fazer uma aposta), de um call (pagar uma aposta), ou de um bom fold (desistir da jogada). Os oponentes e o estgio do torneio incentivam as jogadas mais agres-sivas . Essa a rotina de trabalho de Joo Ma-thias Baumgarten, 26.

    Se j complicado entender do que esta-mos falando, imagine para me de Joo Ma-thias, Cledi Hilbig, 48, aceitar que o filho jogador de pquer. Sim, o jovem profissio-nal desde 2008, quando largou o curso de Ci-ncia da Computao, na Universidade Fede-ral de Porto Alegre. Cledi aceitou numa boa, mas se deslumbrou mesmo quando repre-sentou Joo Mathias, em Curitiba, em outu-

    bro de 2009, recebendo o prmio de destaque de jogador revelao da revista brasileira Flop, especializada em pquer. No evento, Cledi emocionou a todos com o exemplo do filho e o apoio a sua escolha.

    Mesmo que este trabalho no exija que Joo Mathias saia do apartamento onde reside, no Centro de Santa Cruz do Sul, ele gosta de se aventurar pelos campeonatos internacionais e nacionais. Habitualmente de domingo a sexta--feira, a partir das 13h, Joo Mathias instala um monitor acoplado ao seu notebook, em uma mesa redonda, ali mesmo, no meio da sala, lo-cal improvisado at que seu novo apartamento, com um escritrio instalado especialmente para as longas horas de trabalho fique pronto. Serve um copo de gua, prepara sua cadeira de couro, aquelas giratrias bem aconchegantes, e comea a selecionar as partidas. Abre at 14

    Em frente ao computador, Joo participa diariamente de at 14 partidas simultneas com durao mdia de 6 horas cada

    MEMRIA JOGOS DE AZAR

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    s MICHELLI JU

    LICH

  • mesas de Pquer, nos sites Party Poker, Full Tilt, PokerStars, entre outros, para jogar torneios on-line com pessoas do mundo todo. Entre diversos estilos jogados, o Texas Holdem (joga com duas cartas) seu preferido. O segundo o Omaha (quatro cartas, com possibilidade de excluir duas). Enquanto todos os torneios esto abertos ao mesmo tempo, cada uma com no m-nimo seis jogadores, o msn fica offline. hora de concentrao, ou melhor, horas, pois os jogos duram em mdia seis horas, com intervalos de cinco minutos, entre uma hora e outra.

    Seus olhos verdes acompanham a seqn-cia de mesas, organizadas lado a lado nos dois monitores. O reflexo das telas, ambas de 22 po-legadas, estampa seu rosto branco de origem europia. Entre uma jogada e outra, poucos segundos para cada deciso, Joo Mathias pre-cisa decidir a tcnica que ser usada. As lei-turas, dos mais de 20 livros especializados de pquer da sua coleo, do um suporte impor-tante em todas as estratgias de jogo. Aos pou-cos, pequenas distraes comeam a surgir, ligaes, visitas, mas nada parece afetar o tra-balho do profissional. Conseguir bons potes (acumulado de fichas sobre a mesa) no incio da partida garante sua estabilidade quando o big blind (as apostas) comea a aumentar, o que o mantm mais perto da mesa final.

    Com a queda em alguns torneios on-line, Joo Mathias vai se inscrevendo em outros, que variam de buy-in (taxa de entrada) de U$ 11,00 a U$ 1.200,00. um investimento alto, por isso, preciso muita ateno. Embora seus movimentos sejam automatizados pela prti-ca, muitas aes podem levar a uma deciso infeliz, algumas jogadas repetidas tm sucesso garantido, outras, surpreendem pela falha. " a varincia natural do jogo", diz o jogador que

    no se deixa levar pela ideia de sorte e azar.

    Aos cinco minutos da prxima hora o momento de ir ao banheiro, fazer um lanche, responder a uma ligao. O curto perodo normalmente bem aproveitado por Joo Mathias, j acostumado com a rotina. Entre uma deciso e outra, para ele pesa mesmo o cansao emocional, de partidas tensas, com possibilidades de perder apostas grandes.

    Entre uma jogada e outra, Joo Mathias ga-rante uma vaga para um torneio ao vivo, em Lima, no Peru. L ele divide a mesa com os me-lhores jogadores do mundo, cara a cara, assim como j representou o Brasil em grandes even-tos como European Poker Tour (EPT), considera-do o mais rico circuito de pquer do mundo ao vivo. Outro torneio desse porte, so as World Series of Poker Europe (WSOPE). Em ambos tor-neios, Joo Mathias no conseguiu atingir os resultados desejados, mesmo ficando prximo ao dinheiro, mas garantiu uma bagagem cheia de novas experincias no pquer ao vivo. As-sim, uma vez por ms, se desloca em busca de um ttulo importante no pquer ao vivo.

