Top Banner
www.brasildefato.com.br Uma visão popular do Brasil e do mundo Circulação Nacional R$ 2,80 São Paulo, de 7 a 13 de abril de 2011 Ano 9 • Número 423 Silvio Mieli Universidade do Desastre Acusado de pessimista, apocalíptico e retrógrado, o filósofo e arquiteto francês Paul Virilio não é um profeta. Apenas revela, com antecedência, os acidentes da tecnologia para entender o outro lado do progresso. Pág. 3 Beto Almeida Manipulação dos EUA O Brasil votou a favor do envio de vistoria especial da Organização das Nações Unidas sobre violação de direitos humanos no Irã. Com isso, alinha-se, injustificadamente, à manipulação dos EUA. Pág. 3 Miguel Urbano Rodrigues Portugal e o abismo Sócrates acusa a direita partidária de pretender destruir o Estado social. Na realidade, durante os seus dois governos, desencadeou uma ofensiva brutal contra o que resta da herança da Revolução de Abril. Pág. 3 A direita perdida ISSN 1978-5134 Hondurenhos sob crise e repressão Pág. 9 O cangaço além dos mitos Pág. 8 Reprodução Argentina Punições aos genocidas da ditadura Págs. 10 e 11 Sem rumo, desesperada, preconceituosa. Sem projeto. A crise “existencial” da oposição partidária conservadora após oito anos de governo Lula vem mostrando seus sintomas nos últimos meses: criação de um novo partido, possibilidade de fusão de outros e, inclusive, manifestações públicas racistas e homofóbicas de uma extrema direita residual, mas que segue representada em figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ). Págs. 4 e 5 Reprodução
12

Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

Mar 25, 2016

Download

Documents

Brasil de Fato

Uma visão popular do Brasil e do mundo Universidade do Desastre Manipulação dos EUA Portugal e o abismo Uma visão popular do Brasil e do mundo Miguel Urbano Rodrigues Beto Almeida Silvio Mieli www.brasildefato.com.br Sócrates acusa a direita partidária de pretender destruir o Estado social. Na realidade, durante os seus dois governos, desencadeou uma ofensiva brutal contra o que resta da herança da Revolução de Abril. Pág. 3 São Paulo, de 7 a 13 de abril de Reprodução Reprodução ISSN 1978-5134
Welcome message from author
This document is posted to help you gain knowledge. Please leave a comment to let me know what you think about it! Share it to your friends and learn new things together.
Transcript
Page 1: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

www.brasildefato.com.br

Uma visão popular do Brasil e do mundoCirculação Nacional R$ 2,80

São Paulo, de 7 a 13 de abril de 2011Ano 9 • Número 423

Silvio Mieli

Universidade do DesastreAcusado de pessimista, apocalíptico e retrógrado, o fi lósofo e arquiteto francês Paul Virilio não é um profeta. Apenas revela, com antecedência, os acidentes da tecnologia para entender o outro lado do progresso. Pág. 3

Beto Almeida

Manipulação dos EUAO Brasil votou a favor do envio de vistoria especial da Organização das Nações Unidas sobre violação de direitos humanos no Irã. Com isso, alinha-se, injustifi cadamente, à manipulação dos EUA. Pág. 3

Miguel Urbano Rodrigues

Portugal e o abismoSócrates acusa a direita partidária de pretender destruir o Estado social. Na realidade, durante os seus dois governos, desencadeou uma ofensiva brutal contra o que resta da herança da Revolução de Abril. Pág. 3

A direita perdida

ISSN 1978-5134 Hondurenhos sob crise e repressão Pág. 9

O cangaço além dos mitos Pág. 8

Reprodução

Argentina

Punições aos genocidas da ditadura Págs. 10 e 11

Sem rumo, desesperada, preconceituosa. Sem projeto. A crise “existencial” da oposição partidária conservadora após oito anos de

governo Lula vem mostrando seus sintomas nos últimos meses: criação de um novo partido, possibilidade de fusão de outros e, inclusive,

manifestações públicas racistas e homofóbicas de uma extrema direita residual, mas que segue representada em figuras como o deputado

federal Jair Bolsonaro (PP/RJ). Págs. 4 e 5

Reprodução

Page 2: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

Grandes projetos e trabalhadores em greve

Ao visitar nosso país, Obama pe-diu à presidenta Dilma que o Brasil assinasse, como coautor, a resolução para o Conselho de Direitos Huma-nos da ONU investigar inúmeras de-núncias de violações no Irã, atribuí-das ao governo de Mahmoud Ahma-dinejad.

Proposta pela Casa Branca, a reso-lução foi aprovada em Genebra, dia 24 de março, por 22 votos – inclu-sive o do Brasil -, 7 contra e 14 abs-tenções.

A posição do governo Dilma con-traria a do governo Lula. Este ja-mais se submeteu a Washington em matéria de política externa. Em no-vembro do ano passado, o Brasil se absteve ao votar resolução da As-sembleia Geral da ONU condenan-do desrespeito aos direitos huma-nos no Irã.

A embaixadora Maria Nazareth Farani Azevedo, representante do nosso país no Conselho de Direitos Humanos da ONU, justifi cou seu vo-to, em nome do governo Dilma, ale-gando não se tratar de posição con-trária ao Irã, e sim a favor dos direi-tos humanos. E negou ter sido bar-ganha para o Brasil obter uma cadei-ra permanente no Conselho de Se-gurança da ONU – o que Dilma pe-diu a Obama e este respondeu ape-nas que ouvira com “apreço” e mais não disse...

Lula tinha duas razões para se abs-ter de condenar o Irã. Entre os paí-ses árabes, é com a antiga Pérsia que o Brasil mantém maior fl uxo comer-cial. Nos próximos cinco anos o in-tercâmbio entre os dois países pode atingir a elevada soma de 10 bilhões de dólares.

A segunda razão é que Lula não vê moral no governo dos EUA para co-brar do Irã respeito aos direitos hu-manos e tentar impedir que o gover-no de Ahmadinejad faça uso pacífi co da energia nuclear.

Por que EUA, Europa ocidental e Brasil podem fazê-lo e o Irã não? Porque as intenções deste país, diz a Casa Branca, são bélicas. Ao que Lu-la respondeu: Por que EUA, Israel, Índia, Paquistão e tantos países eu-ropeus podem ter armas nucleares e o Irã não? Ou se promove o desar-mamento geral ou basta de cinismo...

Sou inteiramente a favor de se condenar violações de direitos hu-manos no Irã, onde os adeptos da religião Bahá’i são duramente per-seguidos e a pena de morte por ape-drejamento é legal. Porém, o Brasil não pode adotar posições dúbias em sua política internacional.

Se o governo Dilma pretende pau-tar sua política externa pelo tema

dos direitos humanos, deve exigir da ONU investigar o país que mais co-mete violações: os EUA. Que o di-gam os iraquianos e os afegãos.

Obama perdeu uma rara oportu-nidade de, em sua visita ao Brasil, Chile e El Salvador, pedir desculpas a essas nações pelas ditaduras nelas implantadas, graças à Casa Branca, nas décadas de 1960 e 1970. Todas patrocinadas pela CIA e armadas pe-lo Pentágono.

Foram milhares de presos, exila-dos, mortos e desaparecidos, sem que o governo dos EUA dissesse uma única palavra de censura aos generais brasileiros, a Pinochet e aos Esquadrões da Morte que, em El Salvador, assassinaram, em março de 1980, monsenhor Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, e seis pa-dres jesuítas, em novembro de 1989.

A presidenta Dilma teria fala-do com Obama – que usou o Brasil como púlpito para decretar guerra contra a Líbia – sobre os cinco cuba-nos injustamente presos nos EUA desde 1998?

Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ra-mon Labañino e René González vi-viam nos EUA para evitar atos ter-

roristas contra Cuba, planejados em Miami. Graças aos cinco – cuja sa-ga Fernando Morais descreve em li-vro a ser lançado nos próximos me-ses - cerca de 200 ações terroristas foram abortadas. No entanto, conti-nuam em liberdade nos EUA os ter-roristas treinados pela CIA e que, nas últimas décadas, cometeram 681 ações contra Cuba, causando a morte de 3.478 crianças, mulheres e homens, e lesões irreparáveis em 2.099 pessoas.

Usar a base naval de Guantána-mo em Cuba como cárcere clandes-tino de supostos terroristas muçul-manos não é violar os direitos hu-manos? Cadê a promessa de Oba-ma de fechar aquele antro de perver-sidades? Obama haverá de incrimi-nar Bush que, em sua autobiografi a, admite ter autorizado torturas con-tra suspeitos de terrorismo? (Ver de-núncia do Washington Post de 15/10/2008).

Obama destituirá das Forças Ar-madas os militares responsáveis por sequestros de muçulmanos suspeitos de terrorismo, transpor-tados em voos clandestinos através de aeroportos europeus? Obama levará ao banco dos réus os culpa-dos, nos EUA, pela prática de “wa-terboarding”, que consiste em sub-meter prisioneiros à simulação de afogamento?

E com que cara o Brasil fala em di-reitos humanos em outros países se aqui ocorrem cerca de 40 mil as-sassinatos por ano; a Polícia Civil de São Paulo acusa grupos de exter-mínio formados por PMs de matar 150 pessoas entre 2006 e 2010 (61% sem antecedentes criminais); e o Mi-nistério do Trabalho divulga que há cerca de 25 mil pessoas em regime de trabalho escravo.

Bem questiona Jesus: “Como vo-cê se atreve a dizer ao irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco de seu olho’, quando você mesmo tem uma trave no seu?” (Mateus 7, 4).

Frei Betto é escritor, autor de Diário de Fernando – nos cárceres

da ditadura militar brasileira (Rocco), entre outros livros.

opinião Frei Betto

Brasil e Irã: um passo atrás

crônica Luiz Ricardo Leitão

DE UM LADO ANÚNCIOS de me-ga projetos, grandes investimentos e a pavimentação da infraestrutura de um Brasil do futuro. Do outro, obras com condições de trabalho fora dos padrões mínimos da legislação, de-fasagem salarial e canteiros que são verdadeiros campos de concentra-ção à noite e nos fi nais de semana. Essa combinação é a explicação das inúmeras mobilizações de operários em todo país, com paralisações, gre-ves e motins. Segundo o Dieese fo-ram mais de 170 mil trabalhadores parados no mês de março. Um volu-me histórico comparável aos tempos das grandes greves do ABC paulista.

E este mês de abril chega com bo-as promessas de lutas, da continui-dade das mobilizações dos operá-rios nas obras e outras lutas que se somam na construção de um outro Brasil.

A luta pela redução da jorna-da de trabalho para 40 horas sema-nais sem redução dos salários, o fi m do fator previdenciário, a redução da taxa de juros e a reforma agrária são pontos unitários de mobilizações construídas com as centrais sindi-cais e os movimentos sociais para este mês. O tema da redução da jor-nada promete ser o eixo articulador

das lutas e mobilizações unitárias neste ano.

Abril também será marcado pelas mobilizações, marchas, ocupações e outras formas de luta pela reforma agrária. O “abril vermelho” do MST – denominação da mídia burguesa às lutas do movimento em abril - te-rá como tema a memória dos 15 anos do massacre de Eldorado dos Cara-jás (PA), ocorrido em 17 de abril de 1996, onde 19 trabalhadores rurais foram covardemente assassinados pela PM do Pará e outras dezenas fi -caram feridos. Essa data marca o Dia Mundial de Luta pela Terra.

Nos próximos dias teremos o lan-çamento nacional de uma campa-nha e luta de combate ao uso dos agrotóxicos. Essa batalha do campo envolve a cidade, a saúde pública, nossa soberania alimentar e o en-frentamento com as grandes trans-nacionais que controlam o mer-cado de venenos e impõem seu mo-delo de produção baseado na de-pendência da semente, na sua for-ma de produzir e com uso intensi-vo de agrotóxicos. Isso resulta num dado absurdo: somos campeões de consumo de veneno, um bilhão de litros por ano. Portanto, essa lu-ta promete envolver amplos setores

para propor um novo modelo para o campo. Um modelo popular e am-bientalmente sustentável.

Defesa do petróleoA batalha em defesa do petróleo se-

rá outro tema importante. Uma luta que marca a memória do povo brasi-leiro - com a campanha “O petróleo é nosso” - com vitórias históricas, se

mantém atual. As forças sociais en-volvidas nesse tema terão novo en-contro para debater as pautas unitá-rias, os métodos e instrumentos des-sa luta. Além disso, terão o desafi o de envolver outros setores da sociedade e ampliar o trabalho popular. Ban-deiras como o fi m dos leilões, a lu-ta por uma Petrobras 100% pública e estatal, a não exportação de óleo cru, a redução do consumo e investimen-to em fontes limpas, renováveis e de baixo impacto social, dentre outras são bandeiras que unifi cam a campa-nha “O petróleo tem que ser nosso”.

Passe livreOutras lutas, como as mobiliza-

ções em defesa do passe livre, que al-cançaram diversas capitais do nos-so país, com volumosas mobilizações também seguem sua marcha. Essa luta, que envolve principalmente se-tores da juventude urbana, em espe-cial os secundaristas, vem se man-tendo fi rme na capacidade de mobili-zar e pressionar governos e prefeitu-ras. Em São Paulo essa luta vem ga-nhando as ruas com atos massivos e exercendo forte pressão para que a prefeitura explique as razões do au-mento recente, demonstre com as planilhas e justifi que o que é injus-

tifi cável. Aumentos de passagem li-mitam a locomoção e vem ganhan-do a pauta das lutas a cada ano, com maiores mobilizações. Esse ano já são três meses de luta, o que é uma importante sinalização da capacida-de de mobilização e disposição da ju-ventude brasileira.

