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A Escritura Do Desastre

Oct 23, 2016

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MAURICE BLANCHOT

MAURICE BLANCHOTA ESCRITURA DO DESASTRE

( O desastre arruna tudo deixando tudo no estado. No atinge esse ou aquele, eu no estou sob sua ameaa. na medida em que, poupado, deixado de lado, o desastre me ameaa que ele ameaa em mim o que est fora de mim, um outro que no eu que devm passivamente outro. No h alcance do desastre. Fora de alcance est aquele que o desastre ameaa, no se( saberia dizer se de perto ou de longe o infinito da ameaa de uma certa maneira rompeu todo limite. Estamos beira do desastre sem que possamos situ-lo no porvir: ele , antes, sempre j passado, e, no entanto, estamos beira ou sob a ameaa, todas as formulaes que implicariam o porvir se o desastre no fosse o que no vem, o que impediu toda vinda. Pensar o desastre (se possvel, e no possvel na medida em que pressentimos que o desastre o pensamento) no ter mais porvir para o pensar.

O desastre separado, aquilo que h de mais separado.

Quando o desastre sobrevm, ele no vem. O desastre sua iminncia, mas, pois que o futuro, tal qual o concebemos na ordem do tempo vivido, pertence ao desastre, o desastre sempre j o retirou ou dissuadiu; no h porvir para o desastre, como no h tempo nem espao em que ele se cumpra.

( Ele no cr no desastre, no se pode crer no desastre, que se viva ou que se morra. Nenhuma f que esteja sua medida, e ao mesmo tempo uma espcie de desinteresse, desinteressado do desastre. Noite, noite branca - assim o desastre, essa noite qual a obscuridade falta, sem que a luz a clareie.( O crculo, desenrolado sobre uma reta rigorosamente prolongada, reforma um crculo eternamente privado de centro.

( A falsa unidade, o simulacro de unidade a comprometem mais que sua colocao em causa direta que no resto no possvel.

( Escrever seria, no livro, devir legvel para cada um, e, para si mesmo, indecifrvel? (Jabs no nos disse quase isso?)

( Se o desastre significa estar separado da estrela (o declnio que marca o extravio quando se interrompeu a relao com o acaso de cima), ele indica a queda sob a necessidade desastrosa. A lei seria o desastre, a lei suprema ou extrema, o excessivo da lei no codificvel: aquilo a que somos destinados sem ser concernidos? O desastre no tem olhos para ns, ele o ilimitado sem olhar, o que no pode se medir em termo de fracasso nem como a perda pura e simples.

Nada suficiente ao desastre; o que quer dizer que, da mesma maneira que a destruio em sua pureza de runa no lhe convm, da mesma maneira a idia de totalidade no saberia marcar seus limites: todas as coisas atingidas e destrudas, os deuses e os homens reconduzidos ausncia, o Nada no lugar de tudo, demasiado e demasiado pouco. O desastre no maisculo, talvez ele torne a morte v; ele no se superpe, sempre suprindo a ele, ao espaamento do morrer. Morrer nos d s vezes (com erro, sem dvida) o sentimento de que, se ns morrssemos, escaparamos ao desastre, e no de nos abandonarmos a ele donde a iluso de que o suicdio libera (mas a conscincia da iluso no a dissipa, no nos deixa nos desviar dela). O desastre do qual seria preciso atenuar reforando-a - a cor negra, nos expe a uma certa ideia da passividade. Somos passivos em relao ao desastre, mas o desastre talvez seja a passividade, nisso passado e sempre passado.

( O desastre toma cuidado com tudo.

( O desastre: no o pensamento devindo louco, nem talvez mesmo o pensamento enquanto porta sempre sua loucura.

( O desastre, tirando-nos esse refgio que o pensamento da morte, dissuadindo-nos do catastrfico ou do trgico, desinteressando-nos de todo querer como de todo movimento interior, no nos permite muito menos jogar com essa questo: o que tu fizeste para o conhecimento do desastre?

(O desastre est do lado do esquecimento; o esquecimento sem memria, a retrao imvel do que no foi traado o imemorial talvez; lembrar-se por esquecimento, o fora novamente.

(Ser que tu sofreste para o conhecimento? Isso nos perguntado por Nietzsche, com a condio de que no nos equivoquemos sobre a palavra sofrimento: o submetimento, o passo do totalmente passivo em retrao em relao a toda viso, todo conhecer. A menos que o conhecimento no nos porte, no nos deporte, sendo conhecimento no do desastre, mas como desastre e por desastre, golpeados por esse conhecimento, entretanto no tocados, face a face com a ignorncia do desconhecido, assim esquecendo sem cessar.

( O desastre, preocupao do nfimo, soberania do acidental. Isso nos faz reconhecer que o esquecimento no negativo ou que o negativo no vem aps a afirmao (afirmao negada), mas est em proporo com o que h de mais antigo, o que viria do fundo das idades sem jamais ter sido dado.

( verdade que, em relao ao desastre, se morre demasiado tarde. Mas isso no nos dissuade de morrer; isso nos convida, escapando ao tempo em que sempre demasiado tarde, a suportar a morte inoportuna, sem relao com nada seno o desastre como retorno.