    O plano depois de quatro anos, tempo mdio para a carreira de um jogador online de pquer, migrar para o ao vivo que menos cansativo, proporciona muitas viagens, bons aprendizados e envolvem prmios mais al-tos. Alm, claro, por ser o mtodo mais tra-dicional, acaba dando mais visibilidade para os jogadores na mdia, o que facilita tambm um possvel patrocnio. Joo Mathias j rece-beu convite, mas com a situao, mesmo que mais cmoda e barata ao jogador, ele passa a receber mais exigncias, presso do apoiador e isso o intimida.

    "Todos podem fazer disso um negcio, mas

    Apesar de jovem, Rodrigo Kipper faz do pquer seu modo de vida

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  • pra ter sucesso preciso estudar", destaca.

    Como bom profissional, Joo Mathias est sempre reciclando seus conhecimentos e tc-nicas. " preciso sempre se adaptar s novas jogadas e estilos de jogadores. No podemos nunca parar de nos atualizar quando se quer manter entre os melhores", afirma. Um segredo do rapaz que apesar de "trabalhar" durante a noite, preocupa-se com a sade, pois precisa de disposio pra ter bom desempenho em cada torneio. Pratica esportes como corrida, tnis, futebol ou academia. "Se fao um esporte an-tes, minha sesso bem melhor. Ter um equi-lbrio em todas reas da vida importante."

    As estatsticas, que podem ser analisadas no endereo www.officialpokerrankings.com, comprovam que Joo Mathias um excelen-te profissional no ramo. O santa-cruzense destacado como um dos melhores jogadores do Brasil e est no ranking dos melhores do mundo. Em dois anos como jogador profis-sional on-line, conquistou muitos torneios e bons prmios, que variam de U$ 8 mil a U$ 80 mil. Das partidas que enfrentou no site Poker Stars, preferido do jogador, de 104 me-sas finais, conquistou 21 vitrias. Nos outros sites como Full Tilt, chegou a 280 finais e ga-rantiu bons dlares com 42 vitrias. No Party Poker de 110 finais levou 19 partidas. Isso em mais de 9 mil torneios disputados.

    Seguindo o exemplo do Joo Mathias, Tiago Gassen, 28, outro santa-cruzense, co-meou a acreditar que o pquer algo mui-to maior do que um simples jogo de cartas. "Eu tinha uma boa noo do jogo, mas no conhecia o universo do poker, quando fiquei sabendo das conquistas do meu conterrneo, realmente fui atrs, comecei a pesquisar, es-tudar e praticar bem mais", lembra. Tgassen,

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  • apelido que usa nas mesas de pquer, indica que os mritos de Joo Mathias incentivaram muitos amadores. Como amador, joga h um ano, de 4 a 5 horas por dia e j rendeu em tor-no de U$15 mil em torneios on-line. Embora no se dedique exclusivamente atividade, o Dj e gerente de compras v no pquer, alm da diverso, mais uma alternativa de renda e uma tima atividade para reunir os amigos ao menos uma vez por semana, quando pro-movem partidas ao vivo.

    As maiorias dos jovens iniciantes no poker participam inicialmente de partidas gratui-tas e aos poucos vo investindo nos torneios de U$ 1,00 a U$ 6,00. Joo Mathias trata mes-mo isso como um negcio, tem uma expecta-tiva de ganho de cada dlar investido de em torno de 50%. Acompanha as estatsticas de quanto ganhou ou perdeu e compara este

    negcio como a bolsa de valores.

    Em 2008, o pquer comeou a se espalhar pelo pas e todo o mercado evolui rapidamente. "A onda do pquer favorece, pois entram mui-tos amadores que trazem dinheiros de outros ramos e injetam no pquer e os profissionais acabam lucrando", afirma Joo Mathias. Ele procura se especializar cada vez mais buscan-do tcnicas para avanar do online para o ao vivo, aqueles que costumamos ver em filmes. "Tem fases que fica meio saturado com o jogo, mas quando envolve dinheiro muito mais difcil parar, por isso que o pquer predomi-nou entre outros jogos de carta, como truco e canastra", sugere. Em Santa Cruz do Sul, a onda do pquer comeou em 2009 e se espalhou em 2010, um ano depois de Joo Mathias j ser pro-fissional, ou seja, j tinha visto o pquer como uma possibilidade de sustento.

    Cledi, me de Joo Mathias recebeu, em nome do filho, prmio "jogador revelao"

    Conviver mais tempo com o entrevistado para observar sua rotina fez toda a diferena na construo da reportagem. Os detalhes da rotina do jo-gador caracterizam a profisso nada convencional, trazendo um exemplo de que o sucesso est naquilo que se faz bem e para isso preciso estudar muito, envolver-se. Pesquisar sobre a atividade, o jogo de pquer, tambm foi um passo importante, tanto para compreender a liguagem como para desvend--la aos leitores. Tratar a reportagem no estilo literrio faz com que o leitor sinta o ambiente do personagem. Para isso, alm do olhar curioso, o reprter precisa analisar todos os sinais, que daro vida ao texto na hora da leitura.