Seguir lutandoAs elites e suas articulações, como

sempre, usam das mesmas ações pa-ra combater as mobilizações da clas-se trabalhadora. Ou seja, criminaliza-ção e repressão. E, para isso, contam com o apoio dos grandes meios de comunicação, que primeiro silenciam ante às lutas e mobilizações e depois, quando não podem mais omitir os fa-tos, fazem coro criminalizando e di-famando essas lutas. Portando, não se iludam. O Brasil do povo, que lu-ta, que marcha, que briga, não se vê nos grandes meios de comunicação. Nesse sentido, temos uma grande ta-refa pela frente. Seguir lutando pa-ra transformar esse país de injusti-ças históricas em um Brasil popular, democrático, soberano, solidário in-ternacionalmente e voltado para os grandes e justos interesses do povo. Assim, iremos construir um Projeto Popular para o Brasil.

de 7 a 13 de abril de 20112editorial

Gama

Há algo de podre em Bruzundanga

Não, meu caro leitor, eu não me ocuparei nesta semana das histéricas declarações do ‘nobre’ deputado Bolsonaro. Não digo que seja muita ve-la para pouco defunto, pois sei que ele vocaliza posições de um segmento nada invisível de nossa conservadora sociedade. Seu racismo e homofo-bia, porém, são tão caricatos, que fi zeram até levantar do sarcófago o co-lega Jarbas Passarinho, que, após décadas de serviços prestados à dita-dura, disse à mídia que odeia “radicais”, sejam “de direita ou de esquer-da” (!).

Há, de fato, outros processos em curso – menos estridentes, mas bem mais poderosos e letais – a merecer a atenção de todos nós. Eles vão muito além de discursos ou embates ideológicos e avançam ainda mais rápido do que os aviões da OTAN sobre os céus da Líbia e da África. Co-mo advertiu há pouco o economista José Luís Fiori, existe uma nova cor-rida imperialista no planeta e o continente africano, assim como o Orien-te Médio, é, sem dúvida, um dos palcos centrais deste movimento.

Desde o fi m da Guerra Fria e o fi asco dos EUA na Somália (1993), Tio Sam passou a empunhar a bandeira da “globalização e democracia” pa-ra a Mãe África, preocupando-se apenas com as reservas de petróleo e o controle de grupos islâmicos e dos ‘terroristas’ em áreas ao norte do con-tinente. Mas a roda do mundo girou e não foi possível deter a invasão econômica dos países do BRIC, cuja presença em solo africano é mais efetiva do que os mísseis da OTAN. Por isso, pondera Fiori, não é impro-vável que as potências envolvidas nessa disputa geopolítica voltem a pen-sar na recolonização de algumas nações que elas um dia já ocuparam e dizimaram.

São as metamorfoses infi ndas do capital, que não pressupõem, contu-do, o fi m do império ianque – afi nal de contas, a desregulação dos mer-cados e a fl exibilização do dólar (que continua a ser a moeda chave do sistema) conferem aos EUA “um poder monetário e fi nanceiro sem pre-cedente na história”. Por outro lado, o imbróglio entre o capital e a po-lítica nesta era ‘pós-moderna’ assume ainda novas facetas mais cínicas e sórdidas: os aviões franceses e as bases aéreas italianas estão a postos para os ataques à Líbia, mas como se resolverão os negócios fi rmados en-tre Sarkozy, Berlusconi e Kadhafi ?

Mafi osos e empresários, hoje, são as duas faces de uma única e aparen-temente sólida (prestes, portanto, a desmanchar-se no ar...) moeda. Co-mo escreveu o italiano Roberto Saviano, em obra recém-lançada no Bra-sil, “a política é súdita dos negócios” – e, por isso, também se curva aos negócios da máfi a nos quatro cantos da Itália e mais além... Assim, já não importa se o comércio é ‘legal’ ou ‘ilegal’: cocaína, cimento, armas, cons-trução civil e coleta de lixo se tornaram ramos de atividades controlados pelos clãs corporativos da Camorra napolitana, da Ndrangheta calabresa e da Cosa Nostra siciliana.

De fato, os novos grupos empresariais mafi osos são capazes não só de obter vultosos contratos públicos para erguer prédios ao sul e ao norte da Itália, como também de prestar serviços à OTAN, como fez o clã Zagaria, que construiu a central de radar instalada nas imediações do lago Patria, um ponto estratégico para as operações militares da organização no Me-diterrâneo. Em suma, se a guerra nada mais é do que uma condução da política com outros meios (apud Von Clausewitz) e a política vem a ser a guerra dirigida com outros meios (segundo Foucault), Saviano conclui que os clãs empresariais da Itália “não são outra coisa senão economias que usam todos os expedientes para vencer a guerra econômica”.

Quando vejo um posto de gasolina de um vereador de Bruzundanga vender cocaína com cartão de crédito a caminhoneiros, dou-me conta de que até nessa área os malandros da pátria ainda são meros aprendizes dos mestres de além-mar. Os nossos executivos decerto aprenderão mui-to com a velha bota, mas não custa nada indagar que negócios cá estão a promover esses dublês de políticos & empresários...

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da

Vila, Cronista do Brasil e Lima Barreto: o rebelde imprescindível.

Inúmeras mobilizações de operários em todo país, com paralisações, greves e motins. Segundo o Dieese foram mais de 170 mil

Mafi osos e empresários, hoje, são as duas faces de uma única e aparentemente sólida moeda

Se o governo Dilma pretende pautar sua política externa pelo tema dos direitos humanos, deve exigir da ONU investigar o país que mais comete violações: os EUA

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda • Subeditores: Aldo Gama, Renato Godoy de Toledo • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, DanielCassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi,

Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana• Revisão: Joana Tavares• Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – CamposElíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – [email protected] • Gráfi ca: FolhaGráfi ca • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, DelciMaria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria,Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou [email protected] • Para anunciar: (11) 2131-0800

Page 3: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

de 7 a 13 de abril de 2011

lência baseada no excesso de velocidade. Considera a ri-queza como a face oculta da velocidade e a velocidade como a outra dimensão da riqueza. “A velocidade é tão importante quanto a riqueza na fundação do político. Se tempo é dinheiro, a velocidade é poder”, conclui.

Virilio não acredita no fi m do mundo. Acha, ao con-trário, que iremos inventar um pensamento universal e até mesmo um novo modelo de universidade, responsá-vel pelo estudo do desempenho do progresso. Assim co-mo a ideia de universidade nasceu a partir da barbárie e das catástrofes dos sécs. 11 e 12, encontramo-nos agora diante de uma crise ecológica e econômica sem prece-dentes. Portanto temos que desenvolver um novo mo-delo universal para lidar com essa situação, em torno de uma espécie de “Universidade do Desastre”, conforme defi ne seu projeto.

Fica uma lição prática, clara e direta da pedagogia de Paul Virilio ao Brasil de hoje. Antes que vingue algum projeto para implantar a obrigatoriedade do ensino de “educação fi nanceira” para os níveis fundamental e mé-dio, chegou a hora de concentrar esforços por uma edu-cação para a mídia e a tecnologia. Até para nos prevenir de futuros desastres.

Universidade do DesastreELE PREVIU OS ATAQUES de 11 de setembro, alertou que o acidente de Chernobyl iria se repetir, chama Ba-rack Obama de “Top model do discurso político” e defi -ne a internet como um instrumento de controle social. Acusado de pessimista, apocalíptico e retrógrado, o fi ló-sofo e arquiteto francês Paul Virilio não é um profeta, já que não anuncia desígnios divinos, nem prediz aconte-cimentos por dedução ou intuição. Quase octogenário, sua missão urgente é a de revelar os acidentes da tecno-logia para entender o outro lado do progresso.

A militarização do cotidiano, a prevalência do tempo sobre o espaço, as consequências das tecnologias ditas interativas e um poder cada vez mais baseado na ima-gem são alguns dos temas caros a este pensador funda-mental. Segundo ele, deixamos de nos agregar em tor-no de uma “sociedade de opinião”, transformando-nos numa “sociedade da emoção”. Considera assustador o mundo inteiro suspirar diante da mesma imagem em tempo real, ainda que seja a do tsunami do Japão.

Virilio defi ne-se um dromólogo: estudioso da veloci-dade (do grego dromos, corrida) e da aceleração da téc-nica contemporânea. Para ele, ao lado da desigualda-de social surge a necessidade de se compreender a vio-

Dahmer – www.malvados.com.br

instantâneo

Silvio Mieli

so da Sakineh é repercutido e repetido inúmeras vezes, nada se fala do jornalista Mumia Abu Jamal, dos Pan-teras Negras, que está preso há 19 anos no corredor da morte na Pensilvânvia, num julgamento forjado, reple-to de ilegalidades, sob o comando do juiz que mais con-dena negros, hispânicos e asiáticos à cadeira elétrica, que jamais teve divulgação relevante no Brasil. Enquan-to Barack Obomba deu a ordem de ataque nas depen-dências do Palácio do Planalto - desrespeito e também ameaça ao povo brasileiro - inaugurando a nova chuva de mísseis sobre a Líbia, prisioneiros continuam sen-do torturados em Abu Graid, em Guantánamo, crianças executadas no Afeganistão, palestinos fuzilados em Ga-za, com apoio dos EUA. Isso também é pena de morte, coletiva. Toda pena de morte deve ser abolida!

Admitir a manipulação criminosa e hipócrita da ban-deira dos direitos humanos pelo carrasco da humanida-de é uma concessão que mais tarde pode voltar-se con-tra nós. Não apenas por culpa dos direitos humanos que, no Brasil, registram índices de violação insuportá-veis nos impedindo de dar lições de moral a outros po-vos. Mas, também, pelo programa nuclear que o Brasil tem a zelar.

Manipulação de bandeiraO BRASIL VOTOU a favor do envio de vistoria espe-cial da ONU sobre violação de direitos humanos no Irã. Alinha-se, injustifi cadamente, à manipulação dos EUA. Na verdade, os Estados Unidos pretendem usar todos os recursos para pressionar a nação persa a não seguir com seu programa nuclear, com seu impressionante salto nas tecnologias aeroespacial, farmacêutica (o Irã encontra-se entre os principais fabricantes mundiais de remédios contra a AIDS e câncer) e também aquelas aplicadas à indústria bélica.

Quando se argumenta que o Brasil não vai votar a fa-vor do envio de inspetores de direitos humanos para os EUA, há sempre uma ingênua observação, “ mas uma coisa não justifi ca a outra”. A realidade é que sequer passa pela cabeça da Comissão de Direitos Humanos da ONU investigar o país que mais ditaduras sanguinárias patrocinou, mais guerra provoca, mais invasões milita-res realiza para rapinar as riquezas dos países em de-senvolvimento.

Há uma evidente campanha da mídia de capacete - boletins de guerra, não mais reportagens - para desesta-bilizar o governo iraniano, inclusive pela agitação hipó-crita da bandeira dos direitos humanos. Enquanto o ca-

Beto Almeida

3

ObamaLúcidos os comentários de Alípio Freire, “We-ek-end em Pindorama”, e o trecho do Edito-rial, que se reportam à visita de Obama. Co-mungo com o mesmo ponto de vista de que houve, na verdade, uma agressão ao povo brasileiro, por parte do mandatário norte-americano. A mídia alternativa, como faz o Brasil de Fato, é necessária para sobrevi-vência da democracia.

Inocêncio Nóbrega Filho, por correio eletrônico

Era LulaAinda não vi apreciação mais sistematizada do período Lula. A comparação com FHC é insufi ciente e desviacionista. O poder de com-pra popular subiu, empregos aumentaram, o PAC está funcionando e as privatizações fo-ram estancadas. Neste sentido, a conjuntu-ra requer análise muito acurada e não meras

apostas aventureiras com as alianças, a valo-rização do jogo parlamentar em detrimento da politização popular, partidária, sindical e associativa. Apesar de altos ibopes, PT e Lu-la legam alguns desserviços. A Lula não ca-bia usurpar do partido a escolha da candida-ta à presidência. A melhor candidata, Dilma, foi escolhida da pior forma, como mera cari-catura de Lula.

Ernesto Cassol, de Erechim (RS), por carta

DivulgaçãoTenho divulgado o jornal com os educandos e educandas com que trabalho. São jovens e adultos de baixa renda que estão em cursos de qualifi cação profi ssional em busca de auto-nomia e geração de renda. Sou educadora em Cidadania e Economia Solidária e neste tra-balho faço uma jornada de leitura (crítica) so-bre a infl uência da mídia dominante e insiro

como bons exemplos jornais de visão popular como o Brasil de Fato. As pessoas o rece-bem muito bem! Outro fator que poderia ser interessante apurar nas reportagens é o cur-so de alvenaria só para mulheres. Sim, só mu-lheres, de vários perfi s, que estão se qualifi -cando para serem pedreiras e pintoras (viva a diversidade com igualdade!).

Débora Orellana, por correio eletrônico

McDonald’sAcompanhei com grande alegria as pautas (e, principalmente, a capa com matéria de página dupla dentro) do Brasil de Fato sobre rela-ções trabalhistas e o McDonald’s. Acho funda-mental a cobertura sistemática desses assun-tos por parte da imprensa de esquerda - infe-lizmente, ainda é raro ver esse tipo de matéria na Caros Amigos, Fórum, e mesmo no Brasil de Fato (sou assinante de todos há anos).

Bom, o que tenho a dizer é que nas institui-ções privadas de ensino superior o tipo de re-lação trabalhista é muito semelhante. Inclu-sive o regime de remuneração da maioria de-las é idêntico ao do McDonalds, ou seja, porhora, com os mesmos refl exos/problemas pa-ra os trabalhadores e suas famílias. Trabalheidurante 4 anos e meio na Estácio (a maioruniversidade privada do país, com ações àvenda na bolsa de valores e tudo) e conhe-ço casos do arco da velha, ocorridos comigoe com colegas. Aproveito para parabenizá-lospelo excelente jornal que vocês têm produzi-do a cada semana.

Rafael Fortes, por correio eletrônico

Cartas devem ser enviadas para o endereço da redação ou através do correio eletrônico [email protected]

O POVO PORTUGUÊS elegerá os 230 deputados de uma nova Assembleia da República a 5 de Junho.

O presidente Cavaco Silva dissolveu o Parlamento após a demissão do governo de José Sócrates, tornada inevitá-vel pela rejeição do seu IV Plano de Estabilidade e Cres-cimento (PEC). O nome é enganador porque as medidas previstas pelo PEC, reforçando cortes salariais e ferindo conquistas históricas dos trabalhadores, tinham suscitado indignação popular.

