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Derrida - Salvo o Nome

Jul 04, 2015

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Jcques Derrida

40

P A P I R U S

SALVO O NOME

JACQUES DERRIDA traduo Ncia Adan Bonatti reviso tcnica Enid Abreu Dobrnszky

SALVO O NOME

PAPIRUS

EDITORA

Ttulo original em francs: Saufle nom ditions Galile, 1993 Traduo: Nicia Adan Bonatti Reviso tcnica: Enid Abreu Dobrnszky Capa: Fernando Cornacchia Antnio Csar de Lima Abboud Foto: Renato Testa Reviso: Lcia H. Morelli

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Derrida, Jacques, 1930Salvo o nome / Jacques Derrida; traduo Nicia Adan Bonatti -- Campinas, SP : Papirus, 1995.

ISBN 85-308-0323-X 1. Ambigidade 2. Linguagem - Filosofia 3. Nomes mntica (Filosofia) I. Ttulo. 95-0292 4. Se-

CDD-401 ndices para catlogo sistemtico: 1. Nome ; Filosofia da linguagem 401

DIREITOS RESERVADOS PARA A LNGUA PORTUGUESA: M. R. Cornacchia & Cia. Ltda Papirus Editora Matriz Fone: (0192) 31-3534 e 31-3500 - C. P. 736 - CEP 13001-970 Campinas Filial - Fone: (011) 570-2877 - So Paulo - Brasil.

Proibida a reproduo total ou parcial. Editora afiliada ABDR.

ADVERTNCIAS

1. A primeira verso deste texto foi publicada em ingls (traduzida por John P. Leavey Jr) com o ttulo de Post-Scriptum (subttulo: Aportas, vias e vozes) em um volume dedicado teologia negativa (Derrida and negative theology, Harold Coward, Toby Foshay (orgs.), State University of New York Press, 1992). Eu tinha ento sido convidado a responder, em concluso, s conferncias pronunciadas por ocasio de um encontro organizado sob este ttulo no Calgary Institute for the Humanities (Canad), sob a direo de Harold Coward. Eu no pude ir a esse colquio. Este dilogo fictcio foi, portanto, escrito depois da leitura dessas conferncias, que, por sua vez, foram reunidas no volume citado acima. Quero agradecer ainda aos autores Toby Foshay, Michel Despland, Mark C. Taylor, Harold Coward, David Loy e Morny Joy. Para reconstituir um contexto, os editores do mesmo volume republicaram em tra-

duo inglesa dois ensaios que eu j havia publicado antes, Dun ton apocaliptique adopt nagure en philosophie (Paris, Galile, 1983) e "Comment ne pas parler. Dngations", em Psych, Inventions de lautre (Paris, Galile, 1987). 2. Certo ou errado, parece-me hoje justificvel publicar simultaneamente, nas ditions Galile, dois outros ensaios, Khra e Passions. Apesar de tudo que os separa, eles parecem se responder e talvez se esclarecer no interior de uma nica e mesma configurao. Sob a sintaxe mvel desses ttulos, poderamos ler trs ensaios sobre um nome dado ou sobre o que pode acontecer ao nome dado (anonimato, metonmia, paleonmia, criptonmia, pseudonmia), portanto, ao nome recebido, ou mesmo ao nome devido, sobre o que talvez se deva (dar ou sacrificar) ao nome, ao nome do nome, seja ao cognome, e ao nome do dever (dar ou receber).

SALVO O NOME {POST-SCRIPTUM)

[...]

Mais que um, desculpe, preciso sempre ser mais que um para falar, preciso que haja vrias vozes,.. Sim, estou de acordo e, por excelncia, digamos exemplarmente, quando se trata de Deus... Mais ainda, se possvel, quando se pretende falar segundo o que chamam de apfase ou, em outras palavras, segundo a voz imparcial, a via da teologia dita ou autodenominada negativa.A teologia negativa um modo de abordagem de Deus que consiste em aplicar-lhe proposies negativas. Em lugar de atribuir-lhe qualidades positivas ou proceder por analogia, o mtodo negativo ou apofatismo consiste em dizer aquilo que Deus no , em recusar-lhe qualquer predicado. Este mtodo foi amplamente usado por So Toms de Aquino, por exemplo. Apesar de se querer racional, o mtodo apoftico est ligado ao misticismo, isto , intuio que manifesta uma