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  • Gerente de compras e DJ, Tiago Gassen v no pque uma alternativa de renda

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    Joo Mathias compartilha todo seu conhe-cimento com seu primo, Rodrigo Kipper, 25, outro seguidor santa-cruzense. ManoKippa, como conhecido nas mesas de poker on-line, comeou a jogar em maro de 2010, depois de acompanhar as partidas do primo, e j ga-nhou at U$ 11 mil em torneios.

    Assim como Tiago Gassen, adapta o pquer sua rotina de trabalho - corretor de im-veis. "Desde que Joo comeou a jogar me in-teressei pelo pquer, hoje at tiro ele para um jogo mano a mano", brinca.

    Joo Mathias, apesar de ter uma profisso atpica no Brasil, to centrado que no se deixar envolver pela emoo que o dinheiro proporciona, nem mesmo a jogar por aven-tura. Joo no acredita em azar. "Ningum tem mais sorte que o outro. Se tu joga mi-lhes de mos na tua carreira, as coisas vo se equilibrar, cada jogador vai passar pelas mesmas situaes e o retorno dele vai depen-der qualidade das decises tomadas."

    Ento, de pote em pote, Joo vai garantindo sucesso na sua profisso.

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    Para lerMORAIS, Fernando. Coraes Sujos - a histria da Shindo Renmei. So Paulo : Companhia das Letras, 2000.

    Coraes Sujos - A histria da Shindo Ren-mei, mais um dos livros-reportagem escritos por Fernando Morais. Ele, que nasceu em Ma-riana, Minas Gerais, comeou a trabalhar aos 13 anos de idade e especializou-se na arte de contar as histrias escondidas na histria real. Tudo isso, graas aos vrios anos de trabalho como jornalista. Foi reprter, redator, reprter especial, chefe de reportagem e tambm edi-tor nas mais diversas publicaes como Folha de So Paulo e Veja. Ganhou o prmio Esso de Reportagem de 1970, com a srie "Transama-znica" e tambm recebeu trs vezes o Prmio Abril de Jornalismo. Dentre suas obras princi-pais esto: A Ilha (1983), Olga (1985) e Chat: o Rei do Brasil (1999).

    O jornalista e escritor Fernando Morais aban-donou a rotina das redaes ainda na dcada de 70. Desde l, passou a dedicar-se aos livros. O contedo de Coraes Sujos, livro publicado pela editora Companhia das Letras, se d em torno da histria da Shindo Renmei, ou Liga do Caminho dos Sditos. Essa organizao era composta por japoneses que imigraram para o Brasil, mais precisamente em So Paulo, e

    Caos ps-guerra, os imigrantes japoneses no Brasil

    TEXTO s Ana Luiza Rabuske

    que ao final da Segunda Guerra Mundial no acreditavam na derrota de seu pas de origem, o Japo. Tudo isso misturado aos fatores pol-ticos, ideolgicos e culturais da sociedade bra-sileira na poca. Os principais personagens so os japoneses: Shimpei Kitamura, Shinguetaka Takagui, Isamu Matsumoto, Sincho Nakamine, Eiiti Sakane, Isao Mizushima e Tokuiti Hidaka, conhecidos como os "sete heris" de Tup.

    So esses sete japoneses que tomaram a frente do grupo que mais tarde viria a aumentar. O objetivo inicial da Shindo Renmei era preser-var a cultura japonesa e a imagem do impera-dor Hiroto. No entanto, com o fim da Segunda Guerra em 1945 e a derrota do Japo, a asso-ciao tornou-se cada vez mais radical e passou a assassinar os imigrantes japoneses que acre-ditassem na derrota nipnica frente aos aliados. Dentro de poucos meses, a colnia japonesa no Brasil estava divida. De um lado haviam os makegumi, ou derrotistas, apelidados de 'co-raes sujos' pelos militantes da seita. Do outro lado, estavam os kachigumi, ou vitoristas da Shindo Renmei, que eram apoiados por 80% da comunidade nissei no Brasil.

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    RESENHA

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    Os membros da seita falsificaram jornais in-ternacionais e revistas, para que os japoneses acreditassem que seu pas de origem havia ven-cido a guerra. Durante 13 meses, nas regies do pas onde viviam os imigrantes (concentrados em maior nmero no estado de So Paulo), os descendentes menos fanticos e que no acre-ditavam na vitria do Japo, foram hostilizados e, em alguns casos, mortos. Nessa sangrenta luta, o nmero de assassinados chegou a 23 e o de pessoas feridas chegou em torno de 150. J o Estado brasileiro, atravs da polcia, deteve em torno de 30 mil suspeitos, e a justia condenou outros 381 imigrantes (que depois o ento presi-dentes Juscelino Kubitschek anistiou, em 1956).

    Alm de contar dos casos de assassinatos entre os membros das duas legies, o livro re-trata ainda a represso que os descendentes de japoneses sofreram na poca no Brasil. Por se mostrarem revoltados com a derrota de seu pas na guerra, e por dizerem que no acreditavam nisso, acabaram pagando caro. O governo, com mais dureza o de So Paulo, criou regras as quais diziam que todos os imigrantes que fossem des-centes de pases como Itlia, Japo e Alemanha - que tiveram uma ruptura nas relaes diplo-mticas com o Brasil - no poderiam mais falar a sua lngua em lugares pblicos, muito menos disseminar qualquer escrito nos mesmos idio-mas; no poderiam tocar nem cantar os hinos de seus pases e demais regras que os privavam de qualquer contato com suas origens.