Na sua crítica aos partidos da direita, Sócrates acusa-os de pretenderem destruir o Estado social. Na realidade, durante os seus dois governos desencadeou uma ofensi-va brutal contra o que resta da herança da Revolução de Abril. O Serviço Nacional de Saúde, considerado o 10º do mundo pela OMS, foi duramente golpeado. Os professo-res foram também permanentemente hostilizados com grave prejuízo do ensino público. A legislação do trabalho foi praticamente desmantelada através de uma revisão im-posta pelo patronato. A política exterior refl etiu uma sub-missão total ao imperialismo estadunidense e a exigências dos grandes da União Europeia, sobretudo da Alemanha e da França.

O Partido Socialista aplicou durante os últimos seis anos uma política de neoliberalismo ortodoxo.

As agências de rathing americanas colocam Portugal à beira da situação que defi nem como “lixo”.

Sócrates alega que a sua “política de austeridade” visava evitar o pedido de “ajuda” à União Europeia e ao FMI.

Mente. As medidas selvagens do PEC IV foram-lhe dita-das em Berlim pela chanceler Merkel. Na prática o FMI já está em Portugal.

A dívida pública ultrapassa 92% do Produto Nacional Bruto. Este atingiu em 2008 aproximadamente 232 bi-lhões de dólares segundo a Comissão Europeia (um pouco mais do que 20 mil dólares per capita).

O governo Sócrates enganou o país ao informar que cumprira no ano passado o compromisso de reduzir o dé-fi cit do Orçamento para 7,3%. Acaba de ser desmentido pela União Europeia. O défi cit real foi de 8,6% O gover-no não incluíra nas suas contas a verba de 1 bilhão e 800 milhões de euros relativos à estatização do Banco Portu-guês de Negócios, no contexto de gigantescas fraudes des-se banco. Omitiu também os défi cits de três importantes empresas de serviços públicos.

No endividamento galopante, os juros nos empréstimos pedidos atingiram o patamar dos 9%.

A campanha eleitoral será de baixo nível, marcada por troca de acusações entre o PS e o PSD, responsabilizando-se mutuamente pelo agravamento da crise.

O mais provável é que no futuro Parlamento o Partido Social Democrata (PSD) e o CDS - Partido Popular – am-bos de direita –obtenham em conjunto maioria e se coli-guem para formar governo.

A avaliar pelo discurso dos seus líderes, propõem-se a impor uma política ainda mais reacionária do que a de Só-crates.

O Partido Comunista defende uma mudança radical que rompa com a política de direita imposta há décadas ao país. Mas, no âmbito do sistema, o seu justo projeto de mudança esbarra com o funcionamento da engrenagem institucional. Cabe sublinhar que a comunicação social, totalmente controlada por poderosos grupos fi nanceiros, promove a alienação das camadas médias.

O Bloco de Esquerda é um partido de pequenos burgue-ses enraivecidos cujo radicalismo verbal esconde mal a ambição de obter migalhas de poder.

Neste panorama sombrio, a onda de protestos da classe trabalhadora expressa a condenação fi rme da política que levou o país à beira da bancarrota e a sua disponibilidade para lutar por uma ruptura orientada para a satisfação de aspirações profundas do povo.

Ao longo dos últimos meses sucederam-se greves e gi-gantescos protestos populares.

Em 12 de março, em Lisboa e no Porto manifestaram-se 300 mil pessoas em desfi les promovidos por jovens desem-pregados. No dia 19, em Lisboa uma manifestação da gran-de central sindical CGTP reuniu 200 mil trabalhadores.

Somente a mobilização das massas pode abalar as ba-ses da ditadura da burguesia de fachada democrática que oprime o povo português.

Miguel Urbano Rodrigues escreveuma vez por mês neste espaço.

Miguel Urbano Rodrigues

Portugal e o abismo

A dívida pública ultrapassa 92% do Produto Nacional Bruto. Este atingiu em 2008 aproximadamente 232 bilhões de dólares

comentários do leitor

Page 4: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

brasilde 7 a 13 de abril de 20114

Vinicius Mansurde Brasília (DF)

COMO CONSEQUÊNCIA dos pouco mais de oito anos longe do governo fe-deral e, especialmente, da última derro-ta eleitoral, as forças que compuseram a candidatura de José Serra (PSDB) nas eleições à Presidência do ano passado parecem atingir, neste começo de gover-no Dilma Rousseff, o estágio mais pro-fundo de sua crise “existencial”.

O PSDB — cuja divisão interna entre serristas e aecistas segue insolúvel — es-tuda a fusão com DEM e PPS como saída para a sobrevivência. Palavras do ex-se-nador tucano Tasso Jereissati.

O DEM — que já elegeu 105 deputados federais e 14 senadores em 1998 e, agora, tem 44 e 2, respectivamente — dissolveu seu diretório regional de São Paulo, co-mo retaliação às articulações do prefeito da cidade, Gilberto Kassab, que leva ou-tros democratas e opositores do governo federal — descontentes com a oposição — para a fundação do “coringa” Partido So-cial Democrático (PSD).

No Congresso Nacional, a oposição de direita dividiu-se ao enfrentar o governo na votação do salário mínimo, a mais im-portante até então. Nas demais pautas, a postura da oposição, via de regra, segue em baixo perfi l. Na mídia, alguns veícu-los que aberta ou veladamente apoiaram Serra, dizendo que Dilma Roussef era “uma invenção do Lula”, “política inex-periente” ou “terrorista” agora a tratam como “uma mulher de estilo próprio”, “gestora competente” e “defensora dos direitos humanos”. Afi nal, o que aconte-ce com essa oposição?

A hegemonia do centroPara o professor de ciência política da

Fundação Getúlio Vargas (FGV) Cláudio Couto, a atual crise dos setores que en-camparam a candidatura Serra começa

com a continuidade dada pelo governo Lula ao grosso das políticas do governo Fernando Henrique Cardoso.

“Diante de um aprofundamento das políticas anteriores, a grande difi culda-de da oposição de fazer crítica ao gover-no é que ela o via como um fi lho abdica-do seu. Se você não tem políticas alterna-tivas, como você vai apresentar discurso alternativo?”, questiona.

O sociólogo da Universidade de São Paulo (USP) Chico de Oliveira explica que o Brasil passou por um grande pro-cesso de convergência para o centro, sen-do o PT a força mais importante desse movimento, liderado por José Dirceu e conduzido por Lula. “Não à toa, sem ne-nhum oportunismo, o ex-vice-presiden-te José de Alencar ganhou muito desta-que. Não que ele tivesse muita força polí-tica, mas ele simbolizou essa conversão”, aponta.

Com essa transição do partido que es-tava mais à esquerda, a oposição perdeu o discurso. Entretanto, Oliveira ressalta que tal convergência para o centro não é mera decisão partidária, mas “um movi-mento em geral da sociedade: as pesso-as estão com posições mais de centro, há certa euforia econômica e nenhuma pro-posta radical tem muita viabilidade so-bre essa base social”. Por isso, o profes-sor considera que “não existe oposição no Brasil, assim como não existe posi-ção”.

“Note que as oposições, não só o PSDB, têm muita difi culdade. Se a gente mudar de nível, do federal para o estadual, o que é que o PT tem a dizer sobre São Paulo? Nada. São Paulo está sobre controle tu-cano há 16 anos e o PT não tem nada a dizer. Isso não signifi ca que as diferenças de desigualdades sociais estão diminuin-

do, isso é ilusório. O que há é uma certa homogeneização, que retirou a percep-ção das desigualdades sociais como uma coisa que dividia a sociedade.”

Dissociação do LulaAprisionada no espectro centrista, a

disputa política feita pela oposição de di-reita é rebaixada às diferenças de estilo e postura, apelando-se, muitas vezes, co-mo se viu durante o governo Lula, para o preconceito.

Na opinião do professor Cláudio Cou-to, os elogios de setores da mídia a Dilma são a continuidade dessa oposição pre-conceituosa ao Lula, agora com o intuito de criar um contraste entre os dois. “A fi -gura do ex-presidente era muito questio-nada por seu estilo e origem social, por ser muito distinto do que é típico na po-lítica brasileira. Dilma vem de classe mé-dia, fi lha de imigrante, com universi-dade, com perfi l muito mais tecnocráti-co do que de liderança política com iden-tifi cação popular. O que acaba agradan-do setores da mídia, da classe média e até mesmo da oposição. É uma atração pela semelhança. E a herança positiva de ima-gem e transferência de carisma que pode ser colocado para o governo Dilma inco-moda muito a oposição”, afi rma.

EnquadramentoFrancisco Fonseca, também professor

da FGV, vê uma outra explicação para es-se apoio inicial da mídia: a tática de en-quadrar o governo. “A ideia é a de que se perdeu a batalha da eleição, mas a guerra da formulação da agenda continua. Este é um governo de continuidade, mas com ajustes, como a posição contra a violação dos direitos humanos no Irã. E eles di-zem ‘olha, essa é uma medida positiva,

esse é o caminho’, colocando limites na agenda. Daqui a pouco, vão cobrar medi-das contra Venezuela, Bolívia, Mercosul, dizer para não mexer na mídia, no capi-tal fi nanceiro etc.”, aponta.

No que diz respeito à organização par-tidária, Fonseca crê que, de fato, um re-arranjo das forças de oposição está próxi-mo, uma vez que elas estão cientes da sis-temática perda de votos e da iminência de um quarto mandato da base Lula, seja com ele próprio, seja com Dilma.

“A oposição atual é muito revanchista e elitista. O exemplo mais simbólico dis-so foi o PSDB, no programa eleitoral, fa-zer uma favela dentro do estúdio. Asso-ciaram-se com o que há de mais reacio-nário no Brasil. O DEM tentou mudar o discurso, mas é o velho partido da oligar-quia. O PPS tem um discurso udenista, moralista. O Brasil já é um país comple-xo, com comportamentos diversos, esté-tica cultural diversa, eles vão ter que mu-dar”, opina.

Segundo Fonseca, as principais alte-rações devem ser a fusão de DEM, PS-DB e PPS, uma provável modifi cação nos quadros de partidos menores, como PP e PTB, além do já anunciado PSD, de Gil-berto Kassab.

de Brasília (DF)

O que esperar do PSD, partido cria-do pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, até então no DEM? Resultado de uma nova leitura da direita brasilei-ra para fazer oposição? Ou de uma relei-tura crítica que o colocará na base alia-da do governo Dilma? Ou apenas mais uma sigla fi siológica para disputar car-gos no Estado?

Dada a diversidade de declarações fei-tas por Kassab, todas essas possibilida-des são plausíveis. Em uma entrevista à rádio Estadão, Kassab disse que a legen-da “não será de direita, não será de es-querda, nem de centro”. Ilustração fi el da sentença do sociólogo Chico de Oli-veira: “não existe oposição no Brasil, as-sim como não existe posição”.

Para o professor, o surgimento do PSD é simplesmente a confi rmação da “convergência ao centro” e “do uso do mandato para fazer fi siologia”. “Ele [o PSD] não é nada. Dizer que não é nem de direita nem de esquerda nem de cen-tro refl ete isso. Não sabem o que fazer,

a não ser uma coisa: quem tem man-dato, negocia. Então, o Kassab quer ter um mandato sui generis para poder ne-gociar cargos, prebendas e até uma po-sição dentro do jogo político”.

Base aliadaO professor Francisco Fonseca, da

Fundação Getúlio Vargas (FGV), apon-ta que o PSD pode até nascer com uma propaganda de direita, mas não nas-ce como oposição. “É uma direita que adere a qualquer governo, um parti-do conservador que faz qualquer negó-cio”, avalia.

Na prática, explica Fonseca, o parti-do do Kassab vai ser base do governo, só atuando como uma força de veto, ali dentro, quando questões mais fun-damentais de seus interesses estive-rem realmente sob ameaça. Entretan-to, tanto Francisco Fonseca como Chi-co de Oliveira não acreditam no boato de que a fusão de PSD e PSB, num futu-

ro próximo, já está acertada. “Isso é um blefe que ele mesmo [Kassab] inventou com a anuência de alguns para conven-cer outros parlamentares. E ver se al-guém topa entrar no barco dele. O PSB, se fi zer isso, dá um tiro no pé”, senten-cia Oliveira.

Abandonando o barcoPara Francisco Fonseca, Kassab criou

o PSD para se dissociar de fi guras co-mo Agripino Maia, César Maia e Antô-nio Carlos Magalhães e por saber que o DEM “faz água”.

“O DEM pode sucumbir. Hoje tem só dois governadores, uma bancada dimi-nuta de senadores e deputados e é um partido satélite do PSDB, sem candi-datos fortes. A ideia do Kassab é ocu-par esse campo de centro-direita, lendo que o DEM faz água. Óbvio que não re-nova uma vírgula da vida política bra-sileira; é um partido a mais, conserva-dor, com um programa conservador, um partido liberal, quase neoliberal, com políticos conservadores”, avalia.

Até o fechamento desta edição (no dia 5), Kassab já havia anunciado ade-sões ao PSD na Bahia, São Paulo, Goi-ás, Rio Grande do Norte e Rio de Ja-neiro. Os nomes de maior peso são o ex-candidato a vice de José Serra, Ín-dio da Costa (DEM-RJ), o vice-gover-nador de São Paulo, Guilherme Afi f Do-mingos (DEM), a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) e o deputado federal Paulo

Magalhães (DEM-BA). O governadorde Santa Catarina, Raimundo Colombo(DEM), poderá entrar na lista.

A esmagadora maioria dos quadros jáanunciados pelo PSD surge da sangriados democratas que, por conta disso,já iniciaram uma guerra pública con-tra Kassab. Entretanto, o presidente doPSDB, Sérgio Guerra, também partiupara o ataque, considerando a criaçãodo partido como retrocesso.