( Jamais decepcionado, no por falta de decepo, mas a decepo sendo sempre insuficiente.

( No direi que o desastre absoluto; ao contrrio, ele desorienta o absoluto, vai e vem, descorcerto nmade, no entanto com a subitidade insensvel mas intensa do fora, como uma resoluo irresistvel ou imprevista - que nos viria do alm da deciso.

(Ler, escrever, como se vive sob a sobrevigilncia do desastre: exposto passividade fora da paixo. A exaltao do esquecimento.

No s tu que falars; deixa o desastre falar em ti, que seja por esquecimento ou por silncio.

( O desastre j ultrapassou o perigo, mesmo quando estamos sob a ameaa de -. O trao do desastre que no se est nele jamais seno sob sua ameaa e, como tal, ultrapassagem ao perigo.

( Pensar seria nomear (chamar) o desastre como pensamento dissimulado.

No sei como cheguei a este ponto, mas pode ser que nele chego ao pensamento que conduz a se manter distncia do pensamento; pois ele d isso: a distncia. Mas ir ponta do pensamento (sob a espcie desse pensamento da ponta, da beira), no possvel somente mudando de pensamento? Da essa injuno: no mudes de pensamento; repete-o, se o puderes.

( O desastre o dom, ele d o desastre: como se ele passasse alm do ser e do no-ser. Ele no advento (o prprio do que chega) isso no chega, de sorte que eu, nem por isso, chego mesmo a esse pensamento, exceto sem saber, sem a apropriao de um saber. Ou ento, ele advento do que no chega, do que viria sem chegada, fora do ser, e como que por deriva? O desastre pstumo?

( No pensar: isso, sem reteno, com excesso, na fuga pnica do pensamento.

( Ele dizia para si mesmo: tu no te matars, teu suicdio te precede. Ou ento: ele morre inapto a morrer.( O espao sem limite de um sol que testemunharia no para o dia, mas para a noite liberada de estrelas, noite mltipla.( Conhece qual ritmo mantm os homens (Arquilquio). Ritmo ou linguagem. Prometeu: Neste ritmo, sou tomado. Configurao cambiante. O que resulta do ritmo? O perigo do enigma do ritmo.

( A menos que no exista no esprito de quem quer que tenha sonhado os humanos, at a si, nada seno um cmputo exato de puros motivos rtmicos do ser, que dele so os reconhecveis signos? (Mallarm.)

( O desastre no sombrio; ele liberaria de tudo se pudesse ter relao com algum, ir-se-ia conhec-lo em termo de linguagem e ao termo de uma linguagem por um gaio saber. Mas o desastre desconhecido, o nome desconhecido para aquilo que no pensamento mesmo nos dissuade de ser pensado, distanciando-nos pela proximidade. S para se expor ao pensamento do desastre que desfaz a solido e desborda toda espcie de pensamento, como a afirmao intensa, silenciosa e desastrosa do fora.

( Uma repetio no religiosa, sem lamento nem nostalgia, retorno no desejado; o desastre no seria ento repetio, afirmao da singularidade do extremo? O desastre ou o inverificvel, o imprprio.

( No h solido se esta no desfaz a solido para expor o s ao fora mltiplo.

( O esquecimento imvel (memria do imemorvel): nisso se des-creve o desastre sem desolao, na passividade de um deixar-ir que no renuncia, no anuncia, seno o imprprio retorno. O desastre, ns o conhecemos talvez sob outros nomes talvez jocosos, declinando todas as palavras, como se pudesse haver para as palavras um todo.

( A calma, a queimadura do holocausto, a nadificao de meio-dia - a calma do desastre.

( Ele no est excludo, mas como algum que no entraria mais em nenhuma parte.

( Penetrado pela passiva doura, assim ele tem como que um pressentimento lembrana do desastre que seria a mais doce impreviso. No somos contemporneos do desastre: est a a sua diferena, e essa diferena a sua ameaa fraterna. O desastre seria de mais, em demasia, excesso que no se marca seno em impura perda.( Na medida em que o desastre pensamento, ele pensamento no desastroso, pensamento do fora. No temos acesso ao fora, mas o fora sempre j nos tocou na cabea, sendo o que se precipita.

O desastre, o que se desestende, a desestendida sem a obrigao rigorosa de uma destruio, o desastre revm, ele seria sempre o desastre de depois do desastre, retorno silencioso, no assolador, por onde ele se dissimula. A dissimulao, efeito de desastre.

( Mas no h, aos meus olhos, grandeza seno na doura (S.W.) Direi antes: nada de extremo seno pela doura. A loucura por excesso de doura, a loucura doce.

Pensar, apagar-se: o desastre da doura.

( A nica exploso um livro (Mallarm).( O desastre inexperimentado, aquilo que se subtrai a toda possibilidade de experincia - limite da escritura. preciso repetir: o desastre des-creve. O que no significa que o desastre, como fora de escritura, se exclua dela, seja fora de escritura, um fora-do-texto.

( o desastre obscuro que porta a luz.

( O horror o honor - do nome que arrisca sempre a devir sobre-nome, retomado de maneira v pelo movimento do annimo: o fato de ser identif