    Coraes Sujos repleto de casos, alguns de perseguies, outros de torturas e mortes violen-tas. A Shindo Renmei teve diversos seguidores. Assim como tiveram aqueles que discordavam de sua conduta. Dentre os 30 mil presos pelo DOPS (Departamento de Ordem Poltica e Social), ape-nas cinco eram mulheres. Tudo porque os homens eram os que mais defendiam sua ptria, e no te-miam qualquer consequncia. Todos esses crimes tomaram grandes propores na poca, uma vez

    que estampavam as principais pginas dos jornais que estavam em circulao. Alm dos momentos de 'glria' e de vingana, a seita falhou em vrios momentos. E o principal deles, como conta o final do livro, foi exatamente o fator determinante para o fim da Shindo Renmei.

    Em toda a sua obra, Fernando Morais explora muito bem as fontes e as informaes que tm em mos. Faz isso de tal forma que deixa sem-pre o seu leitor bem localizado no tempo e no espao dos acontecimentos, fatores tpicos de um livro-reportagem. Alm disso, ele faz um levantamento bem profundo dos casos citados, mostrando pesquisa e dados bem analisados. O autor buscou tambm todos os detalhes de vidas fora de seus pases, em comunidades fe-chadas, e que precisavam sobreviver longe de sua cultura, sua lngua e suas origens. Coraes Sujos relembra todos os passos destes imigran-tes, atravs de uma leitura fcil, leve, mas que ao mesmo tempo exige uma enorme capacidade de reflexo e compreenso dos fatos.

    Um dos fatores positivos do livro de Morais, a presena de fotos que ilustram os momentos expostos no livro. So imagens de integrantes das seitas, de japoneses mortos, de reprodues de jornais e revistas com reportagens sobre os acontecidos, dos lderes da Shindo Renmei, e assim por diante. Tudo isso contribui para que a leitura no se torne cansativa, e ajuda o leitor a ver a realidade. Alm de claro, a histria em si, que no encontrada, por exemplo, nos livros de histria. Por outro lado, o autor peca no mo-mento em que escreve sobre a Shindo Renmei. Ele no explica com clareza o que foi especifica-mente esse movimento, deixando para o leitor a tarefa de procurar desenvolver ele mesmo esse raciocnio. Fora isso, o livro de uma riqueza enorme. Cheio de detalhes e de contedos que interessam e fazem parte da histria do Brasil. Esse uma caracterstica do autor, j que faz o mesmo em seus demais livros.

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    MEMRIA RESENHA

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    UM DIAMANTE

    CHAMADO

    EMILY

    REPORTAGEM s Andria Bueno

    Depois de receber as respostas dela, preciso de um copo d'gua e um pouco de vento no rosto para me acalmar;

    impossvel ler sobre sua vida e no chorar. nestas horas que ns jornalistas nos damos conta do quo humanos somos

    DOENA RARA

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    Ela tem uma doena rarssima, descoberta quando ainda era um beb, no ano de 1987. Na poca em que a doena foi diagnosticada, os mdicos brasileiros no sabiam muito so-bre o assunto, mas os pais dela descobriram um especialista do caso no estado america-no de Connecticut. Sem hesitar a famlia se mudou e, desde l, a luta pela vida de Emily diria. Durante estes 23 anos de vida, sacri-fcios e milagres fazem parte da histria de Emily Mello. Em novembro de 2011, ela ga-nhou uma segunda chance de vida: seu tio doou o rim que precisava.

    Aos nove meses de vida, os pais de Emily es-tranharam o comportamento da menina que parou de crescer, tinha incontinncia urinria, vomitava com freqncia e se tornou desnutri-da. Os mdicos no identificavam o problema da garota. Foram trs meses de internao hos-pitalar, 12 dias na UTI, e um diagnstico ater-rorizante para qualquer pai e me: cistinose, este era o nome da doena de Emily.

    A partir daquele momento, os pais, Edevaldo e Cicinha Mello (como carinhosamente cha-mada pela filha), iniciaram uma corrida con-tra o tempo, desafiaram os mdicos brasileiros que no sabiam muita coisa sobre a doena, e encontraram a esperana em um especialista norte-americano que estudava o caso. Um dos nicos no mundo todo. Falando em termos mundiais, cistinose uma doena diagnostica-da em apenas 2 mil pessoas no mundo inteiro.