Caso perca dois parlamentares, o PS-DB, que conta hoje com 53 deputados na Câmara, perderá as condições regi-mentais de exigir verifi cação de quó-rum mínimo ou obstruir votações na Casa. (VM)

Por onde anda a oposição de direita?POLÍTICA Em crise, setores que apoiaram a candidatura tucana buscam alternativas para sobreviver na política brasileira que “convergiu para o centro”

“Não será de direita, não será de esquerda, nem de centro”Professor Chico de Oliveira vê frase de Kassab como refl exo da crise da oposição

“O Kassab quer ter um mandato sui generis para poder negociar

cargos, prebendas e até uma posição dentro do jogo político”

Na prática, explica Fonseca, o partido do Kassab vai ser base do governo, só atuando como uma força de veto, ali dentro, quando questões mais fundamentais de seus interesses estiverem realmente sob ameaça

“Diante de um aprofundamento das políticas anteriores, a grande difi culdade da oposição de fazer crítica ao governo é que ela o via como um fi lho abdicado seu”

“A oposição atual é muito revanchista e elitista. O exemplo

mais simbólico disso foi o PSDB, no programa eleitoral, fazer uma favela

dentro do estúdio”

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, cujo novo partido pode ser base do governo

Marlene Bergamo/Folhapress

Page 5: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

de 7 a 13 de abril de 2011 5brasil

Eduardo Sales de Lima da Redação

O DEPUTADO federal Jair Bolsona-ro (PP/RJ) notabilizou-se, nos últimos anos, por exercer práticas bem-sucedi-das de autopropaganda. Isso porque, apesar de suas recorrentes declarações fascistas provocarem na sociedade bra-sileira mais desaprovação do que o con-trário, ele ainda angaria votos sufi cien-tes para ser eleito.

Suas últimas declarações o colocaram novamente em evidência. A postura de extrema direita deixou transbordar ho-mofobia e racismo, juntos e em plena re-de nacional de TV, na noite de uma se-gunda-feira.

Ao responder à artista Preta Gil o que ele faria se um de seus fi lhos tivesse rela-ções amorosas com uma mulher negra, Bolsonaro afi rmou que não iria “discutir promiscuidade com quem quer que se-ja”, e acrescentou: “eu não corro esse ris-co porque meus fi lhos foram muito bem educados, não viveram em ambiente co-mo lamentavelmente foi o seu”.

No programa, ele também criticou de forma grosseira a política de cotas em universidades ao declarar que não en-traria num avião pilotado por um co-tista, nem aceitaria ser operado por um médico cotista.

Caricatura?“Ele é um fascista em todos os senti-

dos”, afi rma Cecília Coimbra, presiden-ta do Grupo Tortura Nunca Mais do esta-do do Rio de Janeiro. Ela acredita que o deputado federal obtém êxito ao realizar a propaganda de si mesmo, mas também avalia que, sustentando esse mesmo dis-curso, existe uma força política residual levada a cabo pelos chamados “militares de pijama”, que continuam a comemorar datas como a “revolução” de 1964.

O sociólogo Chico de Oliveira, profes-sor da Universidade de São Paulo (USP), reduz a importância dada às declarações de Bolsonaro. Não nega, entretanto, que o mesmo se insere dentro de um seg-mento político no mínimo retrógrado.“É uma fi gura patética, um personagem em busca de autor. Está na mesma catego-ria do Tiririca, só que muito mais nefas-to. Ele representa essa midiatização da política, que virou, na verdade, palco on-de vários existem em suas qualidades ou na falta delas.”

Direita residual, mas presenteBOLSONARO Caricato, o deputado federal pelo PP do Rio de Janeiro representa uma minoria obscurantista da sociedade brasileira

Apesar de folclórico ou caricato, no fi -nal das contas, o deputado federal nãodeixa de representar uma minoria re-al, que, de fato, tem ideias semelhantesàs dele. “Há um conjunto de brasileiros que lamentavelmente possuem um pen-samento que já não se expressa, mas queé real”, defende o ex-secretário de Justi-ça do Estado de São Paulo, Hédio SilvaJr. Segundo ele, Bolsonaro está dialo-gando com o que há de mais conserva-dor, atrasado, com o “rebotalho [escó-ria] da política brasileira”, e com sua di-mensão mais obscurantista.

Com um histórico de afi rmações fas-cistas, é possível dizer que o deputado se esconde atrás de uma farda que nem usa mais? “Ele sabe que a sociedade ci-vil tem medo dos militares, que, a meu ver, são dignos de respeito, não de me-do”, pontua o ex-preso político e jorna-lista Ivan Seixas.

HistóricoA atuação política de Bolsonaro sem-

pre foi bastante corporativista e redu-zida. Ainda como militar, assumiu abandeira das reivindicações salariaise, após se desligar das Forças Arma-das, transformou-se em candidato dasfamílias dos militares. “Com o passardo tempo e com as reivindicações sen-do atendidas e os salários melhorando,ele se alia à extrema direita militar, fa-zendo a pregação em favor das torturasna ditadura”, lembra Seixas.

Seu conjunto de frases bisonhas aolongo da vida parlamentar signifi camuito mais do que parece. A falta deprojeto político-social do deputado re-fl ete-se na prática persecutória traduzi-da em seu constante ataque a homosse-xuais, negros (nesse caso, disfarçado) emilitantes de esquerda. Dessa forma,para Seixas, seu discurso homofóbicoe a favor da tortura funciona bem e semantém por ser uma importante estra-tégia para captar votos.

Durante bate-boca com manifestan-tes do Grupo Tortura Nunca Mais deGoiás e da União Nacional dos Estu-dantes (UNE), em 2008, ele declarou:“O grande erro foi ter torturado e nãomatado”, fazendo uma alusão aos mi-litantes políticos que sofreram tortu-ra no período da ditadura civil-militarbrasileira.

Em 2009, o deputado colou um car-taz na porta de seu gabinete, em quedizia: “Quem procura osso é cachorro”,referindo-se aos militantes de esquer-da mortos e desaparecidos na Guer-rilha do Araguaia. Em 2010, foi a vezde escancarar frases homofóbicas. Eledeclarou ser a favor de dar surras emcrianças e adolescentes que tenhamtendências homossexuais. (ColaborouVinicius Mansur)

da Redação

“Não existe nenhuma dúvida de que ali está confi gurado um crime de incitação ao racismo”. É o que pontua o ex-secre-tário de Justiça do Estado de São Paulo, Hédio Silva Jr, sobre as declarações do deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ) a um programa de TV.

Ao ser questionado sobre uma possí-vel relação amorosa entre qualquer um de seus fi lhos com uma mulher negra, disse que não corria o “risco” disso acon-tecer porque sua prole fora muito bem-educada.

“Ao sacar aquele tipo de ofensa, ele es-tá encorajando outras pessoas a fazerem o mesmo, o que a gente chama de incita-ção ou indução ao racismo, à discrimina-ção e ao preconceito”, afi rma Hédio. Se-gundo ele, não resta dúvidas de que está confi gurado crime de racismo.

A ministra-chefe da Secretaria de Po-líticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, apontou, publi-camente, para a necessidade de não se confundir liberdade de expressão com o cometimento de crimes que, como o ra-cismo, estão previstos na Constituição.

E é na Carta Magna do Brasil que o artigo 53 diz que deputados e senado-res não podem ser processados na Jus-

tiça por suas opiniões. Entretanto, para o ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo, nesse caso, a imunidade parla-mentar não deve ser utilizada para fazer apologia ao crime, incitar brasileiros uns contra os outros, enxovalhar a dignidade da mulher brasileira, e, especialmente, da mulher negra. “Imunidade não pode ser sinônimo de impunidade parlamen-tar”, critica.

Portanto, segundo ele, além de caber a cassação dos direitos políticos de Bol-sonaro por quebra de decoro, ainda é possível levar a cabo uma ação penal, por incitação ao racismo. A prática de racismo é crime inafi ançável desde ju-nho de 1989.

Homofobia Bolsonaro sabe que pode ser levado à

Justiça e, para se livrar da acusação de racismo, vem afi rmando que durante o programa de TV compreendeu mal a per-gunta e pensou que se referia à possibili-dade de um de seus fi lhos ter um caso ho-mossexual, não com um mulher negra.

À Rede Brasil Atual, o deputado Je-an Willys (Psol/RJ) destacou que o de-putado do Partido Progressista está uti-lizando da homofobia para fugir de con-denação legal. Homofobia, no Brasil, ain-da não é crime.

Enquanto isso, o Projeto de Lei 122, que propõe a criminalização da homofo-bia, vem sendo discutido desde 2006 no Congresso Nacional. O texto foi aprova-do na Câmara em 2006, mas ainda espe-ra a análise dos senadores e conta com extrema oposição da bancada evangéli-ca da Casa.

Quatro representações contra o depu-tado Jair Bolsonaro já foram protocola-das na Corregedoria da Câmara dos De-putados até o fechamento desta edição (no dia 5). A seção do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) encaminhará um pedido de cassação do mandato de Bolsonaro por quebra de decoro parlamentar, justifi cando que su-as declarações possuem cunho racista e homofóbico. (ESL)

da Redação

Nos últimos dias do mês de março, três deputados federais fi zeram declarações com viés racista. As que ganharam maior repercussão foram a de Jair Bolsonaro (PP/RJ), dadas em 28 de março.

Mas o deputado federal evangélico Marco Feliciano (PSC/SP) também deu o ar de sua graça. Ele escreveu, na pági-na de uma rede social da internet, no dia 31 de março, que os africanos são des-cendentes de um “ancestral amaldiçoa-do por Noé” e que sobre a África repousa maldições como o paganismo, misérias, doenças e a fome.

Dias antes, em 22 de março, o ex-governador e deputado Júlio Campos(DEM-MT) se referiu ao ministro doSupremo Tribunal Federal (STF), Jo-aquim Barbosa, como “moreno escu-ro” durante uma reunião da bancada dopartido, o que causou mal-estar entrealguns presentes.

Fatos isolados? Não. Segundo o ex-se-cretário de Justiça do Estado de São Pau-lo, Hédio Silva Jr, tais manifestações in-dicam que o país precisa enfrentar de forma defi nitiva a problemática do racis-mo no Brasil. “Quanto mais avançam as conquistas de direitos da população ne-gra, mais isso provoca determinados ti-pos de reações que fi caram latentes e submersas durante séculos, e que come-çam a vir à tona”, analisa. (ESL)

Racista com “máscara” de homofóbico? Março racistaPara se livrar de crime de racismo, deputado federal ataca homossexuais

“Ao sacar aquele tipo de ofensa, ele está encorajando outras pessoas a fazerem o mesmo, o que a gente chama de incitação ou indução ao racismo, à discriminação e ao preconceito”

“É uma fi gura patética, um personagem em busca de autor. Está na mesma categoria do Tiririca, só que muito mais nefasto”

A falta de projeto político-social do deputado refl ete-se na prática persecutória traduzida em seu constante ataque a homossexuais, negros (nesse caso, disfarçado) e militantes de esquerda

O deputado Jair Bolsonaro

Dorivan Marinho/Folhapress

Page 6: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

brasilde 7 a 13 de abril de 20116

Teste políticoO Congresso Nacional tem pela

frente um bom teste sobre as verda-deiras intenções de deputados e sena-dores, já que retorna ao debate a cha-mada reforma política – que tem sido protelada desde os anos de 1990. Será mesmo que os parlamentares vão moralizar o fi nanciamento de campa-nhas eleitorais, regular a publicidade e a fi delidade partidária, aprovar voto distrital e a indicação de nomes por lista fechada? Quem acredita?

Idade modernaO governo do Ceará e o Ministério

da Justiça lançaram, em Fortaleza, campanha publicitária para coibir o tráfi co de pessoas, com a distri-buição de cartazes e folhetos nas rodoviárias, aeroportos e locais de circulação de turistas. Para se ter ideia da dimensão do problema, de 2008 a 2010 foram registradas 1.171 denúncias no estado, geralmente de pessoas enganadas por quadrilhas interessadas na exploração sexual.

Banho-mariaRelatório da Polícia Federal enca-

minhado ao ministro Joaquim Barbo-sa, relator do “caso do mensalão” no Supremo Tribunal Federal, confi rma que parte do dinheiro distribuído pelo governo Lula a políticos da base aliada, em 2005, saiu dos cofres pú-blicos, o que desmonta a versão das contribuições privadas (caixa dois) para a campanha eleitoral. O que o PT e as forças de esquerda pretendem fazer diante dessas informações?

Greve globalNo último dia 4, funcionários da

emissora afi liada da TV Globo em Sergipe paralisaram suas atividades, por algumas horas, para protestar contra cortes salariais, cancelamento de programas regionais e 42 demis-sões. Com a paralisação, a emissora não colocou no ar o telejornal “Bom Dia Sergipe”, que foi substituído pelo“Bom Dia Pernambuco”. Não apenas nas obras de hidrelétricas existe su-perexploração do trabalho!

Ser de esquerda

“É de esquerda quem se opõe ao capital especulativo, quem luta pelos direitos do mundo do trabalho, pela distribuição de renda, pela univer-salização dos direitos. De direita é quem defende os interesses do ca-pital fi nanceiro, quem privilegia os critérios de mercado em detrimento dos direitos da grande massa da po-pulação, que vive do seu trabalho.” Lembra o cientista político Emir Sader – em 29/08/2003. Não faz muito tempo!

Ameaça mortalA Rede Brasileira de Justiça

Ambiental encaminhou carta às autoridades estaduais e federais para denunciar que a auditora fi scal Fernanda Giannasi, do Ministério do Trabalho em São Paulo, tem sido ameaçada por suas denúncias contra a indústria do amianto, substância comprovadamente cancerígena. Pri-meiro, a Eternit fez pressões para afastá-la de suas funções; agora ela está recebendo cartas com ameaças de morte. Até onde vai isso?

Privatização Criadas em 1998, no auge do ne-

oliberalismo do governo FHC, as Organizações Sociais (OS) têm sido utilizadas para terceirizar os ser-viços públicos de saúde, educação, assistência social e cultura – sem a necessidade de licitação e de respeito às normas da administração pública. Agora, em 31 de março, o Advogado-Geral da União Luís Inácio Adams defendeu no STF a constitucionali-dade dessa forma de privatização. Pode?

Sem limpezaNo dia 1º de abril, o líder da

bancada do PT na Assembleia Le-gislativa de São Paulo, Enio Tatto, protocolou na Procuradoria Geral da Justiça representação em que solici-ta a adoção de “medidas de conduta ilegal e de improbidade do governa-dor Geraldo Alckmin, do ex-governa-dor José Serra e do superintendente do DAEE, Amauri Pastorello, por ilegalidade nos contratos de desas-soreamento do rio Tietê, motivo das enchentes de São Paulo”.