Essa voz se reduz a si mesma: ela diz uma coisa e seu contrrio, Deus que sem ser ou Deus que (est) alm do ser. A apfase uma declarao, uma explicao, uma resposta que, tomando a respeito de Deus uma forma negativa ou interrogativa, pois tambm o que quer dizer apophasis, assemelha-se a uma declarao de atesmo, a ponto de ser confundida com ela. Tanto mais que a modalidade da apophasis, apesar de seu valor negativo ou interrogativo, lembra freqentemente aquela da sentena, do veredito ou da deciso, do statement. Eu gostaria de lhe falar, mas no hesite em interromper-me, dessa multiplicidade das vozes, desse fim completamente inicial, mas tambm interminvel, do monologismo e do que se segue... Como uma certa mstica, o discurso apoftico sempre foi suspeito de atesmo. Nada parece ao mesmo tempo mais merecido e mais insignificante, mais deslocado, mais cego do que um tal processo. O prprio Leibniz era propenso a isso. Heidegger lembra o que ele dizia de Angelus Silesius: "Encontram-se nesses msticos algumas passagens que so extremamente audaciosas, cheias de metforas difceis e inclinando quase ao atesmo, da mesma forma que observei nas poesias alems, alis belas, de um certo Angelus Silesius...

realidade transcendente que excede as possibilidades da linguagem. (N.T.)

Inclinando, mas no indo alm da predisposio ou da propenso, nem mesmo ou quase {beinahezur Gottlosigkeithinneigend), e o pendor oblquo desse clinamen no parece separvel de uma certa audcia da lngua, de uma lngua potica ou metafrica... E, alis, bela, no se esquea; Leibniz o nota como se se tratasse de um acrscimo ou de um acessrio (im brgen schnen Gedichter), mas eu me pergunto se no se trata a, beleza ou sublimidade, de um trao essencial da teologia negativa. Quanto ao exemplo de Angelus Silesius... Deixemos por enquanto de lado essa questo: a herana de Angelus Silesius (Johannes Scheffler) pertence ou no tradio da teologia negativa no sentido estrito? Podemos falar aqui de um "sentido estrito"? Voc no poderia negar, penso eu, que Angelus Silesius guarda um evidente parentesco com a teologia negativa. Seu exemplo somente significa para ns, neste momento, essa afinidade entre o atesmo suspeitado por Leibniz e uma certa audcia apoftica. Esta ltima consiste sempre em ir mais longe do que convm permitir. Eis um dos traos essenciais de qualquer teologia negativa: a passagem no limite, depois a travessia de uma fronteira, inclusive aquela de uma comunidade, portanto de uma razo ou de uma razo de ser sociopoltica, institucional, eclesial. Se a apfase inclina quase ao atesmo, no podemos dizer que, por outro lado, ou por

isso mesmo, as formas extremas e mais conseqentes do atesmo declarado tero sempre testemunhado o mais intenso desejo de Deus? No est a, doravante, um programa ou uma matriz? Uma recorrncia tpica e identificvel? Sim e no) Uma apfase pode, com efeito, respondero Ts insacivel desejo de Deus, corresponder a ele, corresponder com ele, segundo a histria e o acontecimento de sua manifestao ou o segredo de sua no-manifestao. A outra apfase, a outra voz, pode permanecer radicalmente estranha a qualquer desejo ou, em todo caso, a qualquer forma antropo-teomrfica do desejo. Mas no prprio do desejo carregar em si sua prpria suspenso, a morte ou o fantasma do desejo? Ir na direo do outro absoluto, no a extrema tenso de um desejo que busca por isso mesmo renunciar ao seu prprio impulso, ao seu prprio movimento de apropriao? A si, e mesmo ao crdito, ou ainda ao benefcio que o ardil de um narcisismo indestrutvel poderia ainda esperar da renncia infinita? Te^temunhaj^dizia voc, prestar testemunho d

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