    Fomos luta para descobrir tudo sobre a doena, desabafou a me de Emily.A famlia, composta pelo pai, Edevaldo, a me, Cicinha, e a irm Ellen, deixou tudo o que tinha no Bra-sil e mudou-se para o estado de Coneccticut, nos Estados Unidos da Amrica. No tnha-mos dinheiro suficiente. Ento, fizemos cam-panhas para arrecadar fundos. Meu pai foi na frente e enviava os remdios.Depois, eu, minha me e minha irm conseguimos nos mudar tambm e continuar o tratamento. Segundo Emily, o governo norte-americano ajudou no tratamento: doava cerca de 300 dlares por ms para Emily. Mesmo assim, para garantir renda famlia, o pai Edevaldo trabalhava na construo civil, e a me fazia servios de limpeza domstica.

    A CISTINOSE NO POUPOU EMILY

    Cistinose uma desordem gentica que provoca acmulo do aminocido cistina no interior das clulas, formando cristais que podem se acumular e danificar as clulas. Normalmente afetam os rins e os olhos. uma patologia grave e progressiva. Uma do-ena que no poupou Emily e, aos 10 anos, este acmulo excessivo de cristais fez os rins da garota parar de funcionar.

    Oito meses! Foi este o tempo que Emily ficou presa a uma mquina de hemodilise, espera de um rim. Eu no podia fazer o que as outras crianas faziam. Faltava na aula e perdia as fes-tinhas que gostaria de participar, mas, em 24 de julho de 1998, minha me me deu mais uma chance de viver: ela doou o rim dela para mim. Foi como um sonho, quando acordei da cirur-gia me sentia diferente!, relembrou ela.

    Mas a guerra no havia terminado. Du-rante os seis primeiros meses aps a cirur-gia, o corpo de Emily comeou a rejeitar o rim transplantado. Foi um momento com-plicado para mim, mas, com os remdios e acompanhamento mdico, tudo se resolveu, explicou Emily. Com muita tranqilidade e com um otimismo marcante em sua fala, ela lembra que, depois de receber o rim de dona Cicinha, ela pde, enfim, ter a vida que sem-pre sonhou: Passei a curtir a vida como nun-ca havia feito. Fiz vrias viagens missionrias com o Ministrio Evanglico Americano, fui para Austrlia, Inglaterra, Mxico, Nova Ze-lndia e para o Brasil, relata.

    Por falar em ministrio evanglico, impor-tante dizer que a f foi o que manteve a esperan-a viva dentro de Emily. Devota de Deus, ela acredita que, em nome Dele, tudo possvel nesta vida. E foi assim quando ela descobriu que estava grvida. Sim, aos 20 anos, logo aps ter se casado, Emily engravidou por acidente.

    SE ELE NASCER

    Eram estas as palavras que os mdicos repe-tiam insistentemente para Emily. Eles chega-ram inclusive a sugerir que a menina no le-vasse a gravidez adiante. Mas ela acredita em milagres, e, como dito acima, em nome Dele

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    MEMRIA DOENA RARA

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    ela tinha f que seria possvel. Emily garante que foi uma gravidez por acidente: Eu toma-va tantos remdios para o meu problema, e estes causam rejeio gravidez que eu nun-ca pensei nesta possibilidade de conseguir ter uma gestao. Um dia acordei desejando comer massa, e eu sempre detestei este prato; como a menstruao estava atrasada, resolvi fazer o exame, que deu positivo.

    Aps ser advertida pelos mdicos que acompanhavam seu caso sobre os riscos de sua gravidez e, depois de recusar a proposta de aborto, Emily foi encaminhada para um dos mais respeitados mdicos da Universi-dade Yale, localizada em Connecticut, e que, em termos de ensino superior, disputa o pri-meiro lugar do mundo com a Harvard.

    Levando os conselhos e tratamentos dos mdicos risca, Emily garante que teve uma gravidez normal. Porm, na 34 semana de gestao, a presso dela subiu muito.Foi nes-te momento que, por meio de uma cesariana realizada s pressas, em 31 de maio de 2008, deu a luz Elijah: Foi inesquecvel aquele momento, foi um milagre de Deus! declarou emocionada. Passada a euforia e a emoo do nascimento do garoto, logo aps o parto, a realidade mais uma vez se imps na vida da menina: o rim de Emily parou de funcionar.

    ENCONTRO MARCADO

    Depois que Elijah nasceu, meu rim parou de funcionar e, por isso, voltei para a mquina de hemodilise relembrou Emily. S que des-ta vez, ela no precisou ir at o hospital. Com a tecnologia de ponta disponvel nos Estados Unidos conseguiu adquirir sua prpria m-quina e fazer o tratamento em casa. Na poca, ela e o beb moravam com o marido, mas a garota se sentia muito mal e precisou voltar para a casa dos pais onde recebia ateno mo-nitorada da me, do pai e da irm Ellen. Meses aps a necessidade da mudana, a separao: Emily e o marido se divorciaram, e ela no abriu mo da guarda do filho Elijah.

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    DOENA RARA

    Emily e o tio Edison aps o transplante

    Os pais, Cicinha e Edevaldo, o filho, Elijah, Emily e a irm Ellen Mello

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    De l para c, dois anos se passaram. E neste tempo, todos os dias, sem poder falhar um diazinho sequer, Emily tem um encontro marcado com sua mquina de hemodilise. Posso estar onde eu estiver, mas a noite preci-so estar em casa, conectar-me ao aparelho e fi-car assim por dez horas. Todo dia so 10 horas, isso at conseguir um outro rim, explicou.