Novo cronistaO ex-ministro das Relações Ex-

teriores, Celso Amorim, inaugurou coluna na revista Carta Capital com comentário sobre o voto do Brasil contra o Irã no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Para ele, a defesa de relator para inspecionar aquele país é decisão dura, signifi cativa, de-ve alterar as relações com o Irã e tira do Brasil a condição de mediador privilegiado em casos de ameaça dos direitos humanos. Enfi m, uma críticaao governo Dilma.

fatos em focoHamilton Octavio de Souza

Eduardo Sales de Lima da Redação

O ENSINO do agronegócio avança den-tro da escola pública. Como foi denun-ciado na edição passada do Brasil de Fato, três grandes projetos pedagógi-cos orientados sob os desígnios de gru-pos empresariais transnacionais funcio-nam com o aval do poder público.

O “Projeto Agora”, de responsabilida-de da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), atinge educandos da 7ª e 8ª séries. Cerca de 100 municípios da região centro-sul contam com o projeto. A apostila usada em sala de aula foca o desenvolvimento do setor canavieiro no Brasil e o empreendedorismo dos gran-des latifundiários sob a ótica do progres-so, sem apresentar aos alunos qualquer exemplo que venha desvelar contradi-ções trabalhistas ou ambientais.

O “Agronegócio na Escola”, vigente em Ribeirão Preto (SP), e o “Escola no Cam-po”, funcionam nessa mesma lógica, pa-ra formar um “exército industrial de re-serva consciente de sua necessidade de inclusão dentro da ordem”, como lem-brou a economista e educadora Rober-ta Traspadini.

Os projetos são impulsionados por empresas como o banco Itaú, a transna-cional do ramo de sementes Syngenta, a Monsanto e a Basf.

Em entrevista concedida por correio eletrônico, o professor Universidade Es-tadual do Rio de Janeiro (UERJ) Gau-dêncio Frigotto amplia o debate e de-nuncia outras formas de ação do chama-do grande capital dentro das escolas pú-blicas, como a implantação da disciplina “educação fi nanceira” em 450 escolas do ensino médio.

Para ele, um dos principais resultados dessas experiências nas quais o capital, em parceira com o poder público das três esferas (municipal, estadual e federal), se insere dentro da educação pública, é “formar gerações de ‘defi cientes cívicos’, mutilados em sua capacidade de uma ci-dadania ativa”. Confi ra a entrevista.

Brasil de Fato – Do ponto de vista pedagógico, qual o prejuízo que esses projetos extracurriculares que “glorifi cam” o agronegócio e o empreendedorismo causam aos jovens estudantes do ensino público que residem nessas regiões com já forte presença das monoculturas e do latifúndio?Gaudêncio Frigotto – Os projetos ex-tracurriculares que glorifi cam o agrone-gócio e o empreendedorismo são par-te de um projeto maior de educar na vi-são unidimensional do mercado e se in-serem na lógica de preparar consumido-res e acionistas. Com efeito, o movimen-to dos empresários em torno do proje-to Todos pela Educação e sua adesão ao Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), contrastada com a história de re-sistência ativa de seus aparelhos de he-gemonia e de seus intelectuais contra as teses da educação pública, gratuita, uni-versal, laica e unitária, revela, a um tem-po, o caráter cínico do movimento e a disputa ativa pela hegemonia do pensa-mento educacional mercantil no seio das escolas públicas.

Assim, na mesma lógica das cartilhas do agronegócio, a busca por impor a vi-são fi nancista e mercantil na educação básica é a iniciativa do mercado de capi-tais que, desde agosto de 2010, implan-tou um projeto-piloto de educação fi -nanceira, com supervisão do Ministério da Educação, em 450 escolas do ensino médio, não por acaso, de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, Distrito Federal e Tocantins.

Interesses privados na escola pública PROPAGANDA O educador e fi lósofo da UERJ Gaudêncio Frigotto critica projetos extra-curriculares desenvolvidos por empresas na educação pública

te dos municípios e estados estão infes-tadas dessas parcerias com bancos, e en-tidades como o Instituto Ayrton Senna, Instituto Qualidade da Educação, Fun-dação Roberto Marinho, Positivo, Pitá-goras, entre outros, quando não verda-deiros escritórios montados para vender pacotes (des)educativos. Há, pois, uma irresponsabilidade consentida de gran-de parte das esferas de poder.

Qual a gravidade disso? Essa irresponsabilidade dessas esfe-

ras de poder geram uma dupla conse-quência. A formação de gerações de “de-fi cientes cívicos”, na expressão de Milton Santos, mutilados em sua capacidade de uma cidadania ativa, capaz de afi rmar e ampliar a esfera efetivamente pública e a garantia dos direitos universais indivi-duais, econômicos, sociais e culturais. E, por outra parte, os incapacita de ver que os dois pilares associados que ameaçam as bases da vida no planeta para multi-dões são exatamente o agronegócio e o capital fi nanceiro. O primeiro destruin-do a fertilidade da terra, o ecossistema, poluindo a atmosfera e os mananciais de água pelo uso dos agrotóxicos e, ao mes-mo tempo, excluindo milhões de pessoas ao direito à terra e a sementes não modi-fi cadas, ameaçando a segurança e sobe-rania alimentar. O segundo centrado na especulação parasitária e lidando com a mentira do capital fi ctício, arruinando setores produtivos e empregos.

Como questionar a legalidade dessa intromissão do agronegócio na educação formal de jovens?

Por certo trata-se de algo que pode ser arguido mediante o Ministério Público e os conselhos de educação. A difi culdade está justamente no fato de que quem de-veria fazer essa interpelação, muitas ve-zes, está implicado. Assim só a orga-nização e pressão dos movimentos so-ciais, sindicatos e setores da comuni-dade científi ca e cultural conscientes do signifi cado desta intromissão pode alte-rar este quadro.

Como os professores que recebem os materiais didáticos devem se posicionar?

Em relação aos professores, há dois caminhos que percebo para resistir ati-vamente. O mais adequado e de efeito mais amplo é, através dos sindicatos, ga-rantir que o professor não seja obrigado a adotar estas cartilhas. O segundo, na medida em que isso não ocorra, é o pro-fessor fazer o papel de mostrar ao aluno o signifi cado deste processo de alienação e o que o agronegócio representa.

“O prejuízo fundamental é a negação do direito de uma educação básica que desenvolva na criança e no jovem todas as suas dimensões e lhes dê base tanto para entender os processos e relações sociais e intervir neles de forma ativa”

Esta privatização visa educar no es-trito interesse daquilo que, no conteú-do, método e forma, interessa e serve ao mercado. O prejuízo fundamental é a ne-gação do direito de uma educação bási-ca que desenvolva na criança e no jovem todas as suas dimensões e lhes dê base tanto para entender os processos e rela-ções sociais e intervir neles de forma ati-va, quanto para situar-se no mundo da produção.

Qual o grau de responsabilidade de cada instância do poder público (prefeituras, estados e governo federal) em relação à permissão dessas aulas-propagandas?

As diferentes esferas do Estado brasi-leiro, executivo, parlamento e judiciário e nos diferentes níveis da federação, na sua grande maioria são os porta-vozes do mercado e de grupos econômicos e pro-duzem uma normatização que mascara como púbico o que são as famosas parce-rias público e privado. O signifi cado con-creto desta relação é a privatização do público, pois esta é a logica do mercado. Os serviços para serem públicos devem lidar no âmbito de direitos que são uni-versais, ainda que perante a desigualda-de social possa adotar políticas públicas que busquem priorizar grupos historica-mente injustiçados. O mercado lida com o interesse privado do dono do negócio, por isso é de sua natureza excluir, como lembra o historiador Eric Hobsbawm, assim como a do gás carbônico é poluir. Hoje as escolas públicas de grande par-

“Essa irresponsabilidade gera a formação de ‘defi cientes cívicos’, mutilados em sua capacidade de uma cidadania ativa, capaz de afi rmar e ampliar a esfera efetivamente pública e a garantia dos direitos universais”

Para o professor Gaudêncio Frigotto, privatização visa educar o que interessa e serve ao mercado

Reprodução de página de cartilha patrocinada pela Unica

Levy Ferreira/SECS-PR

Reprodução

Page 7: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

brasil de 7 a 13 de abril de 2011 7

Vinicius Mansurde Brasília (DF)

NO PRIMEIRO mês de março do pri-meiro ano de governo da primeira mu-lher a presidir o país, o Brasil de Fa-to entrevistou a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Iriny Lopes, para saber quais os planos do Executivo para combater a desigual-dade de gênero.

Apesar da grande dependência em re-lação a variados órgãos de Estado e do baixo orçamento, a ministra – ex-depu-tada federal (PT-ES) por três manda-tos – projeta um amplo leque de ações e aposta na convergência de duas priori-dades já elencadas pela presidenta Dil-ma Roussef: política para as mulheres e combate à miséria. Porém, o debate so-bre aborto segue “de acordo com a lei”. Confi ra.

Brasil de Fato – A eleição da primeira mulher para a Presidência da República traz quais impactos para a vida das mulheres e para a luta feminista no Brasil?Iriny Lopes – A eleição da presiden-ta Dilma é um marco simbólico, políti-co e histórico que põe luz sobre a for-ça da mulher brasileira e sua capaci-dade para acabar com as práticas dis-criminatórias, a começar com a pobre-za, violência, ausência de participação política e autonomia econômica, políti-ca e social das mulheres. Uma mulher na Presidência muda a forma de enten-der e de operar as políticas, pois ela te-rá um olhar mais atento para promo-ver a igualdade como um valor neces-sário. Mas as feministas querem mais e preconizam uma sociedade igualitá-ria, com a erradicação de valores e prá-ticas expressas no sexismo, no machis-mo, na homofobia e lesbofobia, no ra-cismo e tantas outras formas de into-lerância que têm raízes no patriarcado e no capitalismo. Nesse sentido, a pre-sidenta Dilma já apontou que as mu-lheres terão prioridade no seu gover-no, o que já é de importância histórica por dois aspectos: ser a primeira presi-denta do Brasil e determinar a erradi-cação da pobreza. Tanto as estratégias de erradicação da pobreza, priorizando as ações de autonomia das mulheres, quanto às bandeiras de luta das femi-nistas têm convergência. Mais do que isso: complementam-se. E quem tem a ganhar são as mulheres.

Durante a campanha, pesquisas indicavam que Dilma Rousseff tinha menos votos entre as mulheres. A bancada feminina no Congresso Nacional também não cresceu. Há uma resistência ao voto nas mulheres por parte delas próprias?

A questão é complexa e está rela-cionada aos papéis que ainda hoje são atribuídos a homens e mulheres na so-ciedade. Pesquisa de 2009 do Ibope/Instituto Patrícia Galvão/Cultura Data com o apoio da SPM revelou que 83% dos entrevistados acreditam que a pre-sença de mulheres no poder melhora a política e 73% afi rmam que a população ganha com a eleição de mulheres. Em-bora haja esse reconhecimento, as mu-lheres ainda não têm as condições para que isso aconteça. No Parlamento, a re-presentação feminina é de apenas 10%; no Judiciário, 15%. Uma das causas, en-tre tantas outras que difi cultam a parti-cipação das mulheres na política, é a le-gislação eleitoral vigente, em que a es-colha de candidatos é determinada pelo poder econômico e não possui mecanis-mos para garantir a equidade de gêne-ro nos partidos e na escolha de suas re-presentações. Outro aspecto é a quase ausência de oportunidades para a edu-cação cidadã e formação política com perspectivas de gênero. Sabemos que as mulheres são intelectualmente mais qualifi cadas que os homens por possu-írem mais tempo de estudos, mas, na hora de decidir quem ocupa os espaços de poder, o critério é machista.

“Não se acaba com a miséria sem acabar com a desigualdade de gênero”ENTREVISTA Ministra Iriny Lopes expõe projeto para sua pasta e vê pauta das mulheres no centro do governo Dilma

A Secretaria de Políticas para as Mulheres entrará no debate da reforma política? Há previsão de intervir em algum outro grande debate nacional?

Nós já estamos atuando nesse senti-do, e começamos por articular a banca-da feminina no Congresso Nacional pa-ra debater a reforma eleitoral e a par-ticipação das mulheres na Comissão de Orçamento da Câmara, que vai debater o PPA [Plano Plurianual]. Em nível in-ternacional estivemos, em fevereiro, na criação da ONU Mulheres, em Nova York. Estivemos também com a Cepal [Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe] para tratar da imple-mentação do Consenso de Brasília, do-cumento aprovado pelos países da re-gião durante a XI Conferência Regio-nal sobre a Mulher da América Latina e Caribe, em julho do ano passado. Atu-ar nessas áreas é ampliar a nossa pers-pectiva de combate às desigualdades, em diálogo, especialmente, com países e movimentos sociais da América Lati-na e África.

O governo estendeu o dia da mulher, 8 de março, para o mês da mulher. O que a SPM fez nesse mês?

Uma extensa pauta de compromis-sos nos estados para dialogar especial-mente com governadores e prefeitos na perspectiva de repactuar as políticas públicas para as mulheres e aplicá-las de forma transversal e articulada. Pois é no município que elas repercutem na vida concreta das mulheres.

Em termos de políticas concretas, o que isso signifi cará?

Quando a presidenta Dilma Rous-seff determina como eixo central de seu governo a erradicação da miséria, ela aponta para a SPM a sua priorida-de, pois não se acaba com a miséria sem acabar com a desigualdade de gênero. A pobreza tem sexo e cor. Do contingen-te da população que vive nessas condi-ções, as mulheres são a maioria, e, en-tre elas, as negras, considerando seus fi -lhos e fi lhas. Já estamos trabalhando pa-ra construir as condições para a autono-mia econômica e política das mulheres, efetivando medidas para a ampliação do trabalho formal e prevendo ampliar em 2 milhões o número de mulheres em-pregadas. Nesse sentido, a capacitação e formação profi ssional é parte dessa es-tratégia, além do acesso às linhas de cré-

ditos diferenciados e apoio às cooperati-vas, associações e outras formas de co-operação e de trabalho entre mulheres. Vamos também ampliar e melhorar os equipamentos sociais como creches, res-taurantes, cozinhas e lavanderias comu-nitárias, especialmente nas regiões onde há alto índice de população em situação vulnerável. Essas são algumas das ações que já estão em curso. Vamos dar escala a programas como o “Gênero e Diversi-dade na Escola” para capacitar meio mi-lhão de professores e professoras da re-de pública para lidar com as temáticas de gênero, raça, etnia e orientação sexu-al. Na área da saúde, ampliaremos a co-bertura do programa nacional de aten-ção à saúde integral da mulher, criare-mos a rede de atendimento ao parto [Re-de Cegonha] para diminuir a mortalida-de materna, e ampliaremos os recursos para tratamento de câncer de mama e colo uterino e o número de equipamen-tos de exames de mamografi a.