    Mas o encontro marcado com a mquina de hemodilise sempre noite. Durante o dia Emily leva uma vida normal: sai com os amigos, cumpre sua agenda como me que inclui levar Elijah na escola e brincar com o pequeno, vai igreja, troca confidncias com a irm, Ellen, e est sempre conectada em sua conta do facebook.

    NO FIM, UMA SURPRESA

    Eu e Emily trocamos informaes via e--mail e facebook. Em meio a este vai-e-vem de perguntas e respostas, um dia recebi a no-tcia: o tio de Emily, Edison Batista de Mello, 55 anos, poderia ser o doador do rim que ela precisa. A partir daquele dia foi muito difcil encontrar a menina disponvel para conver-sas. Ela passou a frequentar diariamente o hospital, fazia exames frequentes, e marcou a data da doao para novembro.

    O maior inimigo dela e da famlia, naquele momento, passou a ser outro: o financeiro. O tio, que mora em So Paulo, no tinha dinhei-ro para passagens areas, os gastos dobrariam dali em diante. Por meio de campanhas aqui

    do Brasil e em Connecticut, e principalmente pelo esforo da famlia, Emily conseguiu a pas-sagem area do tio, que chegou em terras norte--americanas na manh de 6 de novembro. Pelo facebook foi possvel acompanhar o caso de Emily, que postou diariamente at o momento em que entrou na sala de cirurgia cada passo desta etapa. As mensagens deixadas por ela em sua pgina eram sempre alegres e otimistas e agradecia a todo momento o apoio dos amigos.

    Quando, em nossa ltima conversa, pedi para ela definir sua vida em uma frase ela, em ingls falou: "The way diamond are made, the pressure is good for you", que, em traduo livre para portugus, significa: a maneira como dia-mantes so feitos; a presso boa para ele. Com esta frase, ela disse se sentir como diamante e por isto, tudo o que passou durante a vida "me fez o que sou, me fez forte". Em meio a esta lon-ga espera por um novo rim, Emily nunca es-condeu a vontade de retomar os estudos e um nico sonho: "Quero ver meu filho crescer e estar ao seu lado em todos os momentos de sua vida, e agora falta pouco para me sentir livre, a quero levar meu filho pro Brasil tambm!"

    Depois deste nosso ltimo contato, Emily postou em sua pgina no facebook, exatamente s 11horas e 18minutos da manh de 17 de no-vembro: "Ok pessoal, isto! Estou indo e estarei pronta em 4 ou 5 horas! Desejaria levar meu ce-lular comigo!" Aps isto, ela entrou no bloco ci-rrgico e recebeu o rim de seu tio Edison, o qual passou a chamar de verdadeiro super-heri.

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    MEMRIA DOENA RARA

    A gravidez de Emily foi um desafio para a medicina

    O sonho de Emily ver seu filho, Elijah, crescer

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    Quando morei nos Estados Unidos, conheci Ellen Mello. Desde da primeira conversa, j percebi que ela era uma pes-soa muito humana. Nos aproximamos muito; certo dia soube que a irm dela estava no hospital. Ellen explicou que se tratava de uma doena "complicadinha". Voltei para o Brasil e nunca soube exatamente o que a Emily tinha. Um ano depois, fui de frias para os Estados Unidos e fiquei na casa da famlia Mello. Naquela semana, pude conhecer, de perto, a histria da Emily. Na disciplina de Jornalismo de Revista, sem hesitar, decidi: vou escrever sobre a vida de Emily.

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    A MENTE DO CORPO

    S

    DOENTE

    REPORTAGEM E FOTOGRAFIA s Jonara Raminelli

    Desde jovem, a vida de Marcelo tem sido uma constante busca pela superao de seus prprios limites

    SUPERAO

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    O brilho nos olhos verdes do homem alto e falante traduz o orgulho de contar sua hist-ria. Morador da pequena cidade de Vera Cruz, de pouco mais de 23 mil habitantes, Marcelo, 47 anos, teria bons motivos pra ser um ho-mem ranzinza e de mal com a vida. O segundo dos quatro filhos de Dona Rosa desde criana percebera que era diferente dos outros garo-tos da sua idade. Nas aulas de educao fsica era sempre o ltimo a terminar as tarefas e, quando caa, dificilmente levanta-se sem aju-da ou sem apoiar-se em algo. O corpo crescia, mas a fora fsica no era fiel ao tamanho dos msculos do rapaz, agora com 16 anos.

    O irmo mais velho, Marcos, por vontade prpria ingressou no servio militar. Por apre-sentar dificuldade motora e pouca fora fsica foi encaminhado a atendimento mdico, ini-cialmente no prprio quartel e posteriormente na capital do estado. Aps incontveis exames, o jovem soldado foi dispensado do servio mi-litar por ser portador de uma doena que o im-possibilitaria de desempenhar as funes na carreira militar: Distrofia Muscular de Becker.

    O diagnstico no apenas frustrara os so-nhos do aspirante a militar como tambm de mais cinco jovens da famlia. Marcos, o irmo Marcelo e outros quatro primos por parte de me apresentavam os mesmos sintomas, as mesmas dificuldades, uns mais, outros me-nos. A verdade que os seis rapazes entre 13 e 18 anos, fracos demais, eram portadores da mesma doena gentica do av materno.

    Segundo o geneticista Alexandre Rieger, a Distrofia Muscular de Becker uma doen-a gentica transmitida pela me atravs do cromossoma X. Ela atinge preferencialmente homens. Em mdia a cada 30 mil nascimentos do sexo masculino, um portador da doena. Dois teros dos portadores adquirem a distro-fia atravs dos genes da me e um tero por

    mutao gentica. A perda gradativa de fora muscular ocasionada pela falta da protena distrofina na clula. Rieger compara a distrofia a um trator que puxa um equipamento. "O mo-tor est em pleno funcionamento, mas os elos da corrente que liga ao equipamento esto se-riamente danificados ou mesmo no existem, e por isso a falta de fora."

    Funcionrio de uma fumageira local, Mar-celo desempenhou diversas funes, desde a pesagem at o caixa, tentava manter-se ativo. Dentro de suas possibilidades, seguia ao trabalho de bicicleta. Chegou a trabalhar em uma revenda de motos na vizinha Santa Cruz do Sul, mas a dificuldade de locomoo o fez pedir demisso. Conta que, para subir no nibus, algum tinha que puxar e outro empurrar. Pra descer tinha que sentar e ir me arrastando. Outra dificuldade era nas ruas; o calamento quase sempre ruim o fazia cami-nhar mais lento do que o habitual. O apoio de bengalas no era possvel, pois tambm os braos j no tinham mais foras para susten-tar o tronco. Eu caminhava de um jeito erra-do e as pessoas ficavam me olhando, isso me incomodava, me deixava irritado.

    Com os sintomas da doena cada vez mais evidentes, a revolta e a depresso, que j davam sinais, agora perturbavam o rapaz, ento com 22 anos. J h tempos havia parado de estudar pelo excesso de escadas na escola. Agora, para-va tambm de trabalhar. Encontrou na bebida a bengala que no podia usar e na revolta o ali-mento para sua angstia. Eu me perguntava: por que eu? O que eu fiz de errado? Pensei mui-to e percebi que Deus no existe...

    Uma breve pausa seguida de um suspiro, Marcelo faz uma confisso nunca dita antes.Ele define como momento mais dramtico da sua vida a conversa ouvida por detrs da porta entre a me e a irm: "Eu tinha uns 12 anos, as

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    MEMRIA SUPERAO

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    pessoas comentavam das dificuldades que eu, meu irmo e meus primos passvamos. Eram muitos os diagnsticos que a vizinhana e os parentes tentavam dar para os guris fraqui-nhos. Naquela tentativa de encontrar explica-es, minha irm conversou com um mdico que disse que pessoas portadoras dessas defici-ncias no duram mais que dezessete, dezoito anos. Que desespero, pensava no pouco de vida que ainda me restava. Chorei muito."

    Tal constatao, segundo o geneticista, no verdadeira, mas justifica-se pelas semelhan-as entre a Distrofia Muscular de Becker com a de Duchenne. Ambas apresentam os mes-mos sintomas, no entanto a primeira a for-ma mais leve da segunda. No h diferena

    quanto perspectiva de vida para portadores e no portadores da Distrofia de Becker, o que frequentemente acontece a confuso entre as patologias. A Distrofia de Duchenne reduz drasticamente o tempo de vida dos portado-res, que dificilmente atingem a vida adulta.

    Aps muita insistncia da famlia, voltou a trabalhar. Novamente em Vera Cruz, com-prou um carro e um amigo era seu motoris-ta. Ambos eram vizinhos e trabalhavam na mesma firma. o que dizem, uma mo lava a outra, eu tinha a mordomia de ter um mo-torista particular e ele no precisava ir a p para o servio. Conta que chegou a dirigir o carro adaptado, mas um grande susto o fez parar. Por pouco no provocou uma tragdia

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    SUPERAO

    Me envolvi bastante com a matria, no tive grandes dificuldades uma vez que o case j era meu conhecido (Marcelo marido de uma colega de trabalho). Por conhecer a histria consegui logo determinar o foco a seguir. Na verdade, a minha dificuldade foi a que todo reprter iniciante tem: cortar palavras. Tudo parece importante: aquela fala, aquela citao, enfim. Hoje reescreveria um pouco diferente, sem mudar o foco mas "filtrando" mais as ideias. Fiquei muito satisfeita com o resultado, mas a satisfao maior com certeza vir quando Mar-celo ver sua histria de vida impressa em pginas de uma revista.