Mas o orçamento da SPM é reduzido, provavelmente o menor de todos os ministérios [R$ 114,4 milhões para este ano]. Como levar a cabo essas políticas?

Estamos debatendo a matriz de go-verno para a transversalidade e institu-cionalidade das políticas, o que signifi ca garantir que elas sejam políticas de Es-tado. A SPM é um ministério-meio, ar-ticula e promove a transversalidade das políticas para as mulheres. São políticas que só podem ser aplicadas de forma articulada entre todas as áreas de go-verno. É preciso uma mudança na ope-ração dessas políticas, mas, também, na postura dos operadores e gestores pú-blicos, modifi cando o olhar fragmenta-do sobre questões que envolvem a pers-pectiva de gênero. Com a determinação da presidenta Dilma de priorizar as mu-lheres, isso forçosamente deve ocorrer, o que promoverá uma espécie de acele-ração da aplicação dessas políticas e das conquistas das mulheres.

Como a senhora vê a tentativa, por parte do Judiciário, de fl exibilizar a Lei Maria da Penha?

A presidenta Dilma afi rmou que a Lei Maria da Penha deve ser aplicada com rigor e é assim que o governo federal es-tá tratando a questão. A tentativa de re-visão de alguns dos artigos e o questio-namento da lei podem representar um retrocesso. Mas contamos com gran-de apoio dos Ministérios Públicos Fe-deral e Estaduais, que têm defendido a

aplicabilidade da lei. Por isso, fi rmamosuma parceria com o Ministério PúblicoFederal, o Ministério da Justiça e o Co-légio dos Procuradores Gerais da Jus-tiça, através de um Protocolo de Coo-peração, para aprimorar a proteção àsmulheres que são vítimas de violênciadoméstica e para efetivar a punição dosseus ofensores. Uma pesquisa recen-te da Fundação Perseu Abramo mostraque a cada dois minutos cinco mulhe-res são agredidas. A cada dia, dez mu-lheres são assassinadas. Somente nosúltimos 12 meses, 1,3 milhão de mulhe-res acima de 15 anos foi agredida. Mo-difi car essa lei ou negá-la é negar a con-dição de igualdade e a integridade dasmulheres.

Quais serão as políticas da SPM para as mulheres do campo?

Os direitos à aposentadoria, à no-ta de produtora e ao acesso diferencia-do a créditos são ainda grandes neces-sidades e motivos de uma campanhapermanente de orientação sobre es-ses direitos e como acessá-los. Da mes-ma forma, uma campanha de enfrenta-mento à violência contra as campone-sas vem sendo desenvolvida. Os crédi-tos diferenciados como o Pronaf [Pro-grama Nacional da Agricultura Fami-liar] são instrumentos importantes pa-ra a sua autonomia econômica, masprecisamos ampliar a escala de acesso,aumentar os valores e desenvolver ou-tros mecanismos de apoio à produçãocoletiva e cooperada das camponesas.Elas também precisam ser contempla-das com equidade na titulação das suasterras, na economia da produção fami-liar e decisão dessa produção. E isso im-plica em construir o protagonismo dasmulheres, o que só é possível com a par-ticipação delas.

Que trabalho a SPM pretende fazer com relação ao aborto?

Estamos tratando com serenidade es-sa questão. Por orientação da presiden-ta Dilma Rousseff, o aborto será tratadode acordo com a lei. E nenhuma mulherdeve correr o risco de morte por falta deatendimento. Para isso, a rede de aten-ção à saúde integral da mulher tem aatribuição de acolher e atender as mu-lheres que necessitam de atendimen-to nesses casos. Ampliar e defender osdireitos reprodutivos e sexuais das mu-lheres não é só atribuição do Estado.Toda a sociedade deve debater a ques-tão, ouvindo as diversidades e a plura-lidade de opiniões, opções e culturas deforma a contemplar todos os setores.

“Uma mulher na Presidência muda a forma de entender e de operar as políticas, pois ela terá um olhar mais atento para promover a igualdade como um valor necessário”

“A pobreza tem sexo e cor. Do contingente da população que vive nessas condições, as mulheres são a maioria, e, entre elas, as negras”

“Por orientação da presidenta Dilma Rousseff, o aborto será tratado de

acordo com a lei. E nenhuma mulher deve correr o risco de morte por

falta de atendimento”

“A SPM é um ministério-meio, articula e promove a transversalidade das políticas para as mulheres”

Iriny Lopes, ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres

Renato Araújo/ABr

Page 8: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

culturade 7 a 13 de abril de 20118

Aldo Gamada Redação

SEJA NAS xilogravuras dos cordéis, nas canções populares, no cinema ou na li-teratura, os cangaceiros habitam o ima-ginário dos brasileiros até os dias de hoje. Histórias de revolta contra os des-mandos das oligarquias e as péssimas condições de vida dos pobres do ser-tão nordestino costumam caminhar la-do a lado com relatos de crimes de ex-trema crueldade. Lampião, o cangacei-ro mais famoso, é, por vezes, descri-to como um tipo de Robin Hood ou co-mo aquele “que invade os lares, levando a toda parte sofrimento e morte”, como dizia um anúncio da época.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o historiador Luiz Bernardo Peri-cás, autor de Os Cangaceiros, apresen-ta uma série de argumentos que buscam desmistifi car o fenômeno que atingiu seu apogeu nas décadas de 1920 e 1930, durante o reinado lampiônico.

Brasil de Fato – O contexto de injustiça social, com o controle do aparato policial e judiciário pelas oligarquias, não justifi caria a leitura de que o cangaço foi uma espécie de guerrilha popular?Luiz Bernardo Pericás – A forma de luta dos cangaceiros era, certamen-te, baseada em técnicas de guerrilha. Na década de 1930, jornalistas e ofi ciais das volantes chegaram a chamar os can-gaceiros de “bandidos-guerrilheiros”, o que mostra que a associação é factível. Boa parte dos bandos era certamente de origem popular. Mas temos de nos per-guntar o que signifi caria dizer “guerri-lha popular”. Ou seja, os bandos tinham estrutura hierárquica, nos quais as lide-ranças, por vezes, eram de estratos mais altos da sociedade sertaneja e davam a tônica da atuação do grupo. Esses che-fes de grupos não tinham nenhum ob-jetivo de mudar a situação social da re-gião, nem de aliar-se às camadas mais pobres do sertão nordestino. Alguns lí-deres do cangaço eram coronéis, des-cendentes de membros da Guarda Na-cional e de latifundiários, e aliados de parte da elite local. Eles viam a mas-sa anônima do cangaço como seus em-pregados. E estes consideravam as lide-ranças como patrões. Houve muitas di-ferentes motivações para o ingresso no cangaço, mas é possível que nenhuma destas tivesse como objetivo lutar por mudanças revolucionárias.

Nunca houve qualquer intenção de mudança social por parte dos canga-ceiros. Só no cinema e literatura, ou se-ja, em obras de fi cção. Obras, em geral, produzidas a posteriori, e utilizando o cangaceiro como símbolo de luta polí-tica, como metáfora da insurreição do homem do povo contra o regime vigen-te. Na verdade, os cangaceiros pratica-vam crimes hediondos, repetidamen-te. Seus crimes, em geral, não eram cir-cunstanciais. Ou seja, o cangaço aca-bava tornando-se um meio de vida, no qual, por anos seguidos, indivíduos co-metiam crimes como torturas, seques-tros, roubos e assassinatos.

E cometiam essas atrocidades indis-tintamente, tanto contra alguns “coro-néis”, como também contra policiais e contra o próprio “povo” pobre local. Há muitos relatos de torturas e assassina-tos cometidos por Lampião, Zé Baiano e outros contra trabalhadores, “cassa-cos”, agricultores, gente comum do po-vo, sem nenhuma piedade ou remorso. Não havia identidade de classe entre os cangaceiros e a população mais pobre. Na prática, Lampião preferia se relacio-nar com coronéis e políticos do que com o povo sertanejo.

A violência das tropas ofi ciais e das volantes não justifi caria a simpatia da população pelos cangaceiros?

As tropas volantes eram, em grande medida, mal preparadas e mal treina-das. Recebiam pagamentos irrisórios.

Seus soldados, em boa parte, eram ho-mens da mesma região e da mesma ori-gem étnica e social dos cangaceiros. Ou seja, gente da mesma “massa e encarna-dura”, como disse, certa vez, um conhe-cido comentarista do tema. Se um jo-vem cometia algum crime contra outra família e entrava no cangaço, era mui-to provável que algum parente daque-le atacado ou assassinado ingressas-se nas volantes para perseguir e punir seu rival. E vice-versa. Há casos de can-gaceiros que abandonaram o cangaço e se tornaram policiais, assim como sol-dados das volantes que largaram a polí-cia e se fi zeram bandoleiros.

A situação, ali, era relativamente fl ui-da quando se tratava especifi camente da atuação de cangaceiros e volantes. As tropas volantes, de fato, podiam ser tão ou mais violentas que os cangacei-ros, agindo com extrema agressivida-de e arbitrariedade, e isso quiçá fi zesse com que parte da sociedade sertaneja se voltasse para os bandoleiros como sím-bolos da luta contra as autoridades. Por outro lado, os cangaceiros eram tão vio-lentos que a população, em geral, tinha pavor deles. Várias vezes ocorria que, ao ouvir o boato da aproximação de cangaceiros em algum lugarejo, os mo-radores locais saíam correndo em dis-parada, desesperados. A maior parte da população sertaneja, na verdade, não se tornou nem parte das volantes, nem in-tegrante de bandos de cangaceiros. Em realidade, o povo fi cava num fogo cru-zado entre esses dois grupos. A popu-lação era de trabalhadores e, em ge-ral, não tinha interesse em ingressar no banditismo ou na polícia, a não ser que tivesse de se proteger dentro de uma dessas organizações ou que as utilizasse como meio de vingança contra entreve-ros, normalmente, familiares.

O PCB tentou, de fato, recrutar os cangaceiros?

Na década de 1930, o PCB e o Comin-tern [Internacional Comunista] iriam discutir a possibilidade de cooptação e utilização dos cangaceiros na luta re-volucionária no Brasil. Um documento do escritório sul-americano do Comin-tern de 1931, por exemplo, já mencio-nava os cangaceiros nesse sentido, e ou-tro, do Comitê Executivo da Internacio-nal Comunista, indicava mais explicita-mente que “o PCB deve empenhar-se na tarefa de estabelecer contatos mais es-tritos com as massas de grupos de can-gaceiros, postar-se à frente de sua lu-ta, dando-lhe o caráter de luta de clas-ses, e em seguida, vinculá-los ao movi-mento geral revolucionário do proleta-riado e do campesinato no Brasil”. Na 3ª Conferência de Partidos Comunistas da América Latina e Caribe, em Moscou, em 1934, o chefe da delegação brasilei-ra, Antônio Maciel Bonfi m (o Miranda), faria um relatório completamente irre-al da situação no campo brasileiro, in-sistindo que “os partisans cangaceiros estão chamando à luta, estão unindo os camponeses pobres na sua luta por pão e pela vida... Na província da Bahia, so-mente, os partisans representam um destacamento de aproximadamente 1,5 mil homens, armados com metralha-doras, equipados com caminhões”. Tu-do isso, como se sabe, não correspondia à realidade. Alguns acreditavam que os cangaceiros poderiam, inclusive, adotar

o programa da ANL (Aliança Nacional Libertadora), e há até mesmo documen-tos da ANL sugerindo a cooptação de cangaceiros. Mas isso não ocorreu. Ao que consta, apenas um cangaceiro te-ria se fi liado ao PCB, ou seja, não houve sucesso do partido em arregimentar os bandoleiros para a luta revolucionária.

Por que Lampião tornou-se o símbolo do cangaço?

Se não fosse por Lampião, provavel-mente não estaríamos falando, hoje em dia, do cangaço da mesma forma. Ele foi o mais importante de todos os ban-doleiros, sem dúvida nenhuma. É só re-cordarmos dos outros líderes do canga-ço. Quem se lembra, na atualidade, de Jesuíno Brilhante? Ou de Sinhô Perei-ra, o primeiro chefe de Lampião? Em geral, apenas os estudiosos do tema. Sinhô Pereira, por exemplo, teve uma atuação mais limitada, uma carreira episódica de crimes. Abandonou defi ni-tivamente o cangaço em 1922, foi para Goiás e depois, para Minas Gerais, onde mudou de vida. Antônio Silvino, o pri-meiro “rei dos cangaceiros”, foi ferido no tórax em 1914, se entregou à polícia e foi preso. Já Lampião nunca abando-nou o cangaço, nem se rendeu. Nunca foi preso. Acabou a vida como líder can-gaceiro. Seu bando, no auge, em mea-dos da década de 1920, chegou a con-tar com 120 homens. Chegou a ter vá-rios subgrupos, que se uniam ao bando principal quando requisitados, uma es-pécie de confederação de cangaceiros, da qual ele era o chefe inconteste. Lam-pião atuou por mais de duas décadas, num território enorme, em sete estados nordestinos. Em seu bando, a partir da década de 1930, também havia mulhe-res, crianças e animais de estimação, o que deu outra aura para o cangaço.

Toda a estética associada ao canga-ço nas artes plásticas e no cinema vem principalmente do período lampiôni-co, especialmente nos anos de 1930, com uniformes e chapéus extremamen-te adornados (verdadeiros trabalhos ar-tísticos). É bom lembrar que nos anos de 1920 e 1930 a mídia estava mais de-senvolvida, o rádio, as revistas, os jor-nais e o cinema divulgavam fotos e his-tórias de Lampião e seus asseclas. Ben-jamin Abrahão chegou a fi lmar Lampião e seu grupo. Ou seja, há até mesmo ima-gens em movimento do “rei dos canga-ceiros”. Os bandos lampiônicos tinham uma vida social que incluía música, dan-ças, esportes e festas com muita bebida, o que também ampliou a imagem da-queles bandoleiros.

A ferocidade e agressividade dos ban-didos dos grupo de Lampião eram no-tórias, e as práticas de torturas, san-gramentos e assassinatos com requin-te de crueldade eram muito mais sig-nifi cativos do que nos períodos ante-riores, certamente. Não houve um can-gaceiro tão inteligente e hábil politica-mente como Lampião, alguém que con-seguisse construir uma rede de apoio de coiteiros tão efi ciente, que teve relações com tantos coronéis importantes e que atuou num território tão dilatado, por tanto tempo. Por estes e outros moti-vos, Lampião foi, incontestavelmente, o rei dos cangaceiros.

É correto afi rmar que a morte de Corisco determina o fi m do cangaço?

Desde 1935 (ano do Levante Comu-nista) até 1938 (massacre do Angi-co), vários cangaceiros conhecidos fo-ram assassinados. Em 1938, Lampião,Maria Bonita e mais nove cangaceirossão assassinados e decapitados após oMassacre da Grota do Angico. Ou seja,a partir de 1935 a intensidade do com-bate ao banditismo sertanejo aumenta,e após 1937, pode-se dizer que seria de-cretado o fi m do cangaço. Na prática, oassassinato de Lampião em 1938 repre-sentou, de fato, a eliminação do canga-ço como fenômeno social, como um ele-mento de forte presença cultural e cri-minológica no ambiente sertanejo. Apartir daí, muitos bandos se rendem,se entregam às forças policiais. Foi as-sim com os bandos de Pancada e de Vi-la Nova, em Alagoas. O próprio Coriscoiria se decidir por abandonar o cangaço.Mas, em sua fuga, perderia a vida pe-las mãos do tenente Zé Rufi no. Coriscoera um dos mais importantes chefes desubgrupos, se autodenominava “Che-fe dos Grandes Cangaceiros”. Por is-so, simbolicamente, muitos consideramseu assassinato, em 25 de maio de 1940,o fi m do cangaço, já que ele foi o últimolíder importante a perder a vida.

O avanço tecnológico foi determinante para o fi m dos cangaceiros?

São muitos os motivos para o fi m docangaço. Entre as diferentes variáveis,o fator tecnológico certamente conta,ainda que seu peso seja relativo. O can-gaço iria terminar mesmo sem a supe-rioridade dos equipamentos da polí-cia. Mas, de fato, o armamento utili-zado pelas forças policiais nos anos de1930, e principalmente após o EstadoNovo, fez alguma diferença. Vale lem-brar também que as tropas começarama utilizar o rádio para se comunicar. Eque muitos soldados das volantes tran-sitavam no sertão em caminhões, o quelhes dava maior velocidade e mobilida-de na região.

É possível traçar algum paralelo entre a atuação dos cangaceiros com os jagunços e pistoleiros que atuam nos dias de hoje?

Os jagunços e pistoleiros são contrata-dos de políticos e potentados rurais, sãoassassinos a soldo, por vezes, solitários, que matam, em geral, de tocaia. São, normalmente, desprezados pela popu-lação, vistos como “paus mandados”,como covardes. Já os cangaceiros anda-vam em bandos, eram nômades e, mes-mo que pudessem receber apoio e prote-ção de coiteros poderosos, não eram as-salariados de ninguém. Podiam até fa-zer serviços para coronéis, mas eram, em geral, autônomos, não tinham pa-trão. Eles também não matavam pelas costas, de tocaia, escondidos. Enfren-tavam os inimigos frente a frente, com-batiam forças policiais, mostravam bra-vura. Assim, enquanto os pistoleiros até hoje são vistos como indivíduos despre-zíveis no meio sertanejo, os cangaceiros gozam de maior prestígio. Como diria Câmara Cascudo, “o sertanejo não ad-mira o criminoso, mas o homem valen-te”. Na visão de muitos, os crimes da-queles bandoleiros seriam algo secun-dário se comparados à valentia, bravu-ra e coragem dos cangaceiros diante das adversidades, das agruras do sertão, das perseguições e dos combates. Por isso,há uma distância muito grande entre es-ses tipos de indivíduos. Além disso, ocangaço apresentava uma organizaçãosocial muito peculiar.

O cangaço desmistifi cadoHISTÓRIA Livro analisa a história do fenômeno do banditismo que assolou o Nordeste brasileiro

“Esses chefes de grupos não tinham nenhum objetivo de mudar a situação social da região, nem de aliar-se às camadas mais pobres do sertão nordestino”

“Na prática, Lampião preferia se relacionar com coronéis e políticos do que com o povo sertanejo”

“A maior parte da população sertaneja, na verdade, não se tornou nem parte das volantes, nem integrante de bandos de cangaceiros. Em realidade, o povo fi cava num fogo cruzado”

“Ao que consta, apenas um cangaceiro teria se fi liado ao PCB, ou seja, não houve sucesso do partido em arregimentar os bandoleiros para a luta revolucionária”

“Toda a estética associada ao cangaçonas artes plásticas e no cinema

vem principalmente do períodolampiônico, com uniformes e chapéus

extremamente adornados”

ServiçoTítulo: Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação históricaAutor: Luiz Bernardo PericásEditora: BoitempoNúmero de páginas: 322

Foto do bando do cangaceiro Cristino Gomes da Silva Cleto, o Corisco, que também era conhecido como Diabo Louro

Benjamin Abrahão Botto

Page 9: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

de 7 a 13 de abril de 2011 9américa latina

Pilar Rodríguezcorrespondente em

Tegucigalpa (Honduras)

ERA NOITE DE domingo, 27 de março. O atual presidente de Honduras, Por-fírio Lobo Sosa, interrompeu a progra-mação de horário nobre de todas as ca-deias de rádio e televisão para declarar ilegal a greve do setor magisterial. Di-zia que, a partir de então, aqueles do-centes que não fossem dar aulas seriam suspensos por um período de dois me-ses a um ano, sem salário. Apesar da ameaça, no dia seguinte, centenas de professores, estudantes e demais seto-res que integram a resistência hondu-renha foram novamente às ruas, dando início a uma semana intensa de protes-tos que culminou num dia de Paralisa-ção Cívica Nacional em 30 de março.

“O processo de privatização da edu-cação tem avançado em toda a América Latina. Aqui em Honduras não vamos permitir, mesmo que nos ameacem e nos reprimam. Estamos sendo despe-didos, mas não podem nos tirar o amor pelo povo e pela carreira de educado-res”, afi rmou Edgardo Casaña, dirigen-te magisterial, durante uma manifesta-ção em Tegucigalpa.

A aparente estabilidade do governo, que chegou ao poder através de eleições fraudulentas após um golpe de Estado em 2009, foi estremecida pela mobili-zação dos professores. Eles estiveram em greve durante mais de um mês con-tra as políticas neoliberais na educação e sofreram repressão jurídica, fi nancei-ra e, principalmente, física. O saldo da política das forças de segurança do Es-tado conta com duas mortes, centenas de feridos - principalmente pelas bom-bas de gás que são lançadas diretamen-te ao corpo das pessoas - e com cente-nas de manifestantes que passaram pe-lo menos uma noite na prisão.

No dia 4 de abril, uma assembleia ex-traordinária do setor magisterial decidiu por um “recuo tático” da greve. Casaña deixou claro que não se trata de abando-nar a luta. “Temos que nos fortalecer pa-ra voltar às ruas e continuar lutando pela educação pública e pelos direitos dos do-centes”, declarou o dirigente.

Privatização da educação Ignorando os protestos e as mortes,

o governo aprovou, em 1º de abril, a lei de fortalecimento da educação públi-ca e da participação comunitária, que prevê a descentralização da responsa-bilidade sobre a educação por meio da criação de conselhos municipais, nos quais participariam os pais das crian-ças e jovens em idade escolar. Durante as manifestações, os professores alerta-ram para o risco de privatização a par-tir desta lei. “Os municípios não têm di-nheiro nem para pagar os salários dos professores, quanto mais para fi car responsáveis pela educação. Vai ser um fracasso e uma desculpa para privati-zar as escolas”, explicou a docente Di-rian Pereira.

O professor de economia Marceli-no Borjas, um dos fundadores do Co-légio Profi ssional Superação Magiste-ral Hondurenho (Colprosumah, na si-gla em espanhol), explica que a mobili-zação dos professores de Honduras es-tá ligada à crise do sistema educacio-nal na América Latina. “Essa crise se agudiza mais com o golpe civil-militar, que aprofunda o modelo neoliberal em Honduras, diminuindo a participação do Estado na gestão de recursos fi nan-ceiros sociais e estabelecendo a desarti-culação de sujeitos coletivos”, afi rmou. Segundo Borjas, o magistério é o setor

Ingovernabilidade e repressãoHONDURAS Em crise, governo responde com violência aos protestos da população em resistência

com maior desenvolvimento organiza-cional do país. São cerca de 65 mil do-centes organizados em seis sindicatos ou colégios magisteriais. “São 48 anos de história vinculada à luta política e anti-imperialista”, ressaltou. Este mes-mo setor esteve mobilizado em agosto do ano passado e, apesar da repressão, conseguiu estabelecer acordos com o governo como, por exemplo, o paga-mento dos salários atrasados e a reali-zação de uma auditoria para investigar a corrupção que atinge o Inprema (Ins-tituto de Previdência Magisterial). Ne-nhum acordo foi cumprido.

DesgovernoOs docentes também denunciam que o

atual governo roubou 7 milhões de lem-piras (equivalente a 370 mil dólares), de um patrimônio de 20 milhões, do Inpre-ma. “Aí entra um elemento importante que é a crise fi nanceira. O regime golpis-ta, como não é reconhecido internacio-nalmente, pela OEA, por exemplo, não tem acesso a recurso fi nanceiro. Se tem, é em pequena quantidade, que não resol-ve o problema. Por isso, pegou dinheiro do Inprema. Exigimos o pagamento des-sa dívida”, afi rmou Borjas. Segundo in-formações da imprensa local, 6 mil pro-

fessores estão com salários atrasados e 9 mil não podem se aposentar por falta de recursos do Inprema.

Para Bertha Oliva, defensora de direi-tos humanos e coordenadora do Cofadeh (Comitê de Familiares de Presos e Desa-parecidos de Honduras), a alta do preço do combustível e o consequente aumento do preço dos alimentos no mundo contri-buem para a ingovernabilidade do man-dato de Porfírio Lobo Sosa. “É evidente que o regime está em crise. A ingoverna-bilidade aumenta cada vez mais. Não nos estão asfi xiando só com gases, mas tam-bém com a falta de comida”, afi rmou.

de Tegucigalpa (Honduras)

Foi também para lutar contra o al-to custo de vida em Honduras que a Frente Nacional de Resistência Popu-lar (FNRP) - que agrega várias orga-nizações de esquerda do país - convo-cou um dia de Greve Cívica Nacional, sob o lema “Desculpe o incômodo, esta-mos lutando para construir a Nova Pá-tria”. Ocupação de estradas, ruas e uni-versidades aconteceram em diversas re-giões do país. Em todos os pontos hou-ve repressão e, em Tegucigalpa, a sede de um dos principais sindicatos organi-zados do país, o Sindicato de Trabalha-dores da Indústria da Bebida e Simila-res (Stibys), foi bombardeada com gás lacrimogêneo.

São tantas as bombas de gás lacrimo-gêneo lançadas sobre os manifestan-tes que se criou um pequeno comércio de artefatos que minimizam os efeitos dos gases. Um pano molhado com vina-gre custa 50 lempiras (equivalente a R$ 4,50) e um par de óculos de natação cus-tam 40 (R$3,50). Além disso, a impren-sa anda equipada com máscara anti-gás e capacete, já que os jornalistas também são agredidos durante as manifestações. Um cinegrafi sta do canal local Cholusat teve o nariz quebrado após ser atingido por uma bomba. Muriel Rodríguez, do canal Globo, levou tiros de bala de bor-racha no pé. “Por sorte não me machu-quei muito, mas isso é uma falta de res-peito, um atentado à livre expressão” desabafou o jornalista.

Mesma sorte não teve a estudante Li-sa Aguilar, que foi atacada com bombas dentro do edifício do Colégio de Profes-

sores de Educação Média de Honduras. A estudante explica que a polícia perse-guiu os manifestantes após os protestos, gaseifi cando o prédio onde eles se refu-giaram. “Começaram a bombardear o edifício. Havia cerca de 200 pessoas e criou-se automaticamente uma câmara de gás lá dentro. Não tínhamos oxigênio sufi ciente para respirar. Quando deixa-ram de atirar as bombas, saímos ao pá-tio para respirar melhor. Nem sequer ti-nham saído umas 30 pessoas, começa-ram a bombardear de novo. Dessa vez, as bombas eram atiradas diretamente no corpo das pessoas. No meu caso, me acertaram duas bombas, uma na perna outra no braço. Ao inalar o conteúdo ti-ve uma crise de asma e desmaiei. Quan-do acordei estava no hospital”, relatou Aguilar, que exibia duas marcas roxas onde foi atingida pelas bombas.

Carlos Leyes, da ONG de direitos hu-manos Comissão de Verdade, denun-cia que a polícia está usando as bombas em quantidades absurdas. “Só em uma

ocasião, na mobilização de estudantesna Universidade Autônoma de Hondu-ras, a força repressiva usou mais de 200bombas de gás lacrimogêneo. Os danos de imediato e a longo prazo podem serterríveis para as pessoas que recebe-ram os gases, inclusive para a polícia eo exército”, alertou.

Repressão “baixo perfi l”No período que antecedeu os confl itos

a partir da greve dos professores o cli-ma era de aparente calmaria. Berta Oli-va explica que a repressão teve váriasetapas desde o golpe e que, preocupado com a legitimidade internacional, PepeLobo procurou intimidar a resistência“por baixo dos panos”.