    A histria de vida de Marcelo se confunde com a de sua doena

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    ao quase atropelar um grupo de crianas que saa da escola. Por volta dos 30 anos a fora nas pernas estava cada vez mais escassa e cami-nhar j no era mais possvel. Relutou muito, protelou o quanto pode, mas a nica forma de conseguir manter-se em movimento era a cadeira de rodas. A cadeira significava que a luta de me manter em p chegava ao fim, sabia que depois que sentasse nela no tinha mais volta, nunca mais caminharia sozinho.

    A vergonha da condio de cadeirante fez Marcelo parar de freqentar festas e de sair com os amigos. Mas este isolamento no du-rou muito tempo: os mesmos amigos frequen-temente faziam churrascos e depois o levavam quase a fora s festas. No fosse pela insistn-cia destes amigos, Marcelo no teria conhecido sua esposa. Ao esboar um discreto sorriso no canto da boca conta que a morena alta, dona de um belo sorriso no tinha motivos para se interessar por um cadeirante, no fosse pelo carro, um Kaddet vermelho que ele tinha.

    Eis que a voz feminina, que at ento no se manifestara, replica em um piscar de olhos: Que mentiroso, conta tudo, no esconde, tu era um namorador, tava de casinho com a mi-nha irm e queria que eu te olhasse...?

    A conversa, que at o momento mantinha um tom sbrio e at mesmo nublado por lembranas dolorosas, agora frequente-mente interrompida por boas gargalhadas. Marcelo diz que, aos poucos, foi perdendo a vergonha e aceitando sua condio, freqen-tava a casa da bela morena de nome Maria do Carmo e o namoro comeou a ficar srio. Foi ento que comunicou seus familiares que iria alugar uma casa para morar com a namorada que tinha trs filhas, a mais nova com pouco mais de um ano de idade.

    Esto juntos h mais de dez anos, trata as

    enteadas como filhas e fica orgulhoso de ser chamado de v. Do rapaz fraquinho surgiu um homem forte, no de fora fsica, mas de valores, diz o gremista fantico por futebol quando interrompe a entrevista para xingar o juiz da partida que assiste pela televiso. Por falar em televiso, atravs dela que Marcelo fica sabendo de boa parte dos acontecimentos do mundo. Gosta de ficar bem informado, de conhecer um pouco de tudo, de expressar-se com palavras bonitas e de manter dilogo so-bre qualquer assunto, desde moda a economia mundial.

    Para passar o tempo, toma seu chimarro. No poderia ser em outra cuia seno a do time do corao. Lamenta no poder mais fazer o verde a seu modo. Diz-se exigente, gosta da

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    MEMRIA SUPERAO

    A televiso ajuda Marcelo a ficar conectado com o mundo

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    SUPERAO

    bebida com gua quente e a peculiaridade da erva produzir espuma ao encher. Orgulha-se de ter ensinado a esposa a seguir o preparo. At a enteada de 10 anos faz o chimarro como o padrasto gosta. Ao ser questionado quanto aos planos para o futuro, diz no ter grandes am-bies. Quanto doena no espera por mila-gres, at porque no acredita neles. Mas expres-sa uma esperana quanto s clulas-tronco. J no espero mais caminhar, me bastava recupe-rar a fora nos braos pra fazer coisas simples e aliviar o trabalho da minha esposa que faz tudo para mim; estaria satisfeito em guiar a cadeira de rodas. Para o geneticista Alexandre Rieger, no h tratamento para a doena, ape-nas paliativo e transplante com clulas-tronco no seriam possveis. As clulas musculares so perenes, ou seja, nascemos e morremos com elas, portanto no podem ser substitu-

    das.' Ainda segundo Rieger uma soluo pro-missora em estudo Terapia Gnica, que con-siste na introduo atravs de um vetor, de um gene sadio na clula afetada. No entanto, a terapia encontra-se em fase experimental em animais sem perspectivas em humanos.

    Quanto sua condio, Marcelo diz aceitar tranquilamente: No tenho do que reclamar, tenho uma cama confortvel para dormir e alimento para saciar a fome, tenho uma fam-lia que amo. Quanto s minhas limitaes me adapto a elas e vivo bem, no quero despertar piedade nas pessoas, no sou um coitado. Con-sidero coitados os que tem pernas e braos sau-dveis para trabalhar e no o fazem, so to ou mais dependentes que eu: dependem de pai e me ou vivem sugando as esmolas do governo.

    Mesmo ateu, realizou o sonho da esposa, de casarem-se na igreja. Foi uma cerimnia simples, mas do jeitinho que a Do Carmo queria, at o buqu foi como ela quis: De hor-tnsias! Do Kaddet vermelho restam as boas lembranas e um outro carro mais espaoso para acomodar Marcelo. Quem o conduz ago-ra a Maria, no sem os pitacos e reclamaes do marido exigente. Ele reclama de tudo, mas no fundo sei que me ama e sabe que amado. Quanto s condies do marido, Maria diz que aprenderam juntos a superar dificuldades e ajustar as necessidades s condies do dia--a-dia. "At danar ns danamos: eu seguro firme nas mos dele e a cadeira se movimenta comigo. Mas do que mais sinto falta de uma coisa bem simples: de caminha