No início do golpe, relata Oliva, “todo mundo viu que a repressão era massiva. Porque o plano era que o povo se can-sasse, como havia acontecido nos gol-pes anteriores, em décadas passadas”.Depois, completou, “começaram com asações sistemáticas e seletivas, que eram silenciadas”. Nesse período, que com-preende o primeiro ano do governo dePorfírio Lobo, de janeiro a dezembro de2010, a Cofadeh contabilizou 463 mor-tos. Entre eles estão 10 jornalistas, 32 dacomunidade LGTB, cerca de 30 campo-neses e 30 professores.

Outra tática utilizada pelo regime é aaplicação de ações ditas legais contra or-ganizações. Berta Oliva dá o exemplo dopróprio Cofadeh, que sofreu uma ordemde sequestro de documentos. Segundoa militante dos direitos humanos, tam-bém nesse período foram inúmeros os registros de denúncias de ameaças de morte por telefone a membros da resis-tência hondurenha. (PR)

Greve nacional é reprimida a base de gásLacrimogênio é tão usado que criou comércio de itens para minimizar os seus efeitos

“O processo de privatização da educação tem avançado em toda a América Latina. Aqui em Honduras não vamos permitir, mesmo que nos ameacem e nos reprimam”

Segundo informações da imprensa local, 6 mil professores estão com salários atrasados e 9 mil não podem se aposentar por falta de recursos

“No meu caso, me acertaram duas bombas, uma na perna outra no braço. Ao inalar o conteúdo tive uma crise de asma e desmaiei. Quando acordei estava no hospital”

Professores, estudantes e membros da resistência hondurenha participam de mobilização em defesa do ensino público

Cinegrafi sta equipado com máscara contra gases anda em meio à nuvem de gás lacrimogênio

Fotos: Angel Rama

Cinegrafi sta equipado com máscara contra gases anda em meio à nuvem de gás lacrimogênio

Angel Rama

Angel Rama

Page 10: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011
Page 11: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011
Page 12: Edição 423 - de 7 a 13 de abril de 2011

áfricade 7 a 13 de abril de 201112

Pere Rusiñolde Madri (Espanha)

PASSOU DE PÁRIA a amigo do Ociden-te e acumulava mostras públicas de ami-zade dos mais variados mandatários, de Silvio Berlusconi a Tony Blair, passan-do por José María Aznar, José Luis Ro-dríguez Zapatero e o rei espanhol Juan Carlos.

Mas, mesmo durante essa lua de mel, Muamar Kadafi punha os diplomatas dos Estados Unidos em Trípoli de cabelos em pé, segundo revelam dezenas de telegra-mas secretos da embaixada estaduni-dense vazados pelo Wikileaks. Os docu-mentos mostram uma autêntica obses-são pelos poços de petróleo e pelas difi -culdades que as empresas ocidentais en-contravam para operar no país.

“Na Líbia, o negócio é a política, e Ka-dafi controla ambos”, dizia um informe confi dencial de fevereiro de 2009. Os telegramas dos diplomatas dos EUA la-mentam reiteradamente as interferên-cias da família Kadafi , que controlava os setores econômicos mais lucrativos.

Mas o assunto “estrela” dos documen-tos vazados, que gerou rios de tinta mui-to superiores à preocupação pelos direi-tos humanos, era o endurecimento das condições exigidas da dúzia de compa-nhias petrolíferas ocidentais que opera no país, o que provocava um grande mal-estar na embaixada estadunidense.

A Líbia é o primeiro país africano em reservas de petróleo, com 46 bilhões de barris estimados, o dobro dos EUA. Em 2010, alcançou os 1,8 milhões por dia – 80% deles procedentes da zona de Sir-te –, cuja venda signifi cou 95% da recei-ta do Estado. Os principais clientes são Itália (28%), França (15%), China (11%), Alemanha (10%) e Espanha (10%).

Fácil de extrairO petróleo líbio não apenas é abundan-

te, como também é de grande qualidade e fácil de extrair, o que o faz especialmen-te rentável: em algumas regiões, o custo de extração mal chega a um dólar o bar-ril. Quando, entre 2003 e 2004, as Na-ções Unidas e os EUA levantaram as san-ções contra o país, após a renúncia do re-gime à produção de armas de destruição em massa, as grandes petroleiras ociden-tais voltaram massivamente.

As companhias internacionais que do-minam o mercado líbio são Eni, Repsol, YPF e o consórcio estadunidense Oasis, que integra, na Líbia, a CoconoPhillips, Marathon Oil e Ameranda Hess. Mas es-tão também solidamente instaladas a Pe-troCanadá, a TNK e Gazprom (Rússia), Total (França), Saga Petroleum (Norue-ga), Wintershall e RWE (Alemanha), OMV (Áustria), BP (Reino Unido), Oc-cidental, Halliburton, Exxon (EUA) – a Chevron saiu em 2010 porque suas ex-plorações não davam resultados –, Woo-dside (Austrália) e Japan Exploration Company, entre outros.

Indignação A embaixada dos EUA seguiu com lupa

as condições do setor e refl etiu sua cres-cente indignação nos telegramas que en-viava a Washington. A partir de 2006, o regime líbio iniciou uma rodada de con-tatos com as transnacionais para esten-der as licenças e endurecer suas condi-ções: exigia ampliar a cota de benefícios que corresponde ao Estado e o pagamen-to de um bônus milionário adicional, en-tre outras novidades, embora os contra-

O grande negócio da Líbia

tos haviam sido assinando havia menos de três anos e faltasse muito para que ex-pirassem. Isso provocou grande mal-es-tar à embaixada. E, quando a maioria das petroleiras aceitava as condições e assi-nava os novos contratos, os funcionários estadunidenses não ocultavam sua indig-nação.

O alerta se acendeu para os EUA no fi m de 2007, quando a Eni assinou o no-vo contrato: “Embora a Eni o venda co-mo um êxito, o acordo traz aspectos ne-gativos e pode facilitar o caminho para que se imponham exigências similares a outras concessionárias de petróleo e gás estrangeiras”, lamenta um telegrama de 26 de outubro. “O resultado é que a Lí-bia fi ca com uma parte maior do petró-leo produzido e, nas contas da Eni, cons-tarão menos reservas.”

Em telegramas posteriores, os diplo-matas dos EUA aprofundam sua preo-cupação: “Executivos de empresas oci-dentais mostraram reservas muito sé-rias. Um deles diz que o acordo assusta e há uma preocupação generalizada de que agora buscarão acordos similares com o resto”. E mais: “A crescente avareza da NOC [empresa pública petroleira da Lí-bia] pode fazer diminuir o interesse dos principais operadores na Líbia.”

As petroleiras foram assinando as no-vas condições, mas isso não aplacou o mal-estar da embaixada dos EUA que, em novembro de 2007, redige outro in-forme: “A Líbia é um lugar excepcional-mente difícil para as petroleiras interna-cionais, que têm que afrontar numerosos e bizantinos problemas e cujas margens de lucros são comparativamente meno-res. A situação fi cará pior nos próximos anos, pois o governo busca concessões adicionais para maximizar seus lucros”.

Quando, em junho de 2008, a Petro-Canadá assinou um novo contrato, que, segundo a embaixada dos EUA, supu-nha um respaldo aos “esforços líbios pa-ra impor termos mais duros às petrolei-ras estrangeiras”, os diplomatas dos EUA já mostraram resignação: “Diante dos al-tos preços do petróleo e as limitadas pos-sibilidades para novas explorações e pro-dução, as petroleiras engoliram [as novas condições] e assinaram”.

Fundo “voluntário”A única alegria é dada pela Chevron,

que, em julho do mesmo ano, explica que sua intenção de deixar o país se dá por-que não encontra jazidas na zona desti-nada a ela. O funcionário da embaixada registra tal fato assim: “São pessimistas diante das perspectivas negativas de en-contrar algo. Além disso, são contrários a essa mentalidade de leilão [do governo líbio] e reticentes em cumprir os termos draconianos exigidos pela NOC”.

Em janeiro de 2009, a embaixada es-tadunidense aponta o dedo diretamen-te para o chefe da NOC, Shukri Ghanem, e organiza várias reuniões com executi-vos do setor que o criticam. Segundo os informes da embaixada, entre os execu-tivos ocidentais havia um “mal-estar ex-tenso” contra ele por sua “falta de experi-ência técnica” e por sua “reticência em se reunir com os executivos das petroleiras estrangeiras”.

“Seu enfoque e estilo alienaram as pe-troleiras estrangeiras e prejudica a coo-peração potencial. Outros executivos nos contam que, em determinados aspec-tos, é um regresso ao estilo da década de 1970, quando se via as companhias es-trangeiras sob um ponto de vista nacio-nalista, que as considerava entidades de-predadoras”, acrescenta o informe, con-cluindo: “95% da economia depende do petróleo. O fato de que a NOC esteja em mãos de um indivíduo autocrata mal vis-to por seus subordinados e pelos profi s-sionais internacionais do petróleo não augura nada de bom para o objetivo líbio de incrementar a produção de 1,7 a 3 mi-lhões de barris por dia”.

Pouco depois, o governo líbio convo-cou as petroleiras para pedir-lhes que contribuíssem para um fundo “voluntá-rio” que lhe permitiria compensar as in-denizações pagas por ações terroristas do passado. “Há mal-estar. O governo lhes disse que receberão melhor trato se fi ze-rem contribuições ‘voluntárias’. Depois da reunião, os managers se mostraram fi rmes em não pagar, mas há o rumor de que a Gazprom e pequenas fi rmas já con-tribuíram”.

WIKILEAKS Telegramas enviados pela embaixada dos Estados Unidos em Trípoli entre 2006 e 2010 mostram obsessão pelos poços de petróleo

de Madri (Espanha)

Segundo os telegramas vazados pelo Wi-kileaks, Muamar Kadafi buscou acordos si-multâneos com França, EUA e Rússia pa-ra iniciar um programa nuclear civil. To-dos mostraram predisposição, mas nenhum passou das boas palavras. O primeiro passo foi dado durante a visita de Nicolas Sarkozy a Trípoli em julho de 2007, quando ambos países subscreveram um memorando para cooperar nas “aplicações pacífi cas da ener-gia nuclear”.

A embaixada dos EUA considerou o pac-to como “vago programa de cooperação que não compromete nada”. Em abril de 2008, durante uma visita do russo Vladimir Putin e “diante da insistência líbia” – destaca um telegrama vazado – Trípoli assinou outro memorando de cooperação nuclear igual-mente vago. E, em maio de 2008, a embai-xada dá conta de que uma alta autoridade sondou os EUA com o mesmo fi m e tampou-co houve avanços. (PR, do Público)

Onda de privatizaçõesEsse mal-estar se estendeu a todos os

nichos de negócio que foram aparecendo como consequência da onda privatizado-ra empreendida pelo regime. Os telegra-mas da embaixada tentaram sistematica-mente esfriar o interesse das empresas dos EUA que queriam investir na Líbia.

Quando a gigante Bechtel desistiu de construir um porto comercial em Sirte que tinha apalavrado, a embaixada aler-tou: “O fracasso da Bechtel mostra co-mo se tomam as decisões diante dos in-vestimentos estrangeiros importantes. Depois de um ano de esforço e apesar do desembolso de um milhão de dóla-res, numerosas visitas de alto nível e su-postos compromissos formais do gover-no, foi impossível. O fato de que um ope-rador com os conhecimentos e a potên-cia econômica da Bechtel não tenha con-seguido deveria servir como lição para a grande quantidade de empresas ociden-tais que quer entrar no fl orescente mer-cado líbio.”

A embaixada também esfriou o entu-siasmo levantado pelo ambicioso plano de privatizações posto em marcha por Kadafi . Em um telegrama de novembro de 2009, advertiu que o governo líbio exigia que os novos proprietários priva-dos mantivessem os postos de trabalho: “Isso frequentemente torna pouco atra-tivo para um investidor estrangeiro, na medida em que a produtividade das em-presas públicas líbias é infame e tem ex-cesso de pessoal, como consequência das generosas leis trabalhistas líbias”.

Pelos telegramas, desfi lam todo tipo de negócios, alguns patrocinados ou aben-çoados por governos: gestões da Itália para que a empresa Sipsa ganhe um con-trato para destruir químicos; a tentati-va fracassada da empresa britânica York Guns de enviar 130 mil rifl es automáti-cos, que os diplomatas suspeitavam que acabariam no Chade ou no Sudão, ope-ração vetada pelo governo britânico; a mediação de um diplomata espanhol em nome da Espidesa (Técnicas Reunidas), que buscava o aval dos EUA para cons-truir uma fábrica de ácido nítrico; ou as sugestões de Tony Blair para que a Líbia investisse na Serra Leoa e em Ruanda, países que o ex-primeiro-ministro britâ-nico dizia serem prioritários para sua or-ganização de caridade.

Os diplomatas dos EUA descrevem também a tensão entre as autoridades lí-bias e francesas: destacam a feroz opo-sição de Kadafi ao projeto chamado de União pelo Mediterrâneo e os comentá-rios “sarcásticos” do mandatário líbio so-bre Sarkozy.

E, em sentido inverso, preveem uma aproximação com a Espanha depois da visita do rei Juan Carlos a Trípoli, em 2009: “Entendendo que na Líbia o negó-cio é a política e que Kadafi controla am-bos, a Espanha provavelmente se bene-fi ciará da cálida relação entre Kadafi e o rei”. (Público)

Tradução: Igor Ojeda

Pacto nuclear com França, Rússia e EUA

95%da receita do Estado líbio é

garantida pela venda de petróleo

Os telegramas dos diplomatas dos EUA lamentam reiteradamente as interferências da família Kadafi , que controlava os setores econômicos mais lucrativos

A embaixada dos EUA seguiu com lupa as condições do setor petrolífero e refl etiu sua crescente indignação nos telegramas que enviava a Washington

“Diante dos altos preços do petróleo e as limitadas possibilidades para novas explorações e produção, as petroleiras engoliram [as novas condições] e assinaram”

“Outros executivos nos contam que, em determinados aspectos, é um regresso ao estilo da década de 1970, quando se via as companhias estrangeiras sob um ponto de vista nacionalista, que as considerava entidades depredadoras”

Nuvem de fumaça sobe de linha condutora de petróleo perto de Ben Jawad

Reprodução